''Era encantador o aspecto da Avenida Central ontem a noite nas proximidades do Pavilhão S. Luiz. Este imponente edifício iluminado na sua brancura solene, com tons áureos na profusão de suas luzes. Carros paravam à porta, surgiam casacas, fardas de gala, as bandas de músicas acordavam ...na rua aglomerada, extasiado o povo apreciava todo este efeito soberbo de grandeza iluminada, automóveis curiosos aproximavam-se, senhoritas deitavam olhares lânguidos e sonhadores para o prédio, como se vissem nele um sonho de uma fada realizada.
Lá dentro, solenizava-se a riqueza da produção nacional, distribuía-se o prêmio. No vasto jardim, as luzes em reticências multicores davam ao espetáculo a magia de uma noite oriental. E o seu reflexo nas águas da Guanabara era como uma epopéia luminosa sobre a mansidão das águas..."
JORNAL DO BRASIL, 04 de junho de 1907
O palácio Monroe já não existe. Apesar da luta de muitos cariocas ele foi demolido, numa demonstração clara de desrespeito à história, não obstante as fracas justificativas usadas na época.Construído pelo engenheiro militar, Marechal Francisco Marcelino de Souza Aguiar, para representar o Brasil na exposição Internacional de Saint-Louis, EUA, 1904, esse palácio ganhou o Grande Prêmio Mundial de Arquitetura. Nessa ocasião, a imprensa americana divulgou notas que o comparavam a um poema, descrevendo-o como “belo e estupendo”, como “um grande espetáculo jamais contemplado por olhos humanos”, como “soberbo”, “grandioso”.
Em 1906, o Palácio, que possuía armações de aço de modo a poder ser desmontado, foi trasladado para o Brasil e reconstruído no Rio de Janeiro, na Avenida Central. Ele foi o primeiro prédio oficial construído nessa avenida. No mesmo ano realizou-se a 3ª Conferência Pan-Americana no Palácio. Joaquim Nabuco, o Barão do Rio Branco sugeriu, então, que o Palácio de Saint-Louis, como era então conhecido, mudasse o nome para Palácio Monroe. Uma homenagem ao Presidente americano, James Monroe, criador do Pan-Americanismo (movimento diplomático, político, econômico e social que busca criar, fomentar e ordenar as relações, a associação e a cooperação entre os estados da América em diversos âmbitos de interesse comum).
A partir dai o Palácio foi sede de congressos e exposições até 1914 quando sediou provisoriamente a Câmara dos Deputados, enquanto se construía o Palácio Tiradentes. Em 1925, ali se instalou o Senado Federal, que esteve fechado durante o Estado Novo ( 1937-1945). Finda a ditadura o prédio serviu como sede provisória do Tribunal Superior Eleitoral por um ano. Na década de 50 sofreu obras de ampliação o que lhe acrescentou um pavimento. Com a mudança do Distrito Federal para Brasília em 1960, o Palácio exerceu a função de escritório de representação do Senado no Rio de Janeiro. Durante o regime militar foi transformado em sede do Estado Maior das Forças Armadas.
Na década de 70 o palácio tem, assim como outros edifícios da Avenida Rio Branco (antiga Avenida Central), o seu pedido de tombamento federal negado pelo IPHAN, conseguindo-o apenas no âmbito estadual. A área onde ficava o palácio passa então a ser alvo da especulação imobiliária, que pretendia construir um edifício garagem no local, mas é a idéia de uma grande praça para a estação do metrô da Cinelândia, rodeada de áreas verdes, que ganha mais força e apoio.
A princípio são as obras do metrô que justificam o pedido de demolição o que mais tarde se revela uma grande injustiça e erro histórico. A campanha pela demolição recebe o apoio de arquitetos ilustres como Lúcio Costa, e do Jornal O Globo, que fez uma campanha acirrada contra o que denominava como o “monstrengo arquitetônico da Cinelândia”. Aliado a eles estava o então presidente general Ernesto Geisel. Interferência ao meio ambiente, obstáculo ao trânsito e até mesmo a vista prejudicada do Monumento aos Mortos da Segunda Guerra, foram pontos ressaltados nessa campanha sem tréguas sustentada pelo poder de uma minoria. Em alguns editoriais da época percebe-se um ataque quase infantil ao castelo como se ele não tivesse qualquer valor patrimonial. Não havia a necessidade de grandes argumentos, de explicações coerentes, apenas a preparação para o inevitável.
Em contrapartida o Instituto de Arquitetos do Brasil e o Clube de Engenharia, através do Jornal do Brasil, assim como tantas outras entidades que não cabe enumerar, tentavam de todas as maneiras preservar o palácio, obtendo o seu tombamento. O povo carioca fazia coro nessa árdua e infrutífera batalha. O metrô, que era até então o grande vilão da história, refez seus projetos e cálculos descrevendo uma curva de grande complexidade que contornava o prédio de forma a preservar sua estrutura e impedir que houvesse danos ao solo que o sustentava. Num zelo que demonstrava o apreço pela história da cidade e o respeito por seus monumentos, eram feitas vistorias no palácio duas vezes por dia. Naquele pequeno desvio do projeto original, grandes dificuldades e novas alternativas de sustentação foram pensadas e colocadas em prática.
No palácio, esculturas e adornos do castelo, como os leões que simbolizavam o poder, e a escadaria de acesso foram desmontados com maestria por um especialista italiano e acondicionadas no interior do prédio, para serem remontados ao final da obra. Existia uma vontade conjunta que conspirava com boa vontade e fazia com que tudo corresse a contento, o que só poderia levar ao êxito e a vitória. Em paralelo a obra, corria o processo de tombamento. Infelizmente, todo o esforço da equipe de profissionais do metrô foi em vão. Em 11 de outubro de 1975, o Presidente Ernesto Geisel autorizou o Patrimônio da União a providenciar a demolição do Palácio Monroe.
A verdade é que o Monroe foi demolido por vingança. O general Ernesto Geisel alimentava desafeto por um outro general de sobrenome Souza Aguiar e que era filho do projetista do palácio. Lamentavelmente, Geisel lançou mão de seu poder para derrubar um patrimônio carioca como quem desfere um tapa com luvas de pelica e escreveu um capítulo de vergonha em sua própria história. Entre janeiro e março de 1976 o Monroe foi destruído, restando apenas fotografias e relatos de sua glória.
A empresa que foi contratada para demolir o Monroe pagou apenas CR$ 191.000,00 (cento e noventa e um mil cruzeiros) com direito de venda do material resultante da demolição. Só com a venda do bronze e ferro do Monroe ela faturou CR$ 9.000.000,00 (Nove milhões de cruzeiros). Vitrais, lustres de cristal, pinturas valiosas, estátuas de mármore de carrara e bronze, móveis em jacarandá, balcões de mármore, vitrais, estátuas de bronze, tudo foi vendido. Grande parte do piso de peroba do campo, mais de 2000 metros quadrados, foi para o Japão. Os leões que ficavam na escadaria da entrada do Monroe hoje estão no Instituto Ricardo Brennand em Recife, Pernambuco. A história foi demolida, dilapidada, espalhada e hoje faz parte de outros contextos, de outras cidades e até de outro país.
Atualmente, onde antes ficava o Palácio Monroe, existe uma praça e nela foi colocado um Chafariz comprado em 1878 na Áustria. Esse mesmo chafariz já esteve na Praça XV e na Praça da Bandeira e é chamado de Chafariz do Monroe, em homenagem ao palácio. Em 2002 foi construído um estacionamento subterrâneo embaixo da praça e operários encontraram uma caixa metálica contendo objetos referentes à construção do Monroe, entre eles uma pedra do Palácio e uma edição especial do Jornal do Brasil, provavelmente um ritual simbólico do sepultamento da história. O material encontrado foi entregue a Biblioteca Nacional e posteriormente a Secretaria Municipal da Cultura.
Depois de terminar minhas pesquisas referentes ao Monroe, senti o gosto amargo e frustrante da decepção que certamente envolveu toda a cidade no ano da demolição do Palácio. Não existem justificativas para se demolir parte da história de uma cidade, nem mesmo a necessidade da modernização e do progresso. Porque não existe progresso baseado em um passado nulo, vazio. Tudo é construído sobre história, sobre heranças deixadas, quer sejam culturais quer sejam patrimoniais. Porém, mais imperioso que isso é a existência de uma força que não pode ser desprezada ou desrespeitada que é a vontade da maioria. Não se sufoca a expressão de um povo com poder e egocentrismo, assim como não se pode apagar as páginas de um livro que já foi lido por alguém. Embora seja lamentável a destruição da prova material, a história persiste e não se embota com o tempo, a vergonha escrita nela será para sempre lembrada, divulgada e compartilhada enquanto houver quem possa fazê-lo.
“(...)Com sua demolição, já decidida, restará aos usuários do ''metrô'' perceberem que, onde foi o Monroe, haverá uma misteriosa curva, cuja explicação lembrará a ponderação do problema por parte dos administradores que temeram destruir esse Palácio e souberam fazer o progresso - neste caso, a linha subterrânea do metropolitano - sem danificar, ou comprometer, as bases de uma patrimônio histórico e artístico.Aquela misteriosa curva será a memória da data deste documento."
Manifesto de Protesto de Engenheiros, Arquitetos e Paisagistas, contra a Demolição do Palácio Monroe. 1976