São Paulo, 27 de maio de 2007
Cotidiano
Aprendi com uma amiga a andar pelas ruas buscando histórias ocultas. Cada vez que eu lhe mandava uma foto ou um cartão-postal, ela se prendia em um detalhe ínfimo, menos importante do que todo o resto, pedindo informações. Então, eu perdia incontáveis horas pesquisando dados improváveis para satisfazê-la. Percebi que este olhar mais atento, essa busca pelo que normalmente não se vê, é o grande barato da história e comecei a exercitar esse meu lado xereta.
Ao olhar duas vezes um determinado fato, descubro coisas novas e interessantes que despertam a vontade de olhar mais uma vez. Comecei olhando melhor o meu bairro: Vila Isabel.Vila Isabel tem um ar de interior. Aconchegante. Muitas de suas ruas quase não têm prédios. As pessoas que circulam por aqui são as pessoas de todos os dias, rostos conhecidos somente no ir-e-vir cotidiano. Crianças indo para a escola, idosos comprando pão e jornais, gente de todas as idades chegando ou saindo para o seu trabalho. Aqui ainda se preservam antigos costumes, como ir à mesma padaria diariamente e o padeiro saber como gostamos do pão e até quantos queremos; comprar jornais na mesma banca e ser amigo do jornaleiro que pode até ser o nosso vizinho; crianças jogando bola nas ruas nos mesmos horários; homens que criam pássaros conversando em bares de esquina onde já existem ganchos para suas gaiolas; e até criação de galinhas em pleno asfalto. Pode acreditar, em minha rua, um galo que eu ainda não vi, canta todos os dias.
Uma vez eu vinha apressada por uma rua transversal quando percebi um enorme tumulto na Rua Teodoro da Silva. Pensei em acidente ou atropelamento, mas as pessoas riam e pareciam se divertir. Aproximei-me para ver e não pude conter o riso diante da cena que parou a rua inteira; uma enorme porca caminhava no meio do asfalto, languidamente, acompanhada por mais ou menos dez porquinhos. Algumas pessoas tentavam fazê-la andar mais rápido, mas ela reagia furiosamente a qualquer aproximação, claro! Os veículos buzinavam apressados, mas ela seguia, impassível, apenas se voltando para olhar os filhotinhos vez ou outra. Mais tarde, a senhora porca foi manchete do noticiário da tevê, causando tumulto próximo ao centro do Rio de Janeiro.
Quando estamos inseridos assim no cotidiano de um bairro, quase nos tornamos personagens irreais. Existe um homem na rua em que moro que é levado pelo cachorro a passear. Isso mesmo! O cachorro morde e assume a própria coleira não restando ao dono senão fazer a sua vontade. A primeira vez que assisti a esta cena, indaguei ao dono do cão se ele estava mesmo tentando conduzi-lo. Ele riu e disse que ele queria entrar em casa, mas seu cachorro queria passear mais. O homem parecia muito orgulhoso de seu animal de estimação ser ao mesmo tempo tão teimoso e tão inteligente. Encontrei-os outras vezes, inclusive uma vez vi este mesmo cachorro passeando com uma senhora e ele agia da mesma forma, não permitindo ser conduzido mesmo durante o passeio, muito feliz de segurar a própria coleira. Assistir a esta cena é impagável!
Temos também os nossos “loucos” quem não os tem? Muitos deles são andarilhos do bairro desde quando me entendo por gente. Suas histórias são fascinantes e tristes. Havia uma mulher que sempre estava grávida, mas nunca vimos nenhum de seus bebês. Um outro que em seus momentos de lucidez ensinava matemática para uma vizinha.
Em um de meus caminhos rotineiros, há uma casa encantadora, com um jardim que fascina quem passa por ali. Tem até um riacho com peixes e uma ponte. Tem também um chafariz. Não é grande, mas é maravilhoso! Pelo gramado estão espalhados bichinhos, personagens infantis e duendes de cerâmica pintada. No Natal, a casa ganha adornos especiais como um enorme Papai Noel que canta e dança quando se aperta a campainha que fica disponível aos passantes. Está nítida a intenção de presentear os vizinhos com tanta beleza, uma generosidade da proprietária.
As pessoas que não se conhecem pelos nomes se identificam pelos hábitos do dia-a-dia e não pense que se pode escapar disso. O padeiro-de-bicicleta todos os dias percorre as ruas buzinando de manhã cedo e à tardinha. O pipoqueiro Américo, conhecido e respeitado por todos é esperado ansiosamente pelas crianças todos os dias a mesma hora já é patrimônio do bairro. O vassoureiro, o carro do pão, o carro da pamonha as carrocinhas de churrasquinhos nas esquinas, os vendedores de doces. Essas coisas pequenas, habituais, trazem um clima familiar, um quê de aconchego, que transforma a rotina das pessoas e empresta ao bairro uma atmosfera de cidade pequena.
Quando comecei a ver tudo com olhos mais atentos, percebi que diariamente, cumprem-se rituais de vivência. Estranho quando o sininho da carroça do Américo não toca na hora certa. Se não encontro determinada pessoa em meu caminho é porque estou atrasada ou adiantada demais. Se acontecer alguma coisa fora do normal, assalto, acidente, briga, a informação é passada adiante de modo a alertar a quem vai passar pelo local. Se alguém passa mal na rua, logo se descobre o endereço e se avisa aos familiares. Alguns anos atrás, um sapateiro amigo de meus pais foi atropelado na Rua Teodoro da Silva, rua paralela a que morávamos. Pois alguém o reconheceu, de suas habituais visitas aos sábados e bateram em nossa porta com ele dentro de um carro. Infelizmente este ato caridoso não o salvou, era já muito velhinho.
Vila Isabel é um bairro amigo, musical, familiar. Suas calçadas musicais cantam as letras de compositores ilustres, a estátua de Noel dá boas vindas a quem entra na Boulevard 28 de Setembro. A antiga Fábrica de Tecidos está impregnada com a história dos operários e moradores da Vila Operária. A Igrejinha de Santo Antônio pede aos fiéis que renovem sua fé subindo o Morro de Santo Antônio. O “Antigo Jardim Zoológico” abre seus portões para as crianças e para a paz, apesar do contraste a que está submetido, vizinho ao Morro dos Macacos.
Muitas vezes em minhas andanças, que incluem o Grajaú, encontro pessoas que vejo habitualmente, nos dois bairros num mesmo dia. Aqui não existem fronteiras, como se os dois bairros se fundissem através de seus moradores e de suas atividades e compromissos. Em se falando de comércio e serviços a lealdade existe, mas não é radical. Você conhece todos, varia de vez em quando e estabelece suas simpatias de acordo com a necessidade e oferta. Sem problemas uns indicam os outros quando não podem atender em um ou outro quesito.
Um hábito muito comum é o cumprimento de cabeças quando se passa por um conhecido. Entenda-se por conhecido o senhor que todos os dias entrega quentinhas pelo bairro; o outro que entrega galões de água; aquela senhora passadeira de roupas que vai-e-vem com trouxas na mão, sempre sorridente e tranqüila. Não necessariamente sei seus nomes, muitas vezes nunca useis seus serviços, mas sei quem são o que fazem, onde moram e isso basta. E isso é recíproco.
Olhando as coisas desse modo novo de procurar o que não está explícito, descobri que embora morando numa grande e movimentada cidade, o homem ainda procura manter a tranqüilidade de tempos antigos. Como se quisesse resgatar um pouco de sua infância ou das histórias de seus pais e avós. No fundo, as coisas não mudaram muito e apesar da tecnologia de ponta e da informação crescente e abundante, ele ainda gosta de andar pelas ruas e ver rostos conhecidos, entrar na padaria e ser tratado como se estivesse sendo esperado. Ainda gosta de encontrar casas e jardins bonitos no caminho e sentir cheiro de pipoca no ar. Também gosta de quintais e de janelas abertas e se encontra um cachorro sabido levando seu dono pela coleira ou uma porca atrevida desafiando uma avenida movimentada o dia fica diferente e muito mais interessante. Para tanto, basta o olhar atento.
Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco