São Paulo, 01 de agosto de 2008

Grajaú

 


Fátima Silva

 

 

Existe um bairro no Rio de Janeiro onde se pode andar por ruas largas e arborizadas ouvindo o canto dos passarinhos e, de repente, ser surpreendido por um grupo de micos que saltam serelepes entre amendoeiras, tamarineiras e fios elétricos chegando mesmo a se aproximar das janelas mais altas de casas e edifícios, procurando comida. Duas vezes por dia um bando de maritacas cruza o céu em grande algazarra atraindo os olhares dos pedestres. Esse é o Grajaú, localizado na zona norte da cidade, que surgiu de duas fazendas; a de Antônio Grande e a dos Cardosos.

Quando a Companhia Brasileira de Imóveis e Construções comprou a fazenda dos Cardosos em 1923, Antônio Eugênio Richard Junior, arquiteto, engenheiro e paisagista brasileiro, filho de pai francês, idealizou e transformou o lugar num recanto de extrema beleza e lirismo, fazendo prevalecer a característica tipicamente residencial do bairro, aonde o grande crescimento da cidade na década de 20, não chegou a interferir.


Praça Edmundo Rego

O nome Grajaú é referência a uma cidade do Maranhão, terra natal do engenheiro Richard. Mas a origem do nome vem da palavra guajajaras, tribo que ocupava a margem do rio Grajaú que banha essa mesma cidade. Acrescida às duas primeiras síladas tem-se a vogal U que para os índios queria dizer MUITO. Com o tempo a sílaba gua foi sendo substituída por gra, ou seja, uma quantidade muito grande de índios que existiam naquela região maranhense.

Várias ruas do bairro têm nomes indígenas de cidades e rios do Maranhão, como as ruas Gurupi, Mearim e Itabaiana, enquanto outras homenageiam cidades mineiras a exemplo das ruas Uberaba, Araxá e Juiz de Fora e isso provavelmente se deve a influência de engenheiros de Minas Gerais que trabalharam na expansão do bairro. Há também ruas prestigiando pessoas, como a Avenida Engenheiro Richard que homenageia o idealizador do bairro.

Um dos ícones da origem do bairro é a Capela de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, pequena, mas imponente, construída na Rua Grajaú, em 1918 pelo italiano Francisco Tricário em pagamento a uma promessa feita, ainda na Itália.

A Reserva Florestal do Grajaú é um dos diferenciais do bairro. Com 55 hectares de mata atlântica sob proteção ambiental, ela abriga o Pico do Perdido (do Papagaio para os moradores), com 442 metros de altitude e que pode ser visto de vários pontos do bairro e até de bairros vizinhos. A vista de cima do Pico é magnífica e a proximidade com a floresta chega a fazer diferença no clima das ruas mais próximas a Reserva, deixando-as mais frescas mesmo em dias de verão.

Grutas, cascatas e animais silvestres fazem do local um verdadeiro monumento a natureza. Nos finais de semana é comum encontrar famílias inteiras reunidas para um lazer cada vez mais procurado nas grandes cidades, o contato direto com a natureza. E é lá, no final da Rua Comendador Martinelli, em diferentes trilhas da Reserva, que pode-se observar todo o bairro e também parte da cidade do Rio de Janeiro. Muitas vezes quando venho caminhando pela Praça Verdun, antigo Largo da Viúva, paro para observar a vista do Pico do Papagaio que se descortina no alto, em uma virada da Rua Barão do Bom Retiro, tamanha a beleza que há nesse quadro.


pico perdido visto da Praça Verdun

Lembro-me quando me mudei para o bairro, aos nove anos de idade, da primeira chuva de tamarinos que asssiti e que me deixou encantada. Eu morava na Av. Engenheiro Richard e fui atraída pelo barulho das vagens batendo no asfalto. Acompanhada de meu pai, catei as vagens e comi, ali mesmo, o fruto agridoce que provocava arrepios na pele. Essas mesmas tamarineiras, árvores nativas da Índia e da África, receberam da prefeitura do Rio de Janeiro, o título de “Conjunto Extraordinário de Árvores da Cidade”, o que lhes concede proteção e preserva sua integridade. São 207 tamarineiras, 110 na Avenida Engenheiro Richard e 97 na Avenida Júlio Furtado, com uma média de 11 metros de altura e nove de diâmetro na copa.


Tamarineiras - Av. Júlio Furtado

 


Tamrineiras - Avenida Engº Richard

Apesar de seus vários caminhos, quem percorre o bairro, percebe uma homogeneidade singular. É agradável andar sob a sombra das árvores observando as casas bonitas e bem conservadas. As praças são um convite à paradas para um sorvete, ou uma pipoca, enquanto se observa o ir e vir das pessoas em seu cotidiano. E é nelas que acontecem verdeiras confraternizações nos finais de semanas, com feiras, festas e o lazer cotidiano das famílias do bairro. Como numa cidade do interior as pessoas se conhecem e se encontram o tempo todo. O Zico, o Irecê, personagens das ruas. O Sr. Kléber da Papelaria, o Prof. Ferreirinha, o Sr. Adalberto da farmácia e tantos outros que fazem do bairro um lugar de pessoas de bem.

Existem controvérsias quanto à criação do bairro, mas prevalece o consenso de que o Grajaú é de fato um bairro com estrutura independente, há cinquenta anos. Uma idade memorável para um bairro que pouco perde de suas características com o passar dos anos. Se já não há a ingenuidade e romantismo da década de vinte, face às mazelas características da modernidade, ao menos há a vontade dos moradores de preservar a atmosfera amistosa e bucólica do bairro.



Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco