São Paulo, 05 de abril de 2009

Fortes: Impressões da História

 


Fátima Silva

 

 

Um forte pode ser o cenário de filmes épicos ou o palco de grandes batalhas, mas está sempre emoldurado por montanhas, céu e mares e essa característica lhe traz muito de mistério e grandiosidade. Construídos em locais altos ou estratégicos em relação ao litoral, os fortes e fortalezas, além de ostentarem uma arquitetura robusta e extensa, exibem belíssimas vistas a quem possa passear por entre suas muralhas e baterias. Difícil imaginar, ao visitar um forte, o ribombar dos canhões se fazendo ouvir e sentir nas estruturas vigorosas de suas paredes. Por todo lado o branco, o amplo, o silêncio e uma ordem pacífica, inalterável.

Quando as guerras e invasões se davam por mar, eles eram de suma importância na defesa dos países. Hoje, quando a tecnologia fez da guerra algo ainda mais invasivo e letal, eles resistem ao tempo e funcionam como mais uma ponte mágica para a história, felizmente preservada e aberta à visitação pública.

No Brasil existem quarenta fortes, no Rio de Janeiro eles são doze. Aqui na cidade do Rio de Janeiro a maioria deles está localizada no litoral, nos entornos da Baía de Guanabara o que os torna um verdadeiro convite ao deleite de vistas privilegiadas. Localizados em praias, morros e pontões eles se integram a todo o resto compondo cenários dignos de uma aventura cinematográfica.

A história das fortificações do Rio de Janeiro se inicia antes da fundação da cidade. Em 1555, após invadir a cidade o francês Villegagnon improvisou uma fortificação em Niterói para a defesa da entrada da Baía de Guanabara. Em 1567 ela era tomada por Mem de Sá, passando a ser chamada de Fortaleza de Nossa Senhora da Guia. Sofreu ampliações e aumentou seu poder de fogo, tornando-se o principal ponto de defesa da baía. Em 1632, após reformas ela passou a ser chamada como é conhecida atualmente; Fortaleza de Santa Cruz. Personagens da história brasileira como Tiradentes, Bento Gonçalves e Giuseppe Garibaldi estiveram presos na fortaleza. Segundo guias locais, dentro da Capela de Santa Bárbara, uma das mais antigas da cidade está sepultado, na parede, o corpo de Iracema filha do capitão Potyguara que se atirou ao mar por ter seu amor por um soldado impedido por seu pai. Além dela estariam emparedados ali, também, uma amiga da moça por sua própria vontade e um criminoso de guerra. Verdade ou não as paredes nesse corredor são úmidas e bolorentas estufando em vários pontos. Sobre elas, placas com os nomes dos mortos. Em suas baterias com paredes de quase meio metro de espessura os canhões ficam alinhados em salas próximas umas das outras, durante as batalhas eles não podiam ser disparados ao mesmo tempo, pois havia o risco de abalar as estruturas do forte. Os soldados geralmente ficavam surdos.


Vista da bateria da fortaleza de Santa Cruz

Palco primeiro da fundação da cidade do Rio de Janeiro, a Fortaleza de São João foi erguida por Estácio de Sá em 1565, em um local que viria a se tornar um dos mais belos cartões postais da cidade. Ao longo dos anos, ela foi sendo ampliada até exercer importante papel na defesa do território brasileiro, participando de vários períodos históricos do país. Foi desarmada durante a regência, mas por ocasião da “Questão Christie” recebeu 35 novos canhões e três baterias. Desde 1991 funciona como Centro de Capacitação do Exército.

Mais ao centro da cidade, em meio aos prédios modernos e ao centro financeiro da cidade, está a Fortaleza da Conceição. Projetada pelo padre jesuíta Diogo Soares, ela foi erguida sobre o Morro da Conceição em 1726. Em 1765 recebeu uma casa de armas conhecida pelo nome de Capela. Ali no final do século XVIII, abrigou em suas masmorras presos da Inconfidência Mineira e membros da Sociedade Literária do Rio de Janeiro considerados traidores. Hoje abriga a biblioteca histórica do Serviço Geográfico do Exército.

Em uma localização geográfica privilegiada o Forte do Leme na Ponta do Vigia foi de extrema importância quando a cidade do Rio de Janeiro estava limitada entre os morros do Castelo, São Bento, Conceição e Leme. Era uma ostensiva barreira nas tentativas de invasão pelo Morro da Babilônia. Foi lá que serviu o alferes Joaquim José da Silva Xavier pouco antes de ser preso. O forte só recebeu armas em 1823 quando era temido um ataque da esquadra portuguesa após a independência do país. Durante a Regência Trina foi desarmado só voltando a defender a costa em 1863 por ocasião da “Questão Christie”. Foi logo depois abandonado, chegando às ruínas e dele somente restou o imponente portão construído entre 1776 e 1779. Reconstruído em 1913 no governo de Marechal Hermes da Fonseca, o forte passou a se chamar Forte Duque de Caxias por determinação de Getúlio Vargas em uma homenagem à fidelidade ao governo durante a Intentona Comunista. Abriga desde 1965 o Centro de Estudos de Pessoal do Exército.

O Forte de Copacabana foi a última fortificação construída no Rio de Janeiro. Inaugurado pelo Marechal Hermes da Fonseca, em 1914, como a mais moderna praça de guerra da América do Sul. Seus canhões Krupp atingiam alvos até 23 km de distância e silenciaram em 1987. O forte passou a ser sede do Museu Histórico do Exército Brasileiro. É um ponto turístico da cidade muito visitado, de onde são admiradas algumas das mais belas vistas cidade, como a Praia de Copacabana, o Arpoador e a entrada da Baía de Guanabara.

O Forte Tamandaré, antes Forte da Laje, fica localizado na Ilha da Laje sobre uma pedra chata de 100 metros de extensão por 60m de largura. A ilha, situada na entrada da baía foi ocupada em 1555 pelos invasores franceses que a chamavam La Ratier (ratoeira ou armadilha), porém foi abandonada logo em seguida devido à maré que em dias de tempestade inundava a ilha ameaçando a guarnição. A primeira fortificação foi concluída no governo do Marquês de Lavradio. Destruída durante a revolta da armada, passou por obras de reconstrução de 1896 a 1901. Por ocasião da República Velha, participou juntamente com a Fortaleza de Santa Cruz de um levante militar contra o então presidente Marechal Floriano Peixoto. Também lá estiveram presos personagens históricos como José Bonifácio e o poeta Olavo Bilac. Em 1997 foi desativada.

Na ilha de Boa Viagem, semi-ocultas pela vegetação, pode-se encontrar o Forte de Boa Viagem e a Igreja de Nossa Senhora de Boa Viagem. O forte está em ruínas, pois foi duramente bombardeado durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Em 1808, com a vinda da Família Real e o aumento da movimentação portuária no Rio de Janeiro devido à abertura às nações amigas, o forte servia como abrigo de quarentena a quem chegava ao país. De 1810 a 1876 o local sediou a Escola de Aprendizes de Marinheiros. Em 1938 o conjunto é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e hoje recebe visitas turísticas guiadas.

Construídos com finalidades diversas e estratégicas de defesa, os fortes e fortalezas são o monumento mais imponente de uma época de formação de países e delimitação de territórios. As histórias que se passaram por seus muros, masmorras e celas se transformam em um livro aberto a quem tiver a oportunidade de visitá-los. Aqui não estão listados todos eles, mas nenhum desmerece mais o outro, visto que eram todos de extrema importância nas defesas do Rio de Janeiro e do Brasil, formando uma rede protetora, cada um com seu papel estabelecido.

As muralhas de uma fortaleza desvendam paisagens esplêndidas e por si só já valem uma visita. Suas masmorras, muitas vezes sem qualquer tipo de ventilação só podem dar um vislumbre do horror por que passavam os prisioneiros a ela destinados. A forca, os fossos que se enchiam com as marés e as celas pequenas e úmidas de frente para eles são um capítulo a parte na questão dos castigos e execuções perpretados naqueles tempos. As baterias, alinhadas com seus canhões inativos e as minúsculas vigias que revelam um mar quase sempre calmo e azul, estão impregnadas de histórias nem sempre bonitas, nem sempre gloriosas ou heróicas, mas que contam as lutas externas e internas do país. Quem entra pelos portões de um forte sai de lá com um peso maior nas costas, com um brilho maior no olhar e com uma infinita sensação de ser pequeno diante do que aconteceu ali, enquanto o Brasil fazia sua história.


Baterias alinhadas na fortaleza de Santa Cruz

Esclarecendo:

A Questão Christie foi um incidente diplomático entre Brasil e Inglaterra. Ela dizia respeito a dois episódios distintos; um navio inglês que naufragou no litoral do Rio Grande do Sul, em 1861 tendo sua carga saqueada sem que o Brasil encontrasse a carga nem os culpados, foi uma delas. Um ano depois três oficiais da marinha inglesa foram presos embriagados, por perturbação da ordem e soltos logo depois. O diplomata britânico William Christie exigiu indenização para o primeiro caso e julgou o segundo como uma ofensa a marinha inglesa. Leopoldo I da Bélgica foi o mediador no caso e deu ganho de causa ao Brasil. Apesar disso a Inglaterra não aceitou a decisão e houve o rompimento das relações diplomáticas que só foram retomadas em 1865 quando a Inglaterra se desculpou com o Brasil.

A diferença entre Fortaleza e Forte é que a primeira possui duas ou mais baterias de artilharia localizadas em espaços independentes e com grande distância entre si e o segundo possui apenas uma ou duas baterias.

 

Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco