São Paulo, 01 de setembro de 2007

 


Esculpindo a natureza


Fátima Silva

 

 

Eu já disse antes como gosto de janelas. Para mim, são como molduras encantadas e dão novas perspectivas ao que vejo. Como se dali, eu pudesse apreciar os lugares que despertam a minha curiosidade, minimamente e melhor.

Trabalhei em uma sala, no décimo primeiro andar, de um edifício no Castelo, bairro do centro do Rio de Janeiro, pelos idos de 1987. Lá havia um janelão que tomava toda uma parede e, muitas vezes, fiquei observando o movimento da rua lá embaixo. O constante frenesi das pessoas que passavam na Avenida Franklin Roosevelt na hora do almoço e um pedaço, um pedacinho apenas, do mar lá no fundo, parecendo destoar de todo o resto. Nos dias de sol ele, muito azul, chamava a minha atenção e eu me via ficar, muito tempo, ali parada, só observando. Nos dias nublados, ele se tornava cinza e se confundia com os prédios de concreto, enchendo a paisagem de melancólica e tristeza. Trabalhava comigo um senhor de seus sessenta e poucos anos, Lourenço, magro, cabelos grisalhos, humor e disposição invejáveis. Lembro-me de, uma vez, conversar com ele sobre essa vista, que me fascinava. Ele me disse, então, que aquele mar que eu via lá embaixo, vinha quase até onde estávamos há muitos anos atrás. Mostrou-me até mesmo o ponto exato onde começava o aterro. E era muito próximo do Castelo, bairro onde estávamos. Essa nova informação, mais concreta, me assombrou. Esse homem, em pessoa, viu como era o Aterro do Flamengo antes das obras.

Eu já tinha ouvido histórias sobre o mar vir tomar de volta aquele espaço que era seu, mas ter uma dimensão do que é hoje “esse espaço” foi apavorante. Se outrora foi um mar azul, com praias, rio e até morros que já não existem mais, agora são muitos quilômetros de jardins aterrados. E ali se construiu monumentos, museus, áreas de lazer e pistas de alta velocidade que ligam o centro à zona sul do Rio de Janeiro. Vi, em uma foto antiga da cidade, que a Igreja de Santa Luzia ficava quase à beira da praia. Era a Praia de Santa Luzia, que também foi aterrada. A Igreja continua lá, agora na rua de mesmo nome, no bairro do Castelo, mas dista algumas quadras; cinco ou seis, do mar. Muitas vezes entrei nesta Igreja e sequer imaginei que havia um mar ali pertinho, pouco antes de eu nascer.

O Parque Brigadeiro Eduardo Gomes, como se chama o Aterro, se estende do Aeroporto Santos Dumont até a enseada de Botafogo e é um bálsamo para os olhos e para a alma de quem o atravessa de carro na atribulação do dia. Ele possui sete quilômetros de extensão e mais de um milhão e trezentos metros quadrados. Uma área primeiramente destinada a desafogar o trânsito e valorizar os bairros vizinhos num projeto de Affonso Eduardo Reidy, ele ganhou, graças à interferência de Lota Macedo Soares, uma socialite influente com os políticos da época, um projeto paisagístico de Roberto Burle Marx.

O projeto somente concluído em 1965 (teve início em 1951) removeu imensos blocos de pedra retirados do desmanche do Morro de Santo Antônio (Largo da Carioca) para o mar e a areia do fundo da baía foi drenada para o lugar da água represada. Somente uma vista aérea para dar a dimensão exata da transformação ocorrida ali. O solo que se originou, precisou ser tratado para receber e manter a vegetação nativa. Impressiona-me não somente o quanto custou tamanha empreitada; não somente as dificuldades físicas do lugar escolhido, mas a ousadia das pessoas envolvidas, desde a concepção da idéia até a execução do projeto. Pessoas trabalhando para mudar a natureza, tomar o mar das praias, removerem morros e esculpir uma nova natureza a favor do seu bem-estar.

Se o mar virá tomar de volta, somente o tempo irá dizer. Mas, apesar dessa ameaça, o Aterro do Flamengo é mais um lugar especial do Rio de Janeiro, uma maravilha que uniu a engenhosidade humana e a natureza generosa das terras cariocas. Que me perdoe o senhor Affonso Reidy, mas, apesar de todo seu trabalho e esforço, o parque não parece ter sido criado, não parece ter sido inventado, parece mesmo ter estado sempre ali, seguindo do Centro para a Zona Sul em linha sinuosa, acompanhando o mar. E acredito isso deva ser um elogio! Somente o senhor Lourenço poderia me dizer se foi mais bonito do que é hoje, apesar das casinhas humildes que antes ocupavam o litoral da cidade. Mas, naqueles dias, infelizmente, não me lembrei de perguntar-lhe.

Além dos jardins e quadras esportivas e de lazer, o Aterro do Flamengo abriga alguns marcos como o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra; o Museu de Arte Moderna; o Museu Carmem Miranda; restaurantes e a Marina da Glória. Passarelas e passagens subterrâneas levam as pessoas aos diversos recantos do parque, como a Praia do Flamengo, totalmente artificial, que atrai as pessoas por ter um mar calmo e sombra de árvores nos gramados vizinhos. Rumo à zona sul, o parque termina na Enseada de Botafogo, um cartão postal tipicamente carioca e de tirar o fôlego. Um pouco de céu, um tanto de mar, um morro bonito servindo como pano de fundo, um conjunto nem mesmo afetado pelos prédios vizinhos e o asfalto próximo. A Baía de Guanabara se estende aos pés do Pão de Açúcar e assinala um dos extremos do Parque com a exuberância natural da cidade do Rio de Janeiro.

 



Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco