São Paulo, 03 de janeiro de 2008




O bairro Imperial

 


Fátima Silva

 

 

Após as lembranças de Natal vieram-me à memória alguns bairros que visitei na minha infância. Lembro-me de, aos domingos, irmos às Praias da Urca e do Bananal, sempre após uma missa matutina, claro! Pelo menos uma vez fomos a Paquetá, uma ilha pequena e charmosa para onde só é possível ir de barco. Recordo-me nitidamente de meus pés afundando na lama enquanto eu entrava no mar da Praia da Moreninha. Uma sensação desagradável, mas que não me desmotivava aos brinquedos na água.

Um dos lugares que mais gostava (depois da praia, claro!) era a Quinta da Boa Vista. Esse lugar por si só é um convite ao lazer e a alegria, pois reúne, ali, em São Cristóvão: o zoológico da cidade, o Museu da Fauna, o Museu Nacional e a Quinta com seus jardins, lagos, grutas, árvores centenárias, pontes e uma história que remonta aos tempos do império. As terras pertenciam a Quinta do Elias, e seu dono era Elias Antônio Lopes, abastado comerciante da época. Com a vinda da família real para o Brasil, Elias doou a propriedade como presente de boas vindas a D. João VI, que agradado da vivenda, resolveu ali fixar residência. O casarão, que já era amplo, sofreu melhorias e acréscimos e, aos poucos, os acessos à propriedade foram sendo melhorados, inclusive com a aquisição de terras vizinhas. A área, composta de alagadiços, manguezais e lagoas significava um grande transtorno àqueles que pretendiam ir prestar honras ao soberano. Isso muito contribuiu para as melhorias da Quinta e também de seus arredores que viriam futuramente transformar-se no bairro de São Cristóvão. Muitos nobres começaram a adquirir terras e construir suas casas no entorno da quinta. O local passou por muitas reformas até o seu formato de hoje, o Portão monumental, réplica do portão da Sion House em Londres, que antes ficava á entrada da quinta, agora se encontra a saída do zoológico. Como residência oficial da família real, a Quinta (e o palácio de São Cristóvão, hoje Museu Nacional) passou por várias reformas, com profissionais renomados da época, até tomar formas mais nobres. O objetivo era transformar o local na Versalhes brasileira.

O meu lugar preferido, dentro da Quinta, era sem dúvida alguma, o Museu Nacional. Desde o seu jardim cheio de flores até a escadaria, já dentro do palácio, que levava ao pavimento superior eu ficava encantada com a amplitude dos salões, das portas e janelas. A luz sombria e o aspecto mal cuidado me traziam mais encantamento. O silêncio pesado, somente conspurcado pelas pisadas no assoalho antigo e o murmurar respeitoso dos visitantes, me assustavam sobremaneira, mas eu sentia como se estivesse entrando num mundo a parte, distinto, misterioso. E tinha uma curiosidade enorme de entrar nas salas fechadas ao público ou subir pelas escadas impedidas. Até hoje, quando visito o museu, gosto de me demorar em suas varandas laterais e observar os pátios internos do casarão, fechados a visitação. A sala dedicada ao Egito Antigo era minha favorita. Desde aquele tempo, ainda muito criança, eu já me via fascinada com a história das múmias ali guardadas. Acreditem-me; eu lia as plaquetas explicativas. Aqueles objetos antigos, aquelas tumbas ricamente desenhadas e misteriosamente fechadas, as múmias de faraós e sacerdotes, os pergaminhos se decompondo ao sabor dos tempos. Tudo me deixava extasiada e eu poderia ficar horas somente olhando cada detalhe, cada pequeno vislumbre de uma história que fascina e intriga. Cada vez que visito o Museu Nacional penso em como ele poderia estar mais bem conservado, em como suas instalações poderiam ser mais sabiamente aproveitadas e me pergunto porque isso não acontece.

A Quinta propriamente dita se estende ao redor do palácio como um tapete verde, intercalado de lagos e alamedas. Aos domingos é possível vê-a totalmente cheia, de famílias inteiras e casais de namorados, de ambulantes com seus badulaques vários e barraquinhas de lanches. Uma multidão colorida de crianças e balões, toalhas estendidas nos gramados e a balbúrdia própria de locais onde há vida e movimento. Nos lagos, os pedalinhos vão e vem ao sabor das águas esverdeadas dos lagos. Lembro-me que quando criança uma inveja involuntária me abatia quando via as crianças que se aventuravam dentro dos lagos num dia quente de verão. Hoje isso ainda acontece, mas o meu sentimento mudou para espanto, porque apesar de bonitos ao sol, os lagos não são próprios para banho.

sApesar de não fazer parte da Quinta, o Pavilhão de São Cristóvão é outro lugar que tenho nas minhas memórias de menina. Lembro-me de uma exposição do exército e de uma confusa feira que se estendia do lado de fora. Era a Feira dos Paraíbas um evento tradicional do bairro que data de 1945 e se caracteriza por barracas que oferecem artigos de artesanato, assim como a gastronomia e o forró típicos do nordeste brasileiro. A feira tomou forma quando da chegada de retirantes nordestinos em busca de trabalho. De sua reunião com os nordestinos que aqui já estavam, fazia-se a festa regada a comida nordestina e muito forró. Durante 58 anos a feira funcionou no Campo de São Cristóvão e em 2003 foi transferida para dentro do Pavilhão que foi reformado, com barracas padronizadas e um conforto maior para os visitantes da feira (algo em torno de 250 mil por mês). Só quem já passou em meio às barracas (700 fixas) numa noite de sábado entende o que é ser transportado para outra região, para outra cultura, sem sair do Rio de Janeiro. Sem dúvida nenhuma os nordestinos conseguiram trazer um muito de sua terra e transformar a feira dos paraíbas, (que agora se chama Centro de Tradições Nordestinas Luiz Gonzaga), num pedacinho do nordeste. A mudança para dentro do pavilhão não destruiu a originalidade da feira, trouxe apenas mais conforto, mais espaço e colocou definitivamente a feira num patamar digno de patrimônio de nossa história. Mas, não são as barracas padrão, nem a “ordem” estabelecida, nem os palcos para eventos maiores que fazem a diferença e sim os barraqueiros e os cheiros inconfundíveis da comida nordestina, os trios de forró e suas sanfonas incansáveis e mais que tudo; aqueles que fecham os olhos e sorriem felizes, enquanto dançam ao som de sua terra. Somente um evento nascido da saudade e do amor de uma gente por sua terra e sua cultura, poderia permanecer por tanto tempo sem esmorecer ou perder sua força.

Em São Cristóvão podemos encontrar, além do casario antigo, da Quinta da Boa Vista e do Museu Nacional; o Museu do 1º Reinado, o Museu Militar Conde de Linhares, o Museu de Astronomia e Ciências Afins (Observatório Nacional) e as Igrejas de São Cristóvão e Santa Edwiges. É de impressionar que um bairro de tanta importância histórica e de tamanho legado cultural possa enfrentar problemas para restaurar a sua identidade e ocupar o lugar que lhe cabe por direito.

 



Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco