São Paulo, 01 de fevereiro de 2009
Impossível traduzir - Urca
Já falei aqui, de alguns bairros do Rio de Janeiro aos quais devoto uma simpatia maior. Alguns deles estão marcados em minha memória de uma forma indelével. O bairro da Urca é especial por diversos motivos, mas, sem dúvida, o principal deles é porque ir até lá significava muita alegria para mim. A praia da Urca, onde meus pais me levavam, tem o mar mansinho e o tamanho ideal para uma criança brincar. Apesar de receber as águas da Baía, impróprias para o banho, era lá que íamos, eu e minha família, passarmos um domingo, pelos idos de 1970. Chegávamos com a praia quase vazia e saíamos antes do pôr-do-sol, com ela ainda lotada.
Lembro-me de chegarmos cedinho quando o sol ainda estava tão baixo que atrapalhava olhar em volta. Nessa hora silenciosa, o mar reluzia como prata e a areia parecia muito branca em contraste com as pedras cinzentas que circundavam quase toda a praia. Nem de longe, naquele tempo, eu poderia imaginar a importância da Urca como um marco histórico da cidade. Um bairro que, até hoje, parece querer ficar discretamente afastado do burburinho afetado do resto da cidade, foi palco do nascimento da própria.
Aos pés do Pão de Açúcar, morro que tem esse nome por sua forma cônica típica do açúcar despejado em formas de barro na ilha da Madeira, em Portugal, Estácio de Sá fundou as bases da cidade em 1º de março de 1565, entre os morros da Urca e Cara de Cão, ou Babilônia. No mesmo local foi erguida a Fortaleza de São João, com três baterias e um grande Forte, o Forte São José em 1578 – o terceiro forte mais antigo do país. Apesar disso, apenas 300 anos depois, pelos idos de 1870, um comerciante português de nome Domingos Fernandes Pinto planejou transformar em bairro elegante a área, onde até então, o mar batia diretamente nas rochas que circundavam os morros e o acesso a Fortaleza de São João era feito exclusivamente pelo mar.
Embargado pelo exército, o sonho de Domingos Fernandes só veio a se tornar realidade no início da década de 20, quando o engenheiro Oscar de Almeida Gama constituiu uma sociedade para a construção de um cais ligando a praia da Saudade à Fortaleza de São João. A Avenida Portugal foi oficialmente inaugurada pelo Presidente Epitácio Pessoa e a antiga praia da Saudade recebeu a denominação de Avenida Pasteur, onde se encontra hoje o Instituto Benjamim Constant. Terrenos de aterro ao longo da costa foram concedidos a sociedades esportivas entre outras, o atual Iate Clube do Rio de Janeiro.
Em 1922, com a área pronta para ser habitada, e o prédio do Hotel Balneário necessitando de proteção contra a água do mar, a faixa de areia foi aumentada e a praia da Urca adquiriu a forma que tem até hoje. O hotel, que nunca chegou ser um dos maiores da cidade, tornou-se em 1933 um Cassino. Esse sim sería um ícone do bairro por mais de uma década, frequentado por políticos influentes e artistas; o famoso Cassino da Urca. Por ele passaram nomes como Marlene, Linda Batista, Emilinha Borba, Heleninha Costa, Dircinha Batista, e Virginia Lane entre outros tantos que viram a glória e o glamour de tempos que ficaram marcados na história da cultura brasileira.
Fechado em 1946 quando das proibições dos jogos de azar o prédio volta a ser ocupado em 1950 pela TV Tupi que foi retirada do ar em julho de 1980, por ordem do governo federal que cassou a sua concessão. Nos dias atuais o prédio que já sofreu algumas reformas, virou objeto de acirrada polêmica entre os moradores que querem preservar o antigo Cassino e a tranqüilidade inerente ao bairro e o poder público que concedeu direitos de uso do prédio ao Instituto Europeu de Design para a implantação de uma escola de ensino superior.
A geografia do bairro, que não é passagem para nenhum outro, permitiu que ele se tornasse um lugar privilegiado. Pela natureza ao redor, pela sua característica basicamente residencial, pela união dos moradores que defendem sua “casa” com uma vontade férrea, a Urca é mais que um bairro elitizado e elegante, é um oásis de tranqüilidade onde pessoas com Carmem Miranda, Herivelto Martins e Roberto Carlos encontraram seu refúgio.
Até hoje me lembro da deliciosa sensação de andar pela calçada estreita da praia da Urca, quando íamos em direção ao ponto do ônibus. Olhando a praia que ficava pra trás, eu ia aproveitando cada minuto nessa despedida enquanto observava os pescadores nas pedras jogando redes e anzóis no mar. Eu gostava de olhar as casas ao redor da praia e pensava em como seria gostoso morar sempre ali. A sombra acolhedora das árvores, o barulho cadenciado do mar, uma sensação de estar em segurança, enquanto os cheiros do dia a dia se misturavam trazidos pela brisa fresca de um dia de verão.Todas essas sensações marcaram profundamente as minhas impressões de criança, mas elas ainda existem, estão lá. Visto do alto do Pão de Açúcar o bairro da Urca mais parece um apêndice, um lugar de pequenas proporções, mas que parece ter a medida certa de natureza, tranqüilidade e sombra, onde a mente pode divagar e coração quase sempre quer ficar.
Mais do que o bondinho do Pão de Açúcar ou a fortaleza de São João, a Urca envolve toda uma beleza característica da Baía que surpreende os olhares mais desatentos. Em uma despretensiosa caminhada pelo caminho Cláudio Coutinho descortina-se toda a generosidade dos arredores em morros, verde e mar. A Praia Vermelha sob o sol do fim de tarde é um espetáculo que atrai artistas concentrados em retratar o que não é possível explicar com palavras. Os matizes de um céu cor de laranja, o brilho de um mar verde jade, o morro do Pão de Açúcar emoldurado por esse conjunto esplêndido trazem a quem puder ver inspiração e relaxamento. Oxalá ainda se possa, em duas ou três décadas haver dificuldade em encontrar palavras para descrever a Urca tal e qual ela merece!