São Paulo, 09 de abril de 2008
O Rio de Janeiro continua lindo...
No dia primeiro de março de 1565, Estácio de Sá fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Ao desembarcar entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, ele ergueu ali as suas defesas contra os remanescentes franceses. Indesculpável não mencionar que o nome "Rio" se deve à uma impressão equivocada da segunda expedição exploratória comandada por Gaspar de Lemos (1501) que, erroneamente, supôs ser a baía a foz de um rio.
Ao completar 443 anos de fundação, a cidade do Rio de Janeiro ainda é uma bela senhora, rematada aqui ou ali pela necessidade do crescimento demográfico e da praticidade de locomoção das pessoas. Nem mesmo comparando fotos antigas com fotos modernas pode-se supor o quanto ela foi transformada ou alterada através dos tempos. E que, apesar disso, pouco perdeu de seu encanto natural.
No alto do Morro do Castelo —à época Morro de São Januário ou do Descanso e onde atualmente fica o bairro do Castelo— iniciou-se a povoação do Rio, por tratar-se de um local que favorecia a defesa do litoral proporcionando uma ampla visão da baía. Lá foi construída uma pequena cidade murada. Devo ressaltar, porém, que os nomes São Tiago e São Sebastião também são atribuídos ao mesmo morro, pois eram nomes dados às fortalezas, fortins e baterias que existiam no local. Tantos nomes santos não são nenhuma surpresa visto que nossos colonizadores eram católicos fervorosos e as expedições, além de seu objetivo comercial tinham, também, o interesse de difundir o catolicismo aos povos que o desconheciam. Esse interesse é explicado pelo fato de que qualquer culto religioso, que não fosse o católico, era totalmente desaprovado e proibido pela Coroa Portuguesa.O morro foi demolido em 1922, quando a cidade já havia se expandido para a Praça XV, São Cristóvão, Tijuca e Zona Sul. O acervo de esculturas e pinturas, inclusive o marco inaugural da cidade, que estavam nas edificações do morro foram então transferidos para vários pontos da cidade.
Procuro imaginar a vida das pessoas naqueles tempos da fundação da cidade, com pântanos e lagoas abundando ao derredor dos morros dificultando todos os acessos. Mesmo após esse período de lento crescimento urbano, custa-me crer numa vida confortável quando se tinha de buscar água em chafarizes e fontes distribuídas pela cidade, ou ainda, comprá-la de escravos que se chamavam à época: aguadeiros.
Até o século XVIII, buscava-se água na foz do rio Carioca que atravessava alguns bairros da cidade, como o Catete, o que representava percorrer um longo caminho em penosa dificuldade. Somente em 1744 iniciou-se a construção do Aqueduto da Carioca (atualmente Arcos da Lapa), uma obra que durou seis anos. Em 1896 circulou o primeiro bonde por cima do aqueduto. E ainda hoje ele range pelos trilhos levando e trazendo as gentes da Estação Carioca para Santa Tereza e vice e versa. Mas já não há qualquer rio por ali.
O Campo de Santana, hoje parque que ocupa o centro da cidade, bem próximo à Central do Brasil, outrora era um descampado que abrigava um depósito de toda sorte de detritos, um verdadeiro lixão. Sua situação só mudou com a vinda da família real. Iniciou-se então um aterramento e tratamento do local que passou a ser utilizado para realização de festas públicas, religiosas e oficiais. Essa história de evolução do parque não impede que ele, hoje, apesar da beleza que sem dúvida apresenta e das melhorias pelas quais passou, abrigue moradores de rua e seja apenas mais um ponto de acesso no dia-a-dia atribulado dos passantes. Como, aliás, muitos outros parques da cidade.
Afora as dificuldades de locomoção e saneamento daqueles tempos, o que mais me instiga a curiosidade é mesmo a aparência da terra primitiva, ainda sem as grandes alterações, aterros ou desmontes pelos quais passou ao longo dos séculos. A Baía de Guanabara, meu cartão postal predileto, deveria, sem dúvida, apresentar vívido espetáculo aos olhos dos estrangeiros. Imagino a floresta abundante e verde contrastando com a praia límpida e os altos morros da vizinhança. Quase posso ver o mar encrespando na faixa de areia brilhante enquanto os visitantes europeus assombrados baixavam suas velas e ancoravam suas caravelas.
O naturalista inglês Charles Darwin a bordo do Beagle, navio em missão geográfica, aportou no Rio em três de abril de 1832 e registrou assim as suas impressões do que viu; “Vista logo ao deixar o Rio sublime, pitoresca, cores intensas, predomínio do tom azul...grandes plantações de cana-de-açúcar e café...véu natural de mimosas...Florestas parecidas, mas mais gloriosas do que aquelas gravuras (referia-se às gravuras do Brasil que vira em seu país) raios de sol; plantas parasitas; bananas; grandes folhas; sol mormacento. (...)”
Enseada do Botafogo, em desenho de Conrad Martens que também estava com Darwin no Beagle. À época todas as expedições, fossem científicas ou exploratórias, traziam desenhistas à bordo.
Naqueles tempos os índios habitavam à beira da Lagoa de Sacopenapã (atual Rodrigo de Freitas) que tinha o dobro de seu tamanho atual e onde se vivia da pesca. A Lagoa sofreu sucessivos aterros de 1808 até a década de 70 quando foi tombada pelo patrimônio histórico. Ela era límpida como nunca mais veremos, apesar do projeto de despoluição pelo qual passou entre 1980 e 1990. Em várias citações históricas é descrita como um “espelho d água” o que me faz indagar como poderia ser ainda mais bonita essa que é uma das vistas mais elegantes da cidade. Hoje, apenas os pedalinhos e os mergulhões se aventuram por aquelas águas, o que de maneira alguma, desmerece o lugar.
Para a expansão da cidade necessário foi perfurar caminhos alternativos pelos morros típicos da nossa topografia regional em intermináveis e surpreendentes túneis. Construímos vias de acesso e pontes para desafiar o contraste de montanhas e mares que compõem uma cidade belíssima e rica em sua diversidade. O mar foi aterrado em 1.200.000 m2 para a criação de uma via expressa que assombra aqueles que conhecem sua história. O Aterro do Flamengo, que liga o centro à zona sul do Rio de Janeiro é uma obra grandiosa de desafio à natureza. Para se ter uma idéia; a Igreja de Santa Luzia ficava à beira de uma praia de mesmo nome. Hoje está tão distante do mar que isso parece absurdo.
Posso imaginar a inauguração da Avenida Beira-Mar, Mar — ainda hoje com o mesmo nome, ela percorre os bairros do Centro, Catete, Glória e Flamengo— em 1912, mesmo sem estar totalmente concluída, com suas luminárias antigas fazendo belo conjunto com as senhoras de chapéus e sombrinhas e os cavalheiros de panamá e bengalas, vigiando suas crianças saltitantes vestidas de marinheiro, em meio à algazarra festiva. Á essa altura onde estavam nossos índios?
A história da cidade fala de coisas que deixaram de existir e jamais veremos outra vez, de coisas que passaram e existir embora pareçam sempre ter existido aqui e, ainda, de coisas que foram mudadas, transformadas pela necessidade ou pela vaidade dos homens. Indiferente a isso, o Rio de Janeiro completa 443 anos de idade e se alguma caravela perdida no tempo se aproximasse da baía num dia de sol sem nuvens, ainda deixaria seus ocupantes boquiabertos com o que veriam; “o Rio de Janeiro continua lindo!”.