São Paulo, 10 de janeiro de 2010

Palácios Cariocas

Palacete do Caminho Novo

 


Fátima Silva

 

Localizado no Rio de Janeiro, no bairro de São Cristóvão, onde hoje funciona o Museu do Primeiro Reinado, o Palacete do Caminho Novo foi a residência da controversa Marquesa de Santos, amante do imperador Dom Pedro I, de 1826 a 1829.


O romance entre Pedro e Domitilia começou em 1822, quando ela morava em São Paulo. Divorciada de um marido cruel, que a espancava, ela voltara a morar com seu pai. Para trazê-la para mais perto, D. Pedro I comprou um terreno com duas chácaras, bem próximo da residência real, o Paço Imperial da Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão. A reforma fez surgir o palacete, uma obra do arquiteto francês Pierre Joseph Pezerat, atendendo aos gostos requintados da amante do imperador.

Localizado na Avenida Pedro II, conta-se que os generosos janelões espalhados pelas salas do palácio (que lhe conferem também a nomenclatura de Solar da Marquesa), tinham por único objetivo facilitar a vigilância do imperador sobre sua amante. Da Quinta da Boa Vista, o imperador podia ver a fachada interna do palacete, aonde duas escadarias em curvas sinuosas, conduziam a um agradável jardim, com um lago cercado de árvores frondosas. Quando ele percebia alguma vela acesa ou movimentação diferente, mandava um escravo correr até lá para saber o que se passava.

Existem também rumores sobre um túnel disfarçado em adega, que ligava os dois palácios, facilitando as visitas do imperador a senhora Domitilia em “segredo”. Porém, muitos acreditam que sejam apenas especulações ou ainda uma forma de criar ainda mais mistério sobre o palacete e sobre uma história de amor que movimentou não só a cama do imperador, mas também toda a corte e os bastidores políticos da família real. O que se tem de concreto é a existência de dois túneis, um em cada palácio com características parecidas e que terminam em sadegas, mas não se comprovou a ligação entre eles.

Além disso, a história revela que o imperador, deixando de lado a reserva habitual que tinha em relação a seus romances extra conjugais, não só trouxe Domitília para o Rio de Janeiro, como apresentou-a a corte e deu-lhe o título de Marquesa de Santos, passando inclusive a frequentar as recepções que a Marquesa oferecia no palacete, não se preocupando com o que fosse dito ou pensado sobre suas atitudes.
Existem diversas causas prováveis para o rompimento definitivo do romance entre o imperador e a marquesa, em 1829. A provável influência de Domitília sobre o imperador, levando-o inclusive a demitir ministros e ter atitudes que o tornavam impopular perante a corte, era uma delas.

Haviam também boatos sobre envenenamento e maus tratos a Imperatriz Leopoldina, de quem Domitília era dama de companhia. Por outro lado, Leopoldina, que estava grávida e profundamente deprimida com os sucessivos escândalos envolvendo seu marido, tinha a simpatia de grande parte da nação e sua morte (e de seu filho) em 11 de Dezembro de 1826 levavam a crer que ela não suportara tamanha vergonha e afronta. Tudo isso refletia em impopularidade e antipatia, afetando diretamente o imperador.
O fato é que Dom Pedro I não conseguia realizar um segundo casamento visto sua fama de mulherengo e quando achou uma provável noiva em Amélia de Leuchtenberg, uma beldade de 17 anos (neta de Josefina de Beauharnais, esposa de Napoleão) o fogoso nobre não hesitou em descartar sua amante. Na verdade essa era uma condição para a realização do casamento. Dom Pedro I não só deveria desfazer o laço que o prendia a Domitília, mas também retirá-la do palacete e bani-la da cidade. Domitília então, foi pressionada a voltar para São Paulo, sendo regiamente compensada por isso. Ela vendeu o palacete ao imperador e partiu para o que passaria a ser uma vida mais recatada e dedicada a caridade, inclusive casando-se novamente.

O Museu do Segundo Reinado tem valor histórico e artístico e como o próprio nome diz dedica-se a preservação do período de reinado de Dom Pedro I no Brasil. Tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1938, foi restaurado duas vezes (em 1965, pelo professor Edson Motta e em 1970 pelos professores Wladimir Alves de Souza e Edson Motta filho), sem contudo perder suas características neoclássicas. Inaugurado como museu em 12 de março de 1979, o Palácio possui dois pavimentos, visto que foi ampliado de sua construção original. Sua decoração interna é requintada e se apresenta em bom estado, com obras de arte e peças alusivas ao relacionamento da marquesa e do imperador. Os móveis não são os originais, segundo se diz, os mesmos foram mandados queimar pela nova imperatriz, mas a decoração reconstitue o ambiente da época e reflete o modo de vida da aristocracia brasileira no início do século XIX no Rio de Janeiro.

Um prédio pode ter muito mais que a representação física do seu valor histórico. Ele pode ter mais que obras de arte e estilos arquitetônicos ímpares. Ele pode ter mais do que relíquias e mistérios subterrâneos insondáveis. Ele pode ter a alma da história que impregnou suas salas, portas e janelas e fazê-la para sempre atemporal e real de uma forma tão absoluta que ninguém possa entrar nele, sem levar consigo parte desse precioso tesouro.

 

 

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