São Paulo 05 de junho de 2009
Necrópoles cariocas
“Longe da feição macabra, devemos ver apenas, no cemitério,
uma alta expressão do passado, suavemente lembrada pela saudade.”Pedro Bruno
Confesso que foi difícil encontrar um começo para falar dos cemitérios de minha cidade, confesso mesmo que não podia considerar o assunto senão como macabro, mas quanto mais me aprofundava em pesquisas, mais me via concordando com a frase de Pedro Bruno. Artista de grande sensibilidade, ele idealizou e cuidou do mais singelo dos cemitérios do Rio de Janeiro, o dos Pássaros, que fica em Paquetá a Ilha-bairro da cidade.O que começou com as esculturas Pássaro Abatido, Vôo do Pássaro Cansado e A coruja, hoje encerra dezenas de sepulturas de vinte ou trinta centímetros onde estão enterrados pássaros da ilha e vindos de fora também. O cemitério não é cuidado senão por moradores antigos da ilha e existe alta rotatividade dos túmulos devido a fácil decomposição dos ossos das aves. Estima-se que o cemitério exista há mais de 50 anos, levando-se em consideração a data do falecimento de Pedro Bruno, em 1960, aos 80 anos.
Paquetá também tem um cemitério de humanos e ele também esteve sob os cuidados de Pedro Bruno, que foi seu zelador artístico a partir de 1933, transformando-o num recanto de arte. O cemitério de Santo Antônio até 1860 era uma grande chácara particular pertencente à Dona Escholástica Maria Lisboa. Havia algumas catacumbas ao lado da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus do Monte e chamava-se Cemitério do Bom Jesus, tinha mais de 90 anos de uso e não havia espaço para mais sepultamentos. Mas, a chácara foi deixada em testamento pela sua proprietária para o Senhor Bom Jesus e para Nossa Senhora da Conceição o que possibilitou a construção do novo cemitério. No local da antiga casa foi construída uma capela toda de pedras onde Pedro Bruno colocou dois quadros seus; “São Francisco de Assis falando aos pássaros” e “Cristo ao Luar”.
No Brasil, durante o período colonial e parte do Imperial, os sepultamentos eram feitos nas Igrejas. Isso se devia a crença de que quanto mais próxima a pessoa fosse enterrada a um lugar sagrado, mais perto de Deus se encontrava. Evidente que esse sepultamento dependia de que em vida a pessoa tivesse determinada posição social e que sua família pudesse arcar com as despesas para tal. Quanto mais alta a posição do defunto, mais próxima era sepultada do templo e até mesmo do altar.Na Colônia, porém, tanto colonos quanto escravos ficavam entregues ao serviço, praticamente voluntário, da Santa Casa de Misericórdia, fundada no Rio de Janeiro em 1582, pelo Padre José de Anchieta. Os negros vindos da África que morriam antes de serem escravizados eram enterrados ao redor das Igrejas ou mesmo deixados pelas ruas ou jogados no mar. Diante da necessidade de um lugar específico para os sepultamentos, os franciscanos doaram um terreno para construir o cemitério, em 1655. Chamava-se cemitério de Santo Antônio e ficava onde hoje fica o Largo da Carioca. Este cemitério como muitos da época, era notório pela falta de cuidados e onde invariavelmente havia mau cheiro e corpos insepultos. Em 1709 ele já se achava completamente lotado. A área onde se encontra a Igreja de Santa Rita também foi usada como cemitério de escravos. Existia também um cemitério no Campo do Rocio, depois Largo de São Domingos, igual aos outros em se tratando de corpos à flor da terra e caos.
Muitos escritores e artistas retrataram o horror dos sepultamentos em covas rasas e também dos cadáveres à espera de mais alguns para serem sepultados em valas comuns. Vários relatos descreviam os cemitérios católicos como sendo lugares que retratavam somente o desespero e o abandono.
Em 1769 o mercado negreiro e o cemitério dos Pretos Novos, foram transferidos para o Valongo, no Caminho da Gamboa, hoje Rua Pedro Ernesto. Evidências deste cemitério foram encontradas em 1996, pelos herdeiros de um prédio que pretendiam realizar reformas no local, o cemitério foi localizado embaixo do prédio que logo se transformou num sítio arqueológico e mais tarde um centro cultural. Esse cemitério é descrito com detalhes de muito horror por pessoas que testemunharam cenas de corpos insepultos, ossos pulando da terra na passagem das carroças e o mau cheiro que impregnava o lugar. De 1824 a 1830, um livro de registros de óbitos da Igreja de Santa Rita, contabilizou cerca de quatro mil sepultamentos no local. Registro de um vergonhoso capítulo da história brasileira, o Valongo (entenda-se Mercado de Escravos e Cemitério) merecia registros mais fiéis e consistentes dos que encontrei em minhas pesquisas.
Em 1810, em função do Tratado de Amizade entre Brasil e Inglaterra, foi permitido construir um cemitério destinado aos protestantes europeus, visto que no Brasil só havia cemitérios católicos. Criou-se então o Cemitério dos Ingleses, localizado na Gamboa na face do morro da Providência que na época era voltada para o mar. Diferente dos cemitérios católicos, o cemitério presbiteriano era cercado de árvores, bucólico, limpo, sereno e tranqüilo, admirado por muitos e descrito por quem o visitou como sendo de uma beleza sem par. As sepulturas também não apresentavam sinais aparentes de distinção entre os mortos.
Em 1839, por causa da forma crítica de funcionamento da Santa Casa de Misericórdia, construiu-se o Cemitério do Caju, em 1851 passou a ser denominado São Francisco Xavier, apesar de ainda hoje ser chamado como o “do Caju”. Considerado um dos maiores do Brasil, com 668.720m2, localiza-se no bairro do Caju, zona norte do Rio de Janeiro. A época de sua construção, ele ficava de frente para a Praia de São Cristóvão, desaparecida como muitas outras por sucessivos aterros em vários pontos da cidade. Imóveis vizinhos foram adquiridos de forma a aumentar o terreno, e até um morro da zona norte da cidade foi usado para aterrar a área pantanosa numa reforma que visava transformar o cemitério para o uso público. Lá existem ricas sepulturas e imponentes capelas construídas ao longo dos tempos, dentre elas a do Barão de Mangaratiba e do Visconde do Rio Branco. Dentro dele existe ainda uma quadra reservada aos não católicos, onde foram sepultados judeus e protestantes, repleta de sepulturas antigas que foram tema de estudos e teses diversas. Há também uma área reservada aos padres católicos da cidade denominada de Cemitério de São Pedro, datada de 1866. Mais tarde, desmembrou-se em mais dois cemitérios; o Cemitério da Venerável Ordem Terceira da Penitência em 1858 e o da Venerável Ordem Terceira do Carmo, de 1859, que possui diversas sepulturas de valor artístico e um edifício usado como cemitério vertical denominado Memorial do Carmo.O cemitério São João Batista em Botafogo, zona sul da cidade do rio de Janeiro, datado de 1852, substituiu o de Pedro II que existia junto ao hospício da praia e era frequentemente invadido pelas águas. É um dos mais ornamentados do Brasil com dezenas de capelas ricas e sepulturas artísticas e obras em gesso, mármore e bronze. Nele há uma quadra reservada as irmãs de Caridade de São Vicente de Paulo, em gratidão as freiras da Santa Casa de Misericórdia que assistiam os enfermos e asilados do hospital. Historicamente o São João Batista e o São Francisco Xavier foram os dois primeiros cemitérios da cidade a permitir enterros para pessoas de qualquer classe social.
Também por volta de 1850 o Cemitério de São Francisco de Paula, mais conhecido como o “do Catumbi”, foi o primeiro construído a céu aberto destinado a não indigentes. Foi construído com urgência por ocasião das epidemias que devastavam a cidade, principalmente a da febre amarela. Somente no primeiro ano foram enterrados ali cerca de três mil corpos com morte provocada pela febre amarela, além de 343 irmãos da congregação. Também foram transferidos para lá 450 restos mortais, em sua maioria da nobreza brasileira que estavam sepultados na Igreja de São Francisco de Paula.
A criação dos cemitérios municipais veio não só para alterar o quadro de horror dos cemitérios dos tempos do Brasil colônia, como para alterar os rituais de sepultamento que àquela época tinham por objetivo a sensação de proximidade entre os mortos e os vivos. Enquanto estes últimos pisavam sobre os pisos das igrejas, ou sentavam-se sobre os bancos nela dispostos, acreditavam estar em contato com seus entes queridos numa contínua homenagem póstuma, visto que estavam realmente sobre as sepulturas deles.
Entre o bucolismo e a modernidade de cemitérios mais novos como o Jardim da Saudade em Sulacap zona oeste do Rio de Janeiro, e o tradicionalismo e obras de arte de cemitérios mais antigos como o São João Batista, em Botafogo, zona Sul do Rio de Janeiro, existem as mesmas expressões de homenagem e saudade. Sejam elas traduzidas em obras de arte, ou em natureza pura e simples querem apenas trazer uma moldura mais bonita a inevitável etapa derradeira da vida.