São Paulo, 01 de janeiro de 2009
O último baile
O último baile do império brasileiro aconteceu no Rio de Janeiro em novembro de 1889, mais precisamente, na antiga ilha dos ratos, em um castelo verde claro. A ilha que se chamava assim por causa dos ratos que, dizem, vieram ter a ela fugindo das cobras da Ilha das Cobras, hoje é chamada de Ilha Fiscal. Esse novo nome é uma referência ao que se destinava a construção na época, um posto aduaneiro do Ministério da Fazenda. Era ali que se fazia a fiscalização de todos os navios que entravam na Baía de Guanabara, de onde, aliás, se tem uma vista privilegiada. O baile foi uma homenagem aos tripulantes do couraçado chileno Almirante Cochrane e reuniu cerca de cinco mil pessoas, a maioria delas, na área externa da construção.
A festa foi embalada a polca e valsa, por duas orquestras que ficaram posicionadas em lados opostos da parte central do castelo que é aberta. Duas mesas em formato de ferradura foram postas na área externa do prédio e ali serviram um jantar para 500 convidados. Comidas exóticas e muito vinho deram o tom a festa que gerou muita polêmica, pelo comportamento pouco convencional dos convidados (muitas peças íntimas foram encontradas nos arredores da ilha logo após o baile) e pelo luxo extravagante com que estes se apresentaram, visto a insatisfação geral do povo com a Monarquia.
Adolpho José Del Vechio o responsável pelo projeto, se inspirou nos castelos franceses para construir o prédio. A singularidade fica por conta de o castelo ocupar quase toda a extensão da ilha e ficar ladeado das águas da Baia de Guanabara. Distante cerca de 1 km do continente, impossível não se perder em conjecturas sobre o porquê de tamanha beleza em um local onde não se pretendia mais que o trabalho. As obras de construção do castelo duraram cerca de sete anos e meio e tiveram a participação de escravos artesãos e portugueses nos refinados detalhes que envolvem o acabamento em pedras do prédio. A inauguração se deu em 1889, mesmo ano do baile.
No torreão do castelo que tem suas torres em forma de seta, um autêntico relógio Krussman de quatro faces, onde é necessário dar corda duas vezes por semana. Ele foi instalado há cem anos atrás e funciona perfeitamente com as peças originais. Vitrais importados da Inglaterra estão por toda parte, trazendo uma luz difusa e colorida para os cômodos incrivelmente modestos do castelo. Apesar da ostentação exterior do castelo, os salões são modestos em tamanho e ornamentação. Por ocasião do baile, que era mais uma tentativa de resgatar a simpatia e o glamour da monarquia já em decadência, móveis e utensílios de luxo foram trazidos para ornamentar a festa.
Na parte superior do castelo, no final de uma escadaria estreita, escura e em caracol, que revela vitrais ou vigias em cada curva, chegamos ao salão onde foi realizada a troca das bandeiras brasileira e chilena no dia do baile. Um gesto simbólico de amizade entre os dois países, presenciado por poucos. O piso em parquet, onde não se pode pisar, exibe dezesseis tipos diferentes de madeira da Amazônia. Vitrais enfeitam as paredes. Dois deles, frente a frente, exibem as esfinges de D. Pedro II e da Princesa Isabel circundadas por brasões. Na abóbada do teto sobre a sala, um fundo azul exibe um sem número de estrelas pequenas e amarelas.
Detalhe da escada
Em 1893 o prédio sofreu muitas avarias durante a Revolta da Armada (rebelião da esquadra brasileira contra o governo de Marechal Floriano Peixoto) devido aos projéteis que atingiram suas paredes, vitrais e móveis. Um projeto museológico recriou ambientações do século XIX onde foram utilizadas réplicas de mobiliário e tapeçaria. Na saída um lustre original confeccionado em bronze e opalinas brancas. Em uma sala fechada, pode-se ver, através de uma vitrine, uma mesa de jantar para doze lugares, ornamentada com prataria, louças e cálices de cristal do século XIX. Uma das salas apresenta réplicas da indumentária de época usada na ocasião do baile. Ali também está um convite original, com data de 19 de outubro. Essa data foi adiada em razão da morte de D. Luís, rei de Portugal e sobrinho de D. Pedro II. Um inacreditável documento revela uma caligrafia surpreendentemente esmerada, é o documento oficial da criação da ilha fiscal. Outra parte do castelo apresenta, através de imensas maquetes, animais empalhados e gravuras, o trabalho da marinha brasileira na Amazônia e na Antártida.
Em um dos salões do castelo existe uma cópia, em menor escala, do quadro o ”O último baile da Ilha Fiscal”. O original, de Francisco Aurélio de Figueiredo, se encontra no Museu Histórico Nacional, na Praça XV. Na minha humilde opinião, deveria chamar-se “O baile de despedida”. Sobre uma ilha festiva e pomposa, com a barca que trazia os convidados do continente ao fundo, a representação da República espera quieta e confiante emoldurada por um céu de crepúsculo. Seis dias então, separavam a grandiosa festa, da decadência definitiva da Monarquia.