Rio de Janeiros, 01 de junho de 2011
Copacabana Palace
Falar de Copacabana pode parecer lugar comum. Uma praia linda, um calçadão fervendo de gente bonita e cores mil, um mar de azul sem igual e a diversidade de idiomas e culturas contrastando, de um lado com o jeito despojado dos cariocas e do outro com a tradicionalidade inerente ao bairro. O incomum está em que, quanto mais se diz, mas se tem a dizer e hoje quero falar sobre um palácio que existe em plena Avenida Atlântica e que não é nenhum museu, embora seja tombado pelo patrimônio Histórico desde 1985.Por volta de 1919 o então presidente do Brasil, Epitácio Pessoa, sentiu a necessidade de se construir um grande hotel de turismo na então capital do país, Rio de Janeiro. O hotel ajudaria a hospedar os visitantes da Exposição do Centenário da Independência do Brasil, que aconteceria na esplanada do Castelo, em 1922 e teria repercussão internacional. O Copacabana Palace foi então construído pelo empresário Octávio Guinle e por Francisco Castro Silva (entre 1919 e 1923) que tiveram incentivos fiscais e a licença para que no hotel funcionasse um cassino.
O projeto do arquiteto francês Joseph Gire foi inspirado em dois hotéis da Riviera Francesa e o engenheiro responsável foi César Melo e Cunha. Na época de sua construção o Copacabana Palace foi o primeiro grande edifício de Copacabana, como mostram algumas fotos da época, com pequenas casas e mansões ao seu redor. Numa comparação com a Avenida Atlântica de hoje fica fácil imaginar que o prédio, que ainda hoje se destaca das construções ao redor por sua alva e suntuosa sobriedade, era um ícone de grande destaque no bairro.
foto: Mécia RodriguesApesar do objetivo principal da construção do hotel, ele só seria inaugurado em 13 de agosto de 1923, quase um ano após a Exposição e isso aconteceu graças as dificuldades na importação de mármores e cristais e na execução das fundações, que exigiam quatorze metros de profundidade. Haviam dificuldades tecnológicas e de conhecimento e uma forte ressaca destruiu a Avenida Atlântica em 1922, causando danos ao hotel. Como o atraso das obras, o então presidente Arthur Bernardes tentou cassar a licença para o funcionamento do Cassino, mas após dez anos de disputa, a família Guinle ganhou a causa. Apesar da controvérsia foram, o hotel e o cassino, os grandes responsáveis pelas décadas de glamour no bairro de Copacabana. Sua construção atraiu novos investimentos e valorizou os imóveis do bairro.
Em 1925 hospedou-se no Copa o cientista Albert Einsten, Em 1928 o presidente Washington Luis foi atingido por um tiro de sua amante francesa, dentro do hotel. Em dezembro de 1928, Alberto Santos Dumont, vitimado por forte depressão após a morte de amigos num desastre de avião (que tinha por objetivo prestar-lhe uma homenagem) hospedou-se no Copacabana Palace. Em 1930, aconteceu o primeiro concurso de Miss Universo, uma época em que as misses ainda não mostravam as pernas, desfilavam em carro aberto pela cidade e usavam a varanda do hotel como passarela assistidas por uma multidão aglomerada na Avenida Atlântica.
Em 1933, o musical "Flying Down to Rio", em que Fred Astaire e Ginger Rogers dançam juntos pela primeira vez torna o hotel conhecido mundialmente. O filme foi feito nos Estados Unidos da América, mas ambientado no hotel, com cenários pintados do Rio de Janeiro e cenas externas na praia de Malibu.
Em 1934 foi construída a piscina do hotel, ampliada em 1949. Em 1938 foi inaugurado o Golden Room, com um espetáculo de Maurice Chevalier.
Com a Segunda Guerra Mundial o Copacabana Palace mostrou-se o único hotel de turismo capaz de hospedar a elite internacional sem perigo de um bombardeio. A política de boa vizinhança para com os Estados Unidos, feita em 1942, trouxe grandes personalidades daquele país ao Copa. Grandes nomes como Clark Gable, Fred Astaire, Katerine Hepburn, Marlene Dietrich, Orson Welles (que "morou" seis meses no hotel em 1942, e que num acesso de fúria jogou os móveis de seu quarto na piscina...), Walt Disney (que nele esboçou o personagem "Zé Carioca"), Carmem Miranda (que dizem, quase morreu de amor e desistiu depois de olhar a paisagem pela janela de seu quarto) e muitos outros que se hospedaram, moraram ou se apresentaram por lá deixando sua marca e emprestando mais brilho ao hotel.
Após a Segunda Guerra Mundial, em 1946 Eurico Gaspar Dutra, então presidente do Brasil, proibiu o jogo e o cassino foi transformado em casa de espetáculos. O hotel passou por uma reforma aumentando a sua capacidade em mais dois pavimentos anexos ao prédio principal.
foto: Mécia RodriguesHoje o Hotel Copacabana Palace é um dos mais importantes estabelecimentos hoteleiros da cidade, com 236 acomodações palacianas. Ocupa uma área de mais de 12 mil metros quadrados em um ponto nobre da Praia de Copacabana. Apesar de mais tranqüilo em contraste aos tempos de glamour e pompa, não é um lugar comum. E não é apenas o requinte de suas acomodações e espaços comuns que lhe empresta o charme e a aura inigualáveis. O Copa não é tão alto quanto alguns outros hotéis da cidade (e mesmo de Copacabana), mas é imponente e grandioso apesar disso. Ele se destaca da modernidade e do luxo de muitas outras fachadas porque possui a sobriedade dos patrimônios históricos.
É a marca indelével e quase palpável do que ali foi vivido. Tantos nomes, tantas glórias, tantas dores e espetáculos. Difícil caminhar por seu hall e corredores, observar aquela piscina cheia até as bordas (e não transborda uma gota), sem imaginar quantos pés por ali também passaram enquanto escreviam capítulos de nossa história e da história de outros povos. Eu duvido que alguém possa passar por Copacabana sem deitar sobre o Copacabana Palace um olhar de admiração e respeito. Ele merece isso, pois que sobreviveu à glória e a decadência sem perder o brilho alvo de sua majestosa magnitude.
Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco