São Paulo, 03 de maio de 2008



Morros da nossa história

 


Fátima Silva

 

 

De tantas coisas que já falei aqui, uma tem se repetido várias e várias vezes: os morros do Rio de Janeiro. Eu falei de morros famosos, morros que já nem existem mais e também daqueles que foram transformados em vias para ampliar os acessos da cidade. Falei de como gosto deles, dos que sei nomear, daqueles que vejo apenas ao longe, no horizonte. Falei de como todos me dão uma sensação de limites, de lar, de aconchego, além de enfeitar como uma moldura a beleza ímpar da cidade. Mas confesso que pouco falei de sua importância fundamental nos primórdios da colonização e não poderia perder a excelente oportunidade de fazê-lo.

Se hoje alguns morros são símbolo de pobreza e violência isso não desmerece a história de cada um deles, que antecede mesmo ao termo favela, tão larga e preconceituosamente utilizado nos dias atuais. A história de nossos morros é rica e, ao contrário do que se pode imaginar, alguns deles foram povoados por nobres, religiosos e militares. Eles eram posições estratégicas na defesa da cidade.

Foi na várzea entre os Morros Cara de Cão e Pão de Açúcar que se fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro em 1565. Ali se construiu a Fortaleza de São João que atualmente abriga o Centro de Capacitação Física do Exército. Porém, logo foi feito um traslado para o Morro do Descanso ou São Januário (depois Morro do Castelo, e hoje bairro com mesmo nome). O nome se deve ao fato da fortaleza que ali foi construída lembrar um castelo medieval. Foi ali que se ergueu uma cidadela e onde os homens de Estácio de Sá, que expulsaram os franceses, acharam por bem se instalar. Além de uma visão privilegiada da baía, a posição sobre o morro cercado de mangues e alagadiços afastava os índios Tamoios, inimigos naturais dos portugueses. Sim, eles tinham medo das colinas achando que era coisa do demônio. E também havia o fato da inclinação do morro favorecer o escoamento dos detritos que eram jogados na rua para a chuva levá-los morro abaixo. Era lá, no alto do morro, que moravam, ironia histórica, os homens importantes do Rio de Janeiro. É importante ressaltar, que a mudança para o Morro do Castelo não significou o abandono da sede primeira da cidade, pois lá permaneceram alguns pioneiros. Em 1922, com diversas alegações, o prefeito e engenheiro Carlos Sampaio decretou o fim do marco inicial da cidade (Morro do Castelo) que foi demolido a jatos de água e serviu de aterro a lugares como a Urca, a Baía de Guanabara, a Lagoa Rodrigo de Freitas, o Jardim Botânico e o Jóquei.

 

 

Outro Morro que foi extinto, segundo alguns o primeiro ocupado por favela da cidade, foi o Santo Antônio. Sua ocupação data de 1893. Localizado onde hoje fica a Carioca ele teve seu desmonte em 1953 e todo o material retirado de lá foi destinado ao Aterro do Flamengo. Do morro foram preservados apenas a igreja e o mosteiro de Santo Antônio, local realmente imponente em meio ao centro ruidoso e caótico da cidade. Após o desmonte do Santo Antônio, restou ao morro da Providência o título de primeira favela do Rio de Janeiro, assunto polêmico e que divide opiniões até hoje.

O Morro da Conceição, na Praça Mauá, é uma parte preservada da história do Rio de Janeiro. Sua ocupação foi principalmente militar e religiosa e só começou a ser povoado pelo casario popular no século XIX em conseqüência do crescente movimento no Cais do Porto. Foi ponto de encontro da nata do samba nos anos 20, bem ali na Pedra do Sal. Lá ainda se encontram construções dos séculos XVII e XVIII, como a Igreja de São Francisco da Prainha, a Fortaleza da Conceição e o Palácio Episcopal onde hoje funcionam o Serviço Geográfico do Exército e o Observatório do Valongo.

Considerada oficialmente a primeira favela do Rio de Janeiro, o Morro da Providência, que está localizado atrás da Central do Brasil, era chamado lá pelos idos de 1900 de Morro de Favela. Pode-se entender que o nome se espalhou passando a designar outras comunidades carentes do Rio de Janeiro e do Brasil. Os primeiros moradores do Morro de Favela (ou Providência) eram ex-combatentes da Guerra de Canudos que aqui chegaram em 1927. Chegando ao Rio com a promessa do Governo de ganhar casas, eles passaram a ocupar “provisoriamente” as encostas do morro. Desnecessário acrescentar que a burocracia tornou esse arranjo uma solução definitiva. O nome providência seria o de um rio de Canudos. Favela era o nome de um morro próximo a Canudos e faveleiro um arbusto típico da região do sertão que também existia nas proximidades do morro. Entende-se aí a origem do termo que passou a ser usado para designar todos os morros habitados da cidade.

 


Di Cavalcanti
(Favela no Rio de Janeiro - óleo sobre tela -1957)



Em 1888, antes da Lei Áurea alguns morros serviam de esconderijo para escravos fugidos das fazendas cariocas. Conta-se de quilombos na Penha, no Leblon, no Engenho Novo, em Vila Isabel, no Corcovado, em Santa Teresa e Laranjeiras. O Quilombo do Escondidinho, no Morro do Catumbi, no Rio Comprido, ficou assim conhecido por ter permanecido anos desconhecido por todos.

Um major de milícias e cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro, Miguel Nunes Vidigal um dos homens mais influentes da cidade no século XIX, recebeu presentes por conta de sua influência, ao longo da vida. Entre eles, um terreno aos pés do Morro Dois Irmãos, onde hoje existe a favela do Vidigal, localizado entre os bairros do Leblon e São Conrado. O presente foi dado pelos monges beneditinos por volta de 1820. Isso explica o nome Vidigal, que batizou a praia e a favela.

Por causa de uma fazenda, o Morro dos Macacos recebeu este nome. Era a Fazenda do Macaco, que pertenceu inicialmente aos jesuítas, mas depois foi confiscada pelo Marques de Pombal em favor da família real. D. Pedro I usava a fazenda para caçar. Quando ele voltou para Portugal, as terras ficaram abandonadas e foram compradas pelo Barão de Drumond, um abolicionista que em homenagem a Lei do Vente Livre, nomeou uma das principais ruas do bairro de Vila Isabel, onde fica o morro, como Avenida 28 de Setembro.




Morro do Macaco e vista da Praça Barão de Drummond
(foto tirada do Morro de Santo Antonio, em Vila Isabel)



Por estar no ponto mais alto da região e mais próximo do Palácio da Quinta da Boa Vista, no bairro de Benfica, o Morro dos Telégrafos foi o local escolhido pela família Imperial para a construção do primeiro Telégrafo do Brasil, ainda no século XIX. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Morro dos Telégrafos foi considerado área de segurança nacional, graças a uma posição estratégica e a vista privilegiada da Baía de Guanabara. Hoje ele faz parte, junto com o Pindura Saia, o Santo Antônio, o Chalé, o Faria, o Buraco Quente, entre outros, do complexo do Morro de Mangueira.

Em 1888 os negros libertos que trabalhavam nas fazendas de Madureira, bairro do mesmo nome, subiram a Serra da Misericórdia, uma região desabitada e de floresta, em busca de um local para morar. Eles usaram o barro do morro pra construir suas casas, causando um desgaste, o que levou ao nome Serrinha. Diz-se que lá ainda se encontram grilhões do tempo da escravatura.

Morros velhos ou jovens, de histórias nobres ou não, morros bonitos, com atrativos turísticos como o Pão de Açúcar, Santa Tereza e Corcovado, morros ícones da violência urbana como o Alemão e a Rocinha, morros extintos que deixaram órfãos na história como o do Descanso e o de Santo Antônio, morros perdidos no horizonte. São os morros da minha cidade, os morros do Rio de Janeiro. Nada mais bonito que um morro que tem como pano de fundo um céu azul claríssimo, mas por outro lado, também é muito bonito o cintilar das luzinhas acesas como contas preciosas, na silhueta de um morro sob o céu noturno. Alguns morros de favela conseguem mesmo ser bonitos quando retratados com suas casinhas coloridas e sobrepostas numa encosta íngreme.

Em todos esses morros há uma identidade própria, distinta, desconhecida daqueles que nunca pisaram nas fronteiras que delimitam o morro, da “pista”. Um morro de favela é sempre mais que suas mazelas, seus vícios e seus “rótulos”. Lá, meninos soltam pipas, jovens batalham seus sonhos e pessoas de bem trabalham arduamente para garantir o pão de cada dia. Lá se reza o terço, se canta o samba e se faz cultura. Todos os dias essas pessoas descem o morro e engrossam a massa humana dessa cidade ativa e próspera e, ao voltar para suas casas, tudo o que esperam é a mesma paz que nós também almejamos.




 

Ave Maria no Morro
(Herivelto Martins - 1942)

Barracão de zinco
Sem telhado, sem pintura
Lá no morro
Barracão é bangalô

Lá não existe
Felicidade de arranha-céu
Pois quem mora lá no morro
Já vive pertinho do céu

Tem alvorada, tem passarada
Alvorecer
Sinfonia de pardais
Anunciando o anoitecer

E o morro inteiro no fim do dia
Reza uma prece Ave Maria
Ave Maria... Ave Maria

E quando o morro escurece
Elevo a Deus uma prece
Ave Maria

 

(fotos da autora)


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