São Paulo 03 de setembro de 2009
Palácios Cariocas - Paço Imperial
Não é de se admirar que uma cidade que foi a morada de reis e imperadores possua palácios. No Rio de Janeiro eles existem por toda a parte e trazem ainda mais particularidade a recantos diversos. Construídos nos tempos do império ou mesmo pouco depois, cada um representa nobremente o seu quinhão de elegância e história. Claro que ainda há muito a desejar em relação aos prédios históricos da cidade, afinal espera-se que sejam todos dignamente restaurados e conservados como uma herança valiosa para a posteridade. Infelizmente, burocracia e falta de iniciativa emperram as máquinas responsáveis por viabilizar tão grandioso trabalho.Eu já falei de alguns palácios anteriormente, mas inauguro aqui uma série de crônicas em que falarei de cada um em particular e mais amplamente, com a devida atenção merecida a cada um. São histórias que compõem a nossa história como um enorme quebra cabeças, ou melhor, como uma acolhedora e quente colcha de retalhos guardada para os dias frios de inverno.
O Paço Imperial foi ocupado pela primeira vez em 1743 pelo Conde de Bobadela, que pediu ao engenheiro José Fernandes Alpoim a construção de uma nova Casa dos Governadores, para sediar o governo das capitanias do Rio de Janeiro e de São Paulo. Aproveitando os edifícios já existentes no local, a Casa da Moeda e o Armazém Del Rey, Alpoim fez algumas necessárias reformas. O aspecto imponente do Paço, destacado das construções vizinhas, logo o transformou num centro político e comercial. Foi o primeiro imóvel da cidade a ter vidros nas janelas.
Com a transferência da sede do Governo para o Rio de Janeiro, em 1763, o prédio ficou conhecido como Palácio dos Vice-Reis. Várias obras e intervenções foram realizadas no Largo do Paço, hoje Praça XV, como a construção do cais de cantaria lavrada com escadas para o mar e a instalação do chafariz da Pirâmide, construído em 1779 por Mestre Valentim da Fonseca e Silva, para melhor atender ao movimento de abastecimento de água das embarcações. O chafariz, que existe até hoje, ficava naqueles tempos, junto ao mar. Em 1990, uma escavação de Pedro de Alcântara, deixou à mostra a escadaria original que levava ao cais. A escada e parte do cais originais foram restaurados e estão expostos a visitação pública.
Em março de 1808, com a vinda da família real para o Rio de Janeiro, a cidade passou a ser a sede da Monarquia e o Paço tornou-se residência da Família Real, recebendo a denominação de Paço Real. Novas modificações foram feitas dando a fachada do prédio um aspecto de palácio mais condizente com os gostos da realeza. Apesar das reformas, o palácio, considerado desconfortável para a Família Real, permaneceu apenas como sede do governo, local de despachos e recepções oficiais e a família real se transferiu para a Quinta da Boa Vista. Com a declaração da Independência em 1882, o Paço passou a ser chamado Paço Imperial. Entre 1822 e 1890, foi palco de todos os eventos políticos, religiosos e econômicos e era a sede do governo do país. Imponente e nobre em sua arquitetura tornou-se a sede do governo imperial e cenário de momentos históricos como a aclamação de D. Pedro I e D. Pedro II, o Dia do Fico (1822) e a assinatura da Lei Áurea, pela Princesa Isabel (1888).
Após a Proclamação da República, o Paço perdeu a nomenclatura de palácio, passando a sediar o Departamento de Correios e Telégrafos. Novas mudanças foram feitas para abrigar a repartição, mas em 1938, o prédio foi, felizmente, tombado pelo Patrimônio Histórico. Apesar disso, somente em 1982, iniciaram-se os trabalhos de restauração. Desde 1985, o Paço Imperial é um centro cultural vinculado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. A restauração do prédio foi cuidadosa no sentido de preservar as marcas deixadas pelas várias mudanças nas diversas fases da história. Pode-se, portanto, observar elementos antigos e contemporâneos coexistindo em relativo equilíbrio. O Centro Cultural mantém, além das exposições, espaços abertos para eventos como teatro, concertos musicais, seminários, conferências e inaugurou uma onda cultural na Praça XV e imediações, que atrae um público estimado em três milhões de pessoas por ano.
Não existe explicação para os obstáculos burocráticos que impossibilitam projetos de restauração e manutenção de prédios históricos e afins, acredito que sempre existam alternativas para que o patrimônio cultural de uma cidade seja tratado como deve; como um tesouro inestimável. Se formos buscar um exemplo disso, podemos citar nossos colonizadores portugueses e sua iniciativa em transformar antigos castelos e prédios históricos em hotéis de luxo que além de terem como compromisso preservar a história intocada, ainda criam novos empregos.
A história de cada cidade, de cada país, não pode ruir em pó e má vontade, ela deve estar aberta como um livro de gravuras brilhantes e se vivemos num mundo em que tudo se copia, então porque não copiar exemplos inteligentes e dignificantes como o de Portugal?