São Paulo, 8 de abril de 2007

 

Escadas

 


Fátima Silva

 

 

O Rio de Janeiro é uma cidade de montanhas e morros.

O contraste fica por conta dos morros de floresta, como o Pico da Tijuca, com 1.021 metros de altitude, onde só existem trilhas ecológicas, riachos, cachoeiras, animais silvestres e os morros de favela, onde barracos de madeira, medo, e pobreza são os traços marcantes.

Na cidade do Rio de Janeiro, há três grandes áreas verdes. O maciço de Gericinó, ao norte. A leste, o Parque Nacional da Tijuca e ao sul, o Parque Estadual da Pedra Branca. Acho que os morros e montanhas emprestam às paisagens uma atmosfera bucólica, como se fizessem parte de um quadro e para dentro dele eu pudesse me transportar.

Muitas vezes andando pela Praça Verdun, no Grajaú, numa virada de esquina me surpreendo com o Pico do Papagaio (ou Perdido) e seus 442 metros de altura contra o céu azul. Essa visão é como um bálsamo na agitação da rua movimentada, barulhenta e quente. O pico ao Parque Estadual do Grajaú e é visível também de Vila Isabel, bairro vizinho.

Passeando pelo Aterro do Flamengo até a Praia de Botafogo, onde o morro do Pão de Açúcar se destaca da Baía de Guanabara (fazendo um dos cartões-postais mais bonitos da cidade) sinto orgulho do conjunto de natureza e urbanidade que parece estar ali para dar aos passantes uma lufada de ar fresco antes de ir para o trabalho e enfrentar um novo dia.

Caminhando pela Lagoa, observando o morro do Corcovado, lá no alto, o nosso Cristo Redentor parece vigiar a cidade que se estende a seus pés.

Apesar de ser uma cidade de montanhas, enumerá-las uma a uma, demandaria um livro inteiro. Citar somente alguns pode ser injusto e inadequado. Nosso ponto culminante, fica no Parque Estadual da Pedra Branca, o pico tem 1.024 metros de altitude e o maciço circunda os bairros de Guaratiba, Bangu, Realengo, Jacarepaguá, Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes, Grumari e Campo Grande.

É corriqueiro passear pelas ruas da cidade e ver, em cima dos morros, praticantes de alpinismo, pontinhos coloridos sobre as pedras lisas do Pão de Açúcar ou do Morro da Urca ou mesmo no nosso Pico do Papagaio. A altitude de nossos morros varia de 1024 a menos de 400 metros.

Em uma cidade assim, de relevo montanhoso é inevitável construir sobre morros. Bairros inteiros como a Rocinha, — que já foi uma favela e hoje é um bairro — se estendem por sobre os morros e com isso constroem-se acessos diversos para os moradores e visitantes. Como chegar lá? Por ladeiras sinuosas e escadas enormes. Temos várias em nossa cidade, difícil contabilizá-las, pois apesar das casas construídas ao seu redor, muitas vezes nem possuem nomes. Já subi e desci por muitas delas na minha vida. Escadas solitárias como em Santa Teresa, precárias como as que dão acesso às favelas, arborizadas aonde vão subindo casinhas ao longo dos degraus e até as rolantes como as que levam ao Cristo Redentor.

Quem nunca apreciou escadas, nem que fosse quando criança, buscando desafios e obstáculos em pequenos degraus?

Gosto mais das arborizadas e com pouca iluminação. Aquelas que não mostram objetivamente para onde vão e se perdem no alto, num convite ao mistério. Essas são um livro aberto. Subir ou descer por elas é descobrir, desvendar, desbravar, encontrar. Mas não subir é deixar a imaginação fluir e transformar a realidade em algo ainda mais atraente.

Existe uma escada assim na Rua Barão de Vassouras, em Vila Isabel, que não me canso de observar. Já passei por ali várias vezes de carro e me deixava ficar imaginando aonde aqueles degraus levariam. É uma escada estreita, com algumas árvores ao redor. A iluminação é tênue e existem casas nos dois lados dela. Ao pé da escada há uma pracinha, com escorregador e gangorra, uma mesa e bancos de pedra onde as pessoas se sentam para descansar, jogar cartas ou conversar simplesmente. É pequeno e acolhedor.

Outro dia, eu e meu marido, resolvemos subir as escadas da Rua Barão de Vassouras, queríamos saber aonde ela nos levaria. Ele foi até o fim, eu parei nos primeiros quarenta degraus.

Depois de pedir algumas informações, meu marido resolveu descer para nós, de carro, darmos a volta pela Rua Maxwell. De lá, chegamos à Rua Pontes Correia, onde subimos devagar pelas curvas de um novo recanto desconhecido por nós. A rua estreita sobe em curvas sinuosas num ambiente tipicamente residencial, crianças brincando aqui e ali e escadas descendo para as ruas lá embaixo. Entre elas, a “minha” escada.

À medida que subimos, Vila Isabel foi se descortinando lá embaixo, por entre as casas.

Numa viagem, de mais ou menos cinco minutos, chegamos ao platô do morro de Santo Antônio, onde fica a Igrejinha do mesmo nome, lugar em que acontecem as famosas festas juninas do bairro e há queima de fogos no dia do santo. Já a tínhamos visto lá da Praça Barão de Drumonnd, muito branquinha de dia, toda iluminada à noite.

Ali do alto, pudemos observar Vila Isabel como nunca antes. Lá embaixo o Shoping Iguatemi, a Igreja de Na. Senhora da Conceição e da Ajuda, a Praça Barão de Drummond e algumas ruas, como a Teodoro da Silva, a Boulevard 28 de Setembro e a Visconde de Santa Isabel. É um mirante privilegiado na parte central do bairro. Estava anoitecendo e foi bonito ver as luzes se acendendo para a noite que chegava. Ali, na parte mais alta do morro de Santo Antônio, também há duas escadas que descem para a Rua Teodoro da Silva.

A Igreja foi construída em 1891, por um grupo de portugueses que comprou o terreno do Barão de Drumonnd. Pela altura em que fica a Igreja pode-se ter uma dimensão da fé das pessoas que a construíram e das que iam assistir as missas, se levarmos em consideração que a rampa de acesso só foi construída em 1910.

Subir a escada da Rua Barão de Vassouras tirou um pouco do encanto que eu sentia por ela, mas me levou a um lugar muito gostoso do bairro que eu não conhecia. É essa singularidade de Vila Isabel da qual não me canso de escrever, em cada curva, em cada esquina um novo recanto, uma nova surpresa.

Escadas são vias de acesso importantes em cidades como o Rio de Janeiro. Desbravaram caminhos difíceis e os tornaram mais confortáveis e seguros.


 

Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco