São Paulo, 04 de julho de 2008
Feira de História
Todo primeiro sábado do mês acontece na Rua do Lavradio, centro do Rio de Janeiro, a Feirinha do Rio Antigo. Confesso que sou apaixonada por feiras, principalmente as de artesanato, mas ir à feira da Rua do Lavradio era um projeto adiado já algumas vezes. Contudo, nesse mês de Junho consegui enfim conhecê-la, e descobri mais um recanto do Rio que remete aos tempos antigos de uma forma inesquecível. Somente ali, naquele pedaço do centro histórico da cidade, podem-se encontrar tantos retalhos de história em um só lugar. Ao longo dos sobrados coloridos, antiquários abarrotados, e bares espalhados pela rua, encontrei objetos dos tempos imperiais até as décadas mais recentes.
A Rua do lavradio foi aberta em 1771 pelo Marquês de mesmo nome, que foi o 11º Vice-Rei do Brasil de 1769 a 1778. A rua foi um dos pontos mais nobres desde os tempos do Império até a metade do século passado. Lá foram construídos teatros e casas de espetáculo e a rua atraía visitante e moradores ilustres como o Duque de Caxias e o escritor João do Rio que moraram lá. Com 700 metros de extensão, ela hoje está ladeada por sobrados com fachadas de arquitetura eclética, enfim recuperadas, que retratam o que imagino ser o ambiente dos anos 30.
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A Rua do Lavradio foi o epicentro da vida cultural e da boêmia do Rio de Janeiro, mas a decadência também andou por ali, como uma sombra devastadora que transformou muitos sobrados em cortiços. Felizmente essa fase foi vencida. Hoje, graças ao esforço dos comerciantes locais, a Rua do Lavradio se encontra revitalizada. Num esforço conjunto, eles criaram a Feira do Rio Antigo (em 1997) que acabou virando atração turística e as melhorias na rua e imóveis só vieram somar-se à iniciativa maior de trazer de volta um muito da cultura e boêmia aos saudosistas. Impossível andar por ali e não se sentir transportado a tempos remotos, tempos de criança, como se fosse aberto um baú de nossos avós. Sons, cores, objetos, tudo absurdamente familiar e acolhedor.Com as desapropriações do desmonte do Morro de Santo Antônio, na década de 30, alguns arranha-céus foram construídos do lado par da rua. Esse detalhe, no entanto, é facilmente ignorado, pois o que restou ainda basta para alegrar a alma na apreciação de resquícios de um tempo que não volta mais.
A primeira sensação que tive ao entrar na feira foi uma inquietude, uma ânsia de não perder nenhum detalhe. Burburinhos surpresos e interjeições maravilhadas são ouvidas a todo instante. Uma velha cômoda de madeira entalhada com o espelho escurecido, cadeiras ainda estofadas com tecidos floridos desbotados pelo tempo, luminárias de todos os formatos, cerâmicas inacreditáveis, castiçais com anjos escuros e damas elegantes, frascos de perfume com bombinhas e pompons, caixas de música que ainda tocam valsas e cantigas de ninar.
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Nesse momento você precisa controlar seus impulsos e se concentrar em encontrar um caminho que percorra cada barraca, cada ponto, sem deixar que nada se perca num desleixo imperdoável. As barracas estão colocadas lado a lado, nos dois lados da rua. Embaixo dos sobrados de fachada colorida, estão os antiquários. Entrar num desses antiquários é como perder-se num armário profundo, cheio de surpresas e pequenos prazeres. Lembro-me de algumas casas de parentes e amigos de meus pais onde entrei quando criança. Algumas tinham sempre um cômodo dedicado às velharias, e eu adorava esses lugares. Descobri muitos tesouros guardados em cômodas escuras e cheias de teias de aranha e a sensação que tive ao ir até o fundo de um dos antiquários foi mesmo essa, a de estar entrando em uma velha casa onde se deixou para trás um pouco de história e de vida.Os móveis estão apinhados de enfeites de toda sorte, o ar cheira pesadamente a coisas velhas impregnadas dos anos passados. Pelo teto, incontáveis lustres brilham com as luzes fracas enfeitando a confusão total de móveis e objetos de decoração. Nada é novo, e isso é o que atrai aquelas pessoas encantadas que cruzaram meu caminho.
Alguns dos sobrados abrigam restaurantes e bares, todos eles decorados à moda antiga, aconchegantes, de onde se ouve chorinho, bossa-nova, ou ainda um bom samba. Todos eles cheios, desde que cheguei pela manhã, até a hora em que fui embora, ao final da tarde, já no desmontar das barracas. Almocei num deles, ouvindo música ao vivo, ainda extasiada pela atmosfera que me envolveu desde que pisei na feira.
Enquanto caminhava lentamente por entre as barracas meus olhos aflitos encontravam coisas inacreditáveis para mostrar a meu filho de 10 anos. Uma velha máquina de escrever vermelha o deixou encantado. Um telefone de disco que ele nem sabia como usar. Vitrolas e LPs. Revistas com fotonovelas e Pin-Ups, gibis antigos do Recruta Zero e Fantasma. Fotos, cédulas, moedas e selos antigos. Um orelhudo Topogigio sorria para mim de uma pilha de brinquedos com os quais brinquei quando criança. Em meio às antiguidades da feira existem coisas novas e muito artesanato, mas mesmo essas barracas procuram não fugir ao clima e usam o Rio como tema em muitos de seus trabalhos. Há também barracas com instrumentos musicais; flautas de bambu e madeira, tambores e instrumentos de percussão de várias formas, tamanhos e procedência, visto que há também estrangeiros expondo na feira.
Por toda a feira encontram-se artistas oferecendo sua arte em plena rua, generosamente. Um homem grande e compenetrado e seu instrumento inusitado, como um grande barril ele produz um som inacreditável resultado de movimentos, ora vigorosos, ora delicados, de suas mãos revelando belas músicas como Fascinação. Uma trupe de artistas a caráter encenado uma peça sobre o tempo do império, uma roda de capoeira que se alarga aos poucos até tomar toda a calçada. Uma mistura de sons que não agride, nem tumultua, cada espaço respeitado, dando aos visitantes oportunidades únicas e várias de absorver cultura, arte e saudosismo num só lugar, de uma só vez. Saí da feira embriagada, impregnada da atmosfera do lugar, pois nunca vi num só lugar e a um só tempo, tamanha manifestação pelo resgate cultural da cidade.
Vista do estacionamento às 18h. Arcos da Lapa.