São Paulo, 01 de outubro de 2007
A simplicidade de ser gentil
“Apagaram tudo, pintaram tudo de cinza, só ficou no muro, tristeza e tinta fresca.” (Marisa Monte)
Lá pelos idos de 1980, a caminho do trabalho no bairro do Castelo, eu estava sentada, distraída, no ônibus lotado, quando uma movimentação diferente me chamou a atenção. Todos os olhares se voltaram silenciosos para a frente do veículo que estava parado num sinal da Avenida Presidente Vargas e o motorista, debruçado na janela, sorria para alguém que estava na rua. Olhei para fora e me deparei com a singular figura de um senhor alto e magro, de barba, cabelos brancos e longos, vestindo uma túnica branca com algumas coisas penduradas ou bordadas, não sei bem. Ele carregava uma bengala e uma espécie de estandarte cheio de flores. O homem sorria e olhava para o motorista enquanto lhe falava amavelmente (esta foi minha impressão, não pude ouvir o que ele falava), então, entregou-lhe uma flor e acenou para todos os passageiros quando o veículo partiu. Fiquei olhando aquele velho homem ficar para trás e nunca mais esqueci essa cena. Seu olhar era terno, havia doçura em seu semblante e ele parecia um avô amoroso, apesar da vestimenta fora do padrão. Naquele momento eu, que sou católica de formação, pensei que se houvesse um enviado de Deus na terra, se pareceria com este homem.
Algum tempo depois eu estava atravessando a Avenida Presidente Vargas, quando encontrei esse mesmo homem, andando pela calçada. Ele ia e vinha falando muito alto e gesticulando com vigor. Eu só compreendia algumas palavras soltas: inferno, mundo, verdade, dinheiro. Assustei-me com a cena e parei indecisa. Ou eu passava por ele ou voltava. A sua agitação me deixou insegura. Alguns homens passaram por ele sem muita preocupação, sorrindo com deboche. Não sei se riam de meu receio ou do homem que não parava de falar e se mover. Nesse momento, ele me viu, parou de andar e de falar, sorriu e me deu passagem. Sorri de volta e atravessei mais uma pista da avenida, enquanto ele continuava sozinho tentando resolver as questões que o atormentavam. Ele parecia zangado, como um velho avô dando bronca em seus netos levados. Apesar de não entender o que ele falava eu senti que não era uma fúria despropositada, havia preocupação e muita frustração no seu olhar e nos seus gestos. E mesmo assim, ele foi gentil comigo! Me senti solidária a ele!
Esses dois encontros, tão diferentes entre si, me causaram uma forte impressão e eu, que naquele momento não sabia quem era aquele homem, quando ouvi falar de Gentileza, anos mais tarde, soube imediatamente de quem se tratava. Quando cruzei meu caminho com Gentileza ele devia estar com sessenta e oito anos.Em 1961, o Gran Circus Norte Americano, localizado na cidade de Niterói, foi atingido por um incêndio criminoso que fez mais de 500 vítimas, em sua maioria crianças. Foi uma catástrofe de grandes proporções e o local onde ficava o circo se tornou uma marca de tristeza e consternação. José Datrino, na época um homem comum, caminhoneiro, casado, pai de cinco filhos, saiu de casa dizendo ter sido instruído por “vozes astrais” a se dedicar apenas ao mundo espiritual. Em um de seus caminhões, ele abandonou a família e os bens que possuía e dirigiu-se ao local do incêndio. Lá, plantou jardim e horta, transformando-o no “Paraíso Gentileza”. Também conhecido como José Agradecido, ele foi o consolador dos familiares das vítimas da tragédia, por quatro anos.
Isso tudo, aconteceu antes que eu nascesse e Gentileza cruzou meu caminho apenas duas vezes deixando, contudo, uma impressão tão forte que eu nunca mais o esqueceria.
Quando saiu do “Paraíso Gentileza”, José Agradecido rodou o país levando sua mensagem de agradecimento e gentileza até voltar para o Rio de Janeiro em 1980. E foi aqui, nas 56 pilastras do Viaduto do Caju, que se estende do cemitério do Caju até a Rodoviária Novo Rio, por mais ou menos 1,5km, que ele deixou impresso em verde e amarelo a simplicidade dos seus pensamentos. Numa caligrafia peculiar e bem feita, com muitas consoantes duplas, ele escreveu sobre Deus, amor, natureza, gentileza e fez justas críticas às mazelas comportamentais da humanidade. Quando lhe perguntavam se era louco, ele sorria e dizia; “Sou maluco pra te amar e louco para te salvar.”. Existem relatos de que, aos doze anos, Gentileza previu que sairia pelo mundo numa missão, deixando seus pais preocupados com sua saúde mental.
Claro que não houve gentileza para com as suas inscrições. Elas foram pichadas, e posteriormente pintadas de cinza. Felizmente, pessoas que conheceram e aprenderam com Gentileza, em um esforço conjunto e com a ajuda da prefeitura, conseguiram um projeto de restauração que foi concluído no ano de 2000. As inscrições protegidas por um verniz especial aguardam ainda que uma medida judicial (específica para o caso) possibilite o tombamento das pilastras do viaduto. Para isso, elas teriam de ser dissociadas do viaduto, sendo identificadas como totens. Tema de crônicas e músicas várias, Gentileza se tornou uma história bonita de ser contada e as narrativas são unânimes em mostrar que ele vivia o que pregava. Preservar seus ensinamentos é possibilitar a todos o conhecimento de suas mensagens.
José Agradecido não escreveu sobre coisas antigas; não revelou fórmulas impossíveis; não descobriu intrincados códigos para salvar a humanidade, mas falou de coisas que todos nós sabemos, que todos nós um dia acreditamos e que são uma verdade maior que qualquer descoberta científica ou tecnológica. Ele falou de gentileza, de agradecimento, de respeito. Valores herdados de nossos avós, mas esquecidos em baús de intransigência e intolerância. A palavra gentileza é de uma simplicidade tal que muitas vezes se confunde com passividade, mas ser gentil com o próximo, com o mundo e com a natureza não é tarefa fácil. É um exercício constante de humanidade e exige, mais que tudo, desprendimento e altruísmo. Uma palavra simples por trás de uma atitude grandiosa: a simplicidade de ser gentil.
Gentileza morreu em 1996, em Mirandópolis, aos 79 anos e, talvez, tenha partido sem ter a exata noção da semente que plantou em muitos corações. Pessoas que cruzaram seu caminho ou seus escritos e levam dentro de si um mar de indagações sobre como empreender suas lições neste nosso mundo tão conturbado.
“Gentileza gera gentileza.” (Profeta Gentileza)
Gentileza: comunidade no Orkut
“Nós que passamos todo dia, pelas ruas da cidade, merecemos, ver nos muros, as palavras de Gentileza.” (Marisa Monte)