São Paulo, 05 de março de 2009
O porto do Rio de Janeiro
Em 1808, D. João VI colocava o Brasil na rota do comércio exterior com a promulgação da Carta Régia que abria os portos às nações amigas. A carta deu impulso também à indústria manufatureira e ao comércio, atividades proibidas antes da vinda da família real para o Brasil. Na cidade do Rio de Janeiro, em princípios do século XX os serviços de expedição de mercadorias para o exterior e para os estados por via marítima, assim como o recebimento das que vinham de fora, eram feitos principalmente através de saveiros que atracavam em pontes de madeira, cais de pequeno calado d´água. Apenas em algumas dessas construções acostavam vapores pequenos. Por volta de 1870, com a construção da doca da Alfândega, surgiram os primeiros projetos para o desenvolvimento do porto do Rio de Janeiro, que funcionava através de instalações dispersas.
A função tipicamente portuária da Baía de Guanabara ocasionou a perda de mais de 5km de extensão do litoral, para aterros que substituíram enseadas, pontões, praias, ilhas e falésias. Desapareceram locais como Prainha, Valongo, Praia Formosa e a Ilha das Moças entre outros e com eles também alguns monumentos históricos como o Aljube e a Estação das Barcas da Prainha. As obras tiveram como objetivo aumentar, facilitar e modernizar a funcionalidade do porto.
O cais do Porto do Rio de janeiro compreende as orlas do Centro, Gamboa, Saúde, Santo Cristo e Caju e se estende por 6.740 m de cais contínuo. Ele atende aos estados de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia e Sudoeste de Goiás, entre outros. Administrado pela Cia. Docas do Rio de Janeiro é um dos que mais movimenta em valor de mercadorias e tonelagem, no país. Minério de ferro, manganês, carvão, trigo, gás e petróleo são apenas alguns dos produtos escoados.
A sua inauguração ocorreu em 20 de julho de 1910, passando a ser administrado por Demart & Cia. De 1911 a 1922 pela Compagnie du Port de Rio de Janeiro e de 1923 a 1933 pela Companhia Brasileira de Exploração de Portos. Em 16 de janeiro de 1936, segundo a Lei nº 190, foi constituído o órgão federal autônomo denominado Administração do Porto do Rio de Janeiro, que recebeu as instalações em transferência ficando subordinado ao Departamento Nacional de Portos e Navegação, do Ministério da Viação e Obras Públicas. Finalmente, em 1973, o Decreto nº 72.439 aprovou a criação da Companhia Docas da Guanabara, atualmente Companhia Docas do Rio de Janeiro.
Quando passo pela Rua Rodrigues Alves, que margeia a zona portuária do Rio de Janeiro sempre me vem um sentimento de abandono e medo, pois o lugar é deserto e sombrio. A maioria dos armazéns está vazia e em ruínas. O elevado da perimetral lança sua sombra implacável sobre toda a rua e esconde qualquer vislumbre do cais que se estende por detrás dos enormes armazéns fechados. Somente se vê o movimento do trânsito, muitas vezes caótico, e de pessoas nos pontos dos ônibus espalhados aqui e ali. Acredito mesmo que muitos cariocas imaginam o porto como um lugar sujo, mal cheiroso e tumultuado, pois que seria um prolongamento do que vemos ali.
Apesar disso, o Porto me parece muito organizado e silencioso, visto do alto do elevado que serpenteia, desde a Praça XV até o Caju. Pouco movimento se vê, além de guindastes, contêineres e mercadorias maiores como automóveis, estocadas em grandes pátios, mas o mar e os contornos da cidade, ao longe, trazem uma moldura ímpar ao local, emprestando a aura dos portos descritos em romances. Apesar disso, é apenas uma ínfima parte do Porto que se apresenta aos olhares curiosos dos passantes.
Ali na Praça XV, está o píer da Marinha, aberto à visitação. De uma beleza limpa e incomparável ele abriga além de um centro cultural, um submarino, um helicóptero, o rebocador Laurindo Pita, remanescente da Primeira Guerra, e até objetos resgatados de navios naufragados, tudo exposto a visitação. O lugar está sempre cheio o que é uma prova real de que a população está à procura de saber mais sobre sua cidade e sua história. Um lugar que serviu como porta de entrada para o desenvolvimento da cidade, como o Porto, não deve ficar relegado às transações comerciais apenas. Que se abram as portas ao conhecimento, então.
Atualmente tem-se falado muito na revitalização do Porto do Rio de Janeiro o que já não era sem tempo. O projeto que compreende um shopping, um aquário (que será o maior da América Latina), um centro cultural e bares e restaurantes com vista para o cais, pretende trazer mais pessoas ao local e além de melhorar o aspecto geral do Porto como um todo, vai trazer mais conforto a quem transita por ali. Toda essa estrutura deve ocupar alguns armazéns que estão vazios e pretendem desfazer a impressão ruim que até agora deixava nos turistas que embarcavam ou desembarcavam em cruzeiros de luxo. Certamente quem ganha com isso são os moradores da cidade que terão mais um local onde parte da história de sua cidade será devidamente resgatada.
Eu imagino o Porto do Rio de Janeiro, fervilhando das gentes e das embarcações, ainda nos tempos do império, claro sob a luz de um sol inclemente no momento mais intenso do dia. Posso ouvir vozes de comando se sobressaindo às cantorias e algazarras comuns às aglomerações. O barulho dos embarques e desembarques, a balbúrdia de crianças e gaivotas, enquanto toda uma sorte de permutas se fazia no ir e vir das embarcações. Posso imaginar os lenços se agitando na despedida de entes queridos e os mesmos lenços agitados na alegria incontida do seu retorno. Posso mesmo ouvir os tiros de canhão trocados a cada nova embarcação que vinha ter na Baia de Guanabara, uma tradição peculiar daqueles tempos. Apesar de morar no Rio de Janeiro, o Porto para mim é um lugar que vejo sempre ao longe e com reservas, embora minha curiosidade sempre peça mais. Aguardo, portanto, com ansiedade o momento de concretização dos projetos de revitalização do Porto e que dessa vez se abram as portas para a população que quer conhecê-lo de perto, deixando de ser um enigma por detrás do abandono e do descaso.