São Paulo, 12 de novembro de 2007

 




Copacabana


Fátima Silva

 

 

“(...)
Costumo dizer, em silêncio, para a minha cachorra Tatiana,
companheira das minhas voltas à praia, que
a coisa mais fina e bonita deste mundo
é o vôo das gaivotas. (...)”

João Antônio*

 

O Rio de Janeiro é famoso por suas praias e, embora elas sejam magníficas, nem só de areia e mar se faz o Leme ou Copacabana; Ipanema ou Leblon; São Conrado ou Barra e tantos outros bairros distribuídos pela cidade, sejam suas praias famosas ou não. Esses bairros têm como os outros, uma identidade própria e são parte significativa do contexto, algo bem maior que o que vai estampado nos postais.

Sol, mar, areia branquinha, guarda-sóis coloridos e cangas voando ao vento nos ombros dos ambulantes, isso é comum a todas elas. Pessoas bonitas, correndo na areia, jogando vôlei ou futebol, conversando junto aos quiosques enquanto bebem uma água de coco ou tomam uma cerveja gelada, isso também não é singular a apenas uma delas. Porém, atravessando as pistas, além da praia, chegando ao lado oposto do calçadão, já se notam as diferenças que tornam cada praia única e incomparável.

Copacabana, por exemplo, é pluralidade em todos os sentidos. A começar por seu nome, que tem mais de uma hipótese etimológica. Uma delas afirma que o termo vem da língua quechua e significa “lugar luminoso” ou “praia azul”, o que pode traduzir a verdade de um dia de verão. A outra hipótese diz que é originário do aimará e significa “vista do lago”, neste caso, o lago Titicaca, na Bolívia. Segundo uma lenda, Nossa Senhora teria aparecido às margens do lago, para um pescador numa localidade chamada Copacabana. O homem então esculpiu a imagem da patrona das águas. Cópias desta imagem passaram a ser comuns nos navios espanhóis e assim uma delas veio parar em nosso litoral. Os comerciantes espanhóis construíram, aqui, a Igreja de Nossa Senhora de Copacabana e o local que antes era chamado Sacopenapã (assim com o eram os atuais bairros de Ipanema, Leblon, Gávea, Humaitá e Jardim Botânico) passou a ser chamado de Copacabana. Para fechar com chave de ouro, devo informar que Sacopenapã vem do Tupi, e quer dizer “caminho dos socós” que são aves pernaltas semelhantes às garças e que eram naturais do lugar.

Apesar de, para mim, não ser a mais bonita das praias cariocas, Copacabana possui uma personalidade marcante frente a todas as outras. Nas pessoas que ali vivem, trabalham e passeiam, nas feiras que exibem artigos, dos mais rústicos aos mais requintados, ou no contraste perfeito entre a praia selvagem e os prédios, alguns tombados pelo patrimônio e que exibem uma arquitetura atemporal (dignos de se olhar várias e várias vezes). Copacabana, a “princesinha do mar”, me parece mesmo uma senhora muito pomposa e altiva que recebe o povo colorido e festivo com condescendência. É muito curioso andar por Copa (tomo a liberdade do apelido carinhoso) e perceber que uma maneira mais amena e descontraída de viver foi sendo gradativamente adaptada num ambiente onde ainda existe uma atmosfera de tradição, de elegância e de conservadorismo.

No lado oposto da tradicionalidade, as meninas de Copacabana passeiam languidamente e despreocupadas como se estivessem no quintal de suas casas. Seus cabelos lindamente desalinhados e dourados pelo sol, sua pele cor de jambo ou muito clara e os pés em sandálias de borracha não a fazem desmazeladas, ao contrário, empresta-lhes uma aura de inocente rebeldia, como se dissessem; “podem ficar a vontade, a casa é sua!”. Em Copacabana, muitas vezes vestindo longas e diáfanas túnicas, saltos altos e chapelões de palha, as senhoras de Copacabana passeiam com seus cachorrinhos pelo calçadão movimentado e vão assim mesmo ao supermercado e a feira, numa elegância desmedida, mas natural em se tratando do bairro em questão. Não se pode falar de Copacabana sem lembrar as diferentes cidades, estados e até países que aqui tem seus representantes. Em cada esquina, em cada rua há uma mistura de sotaques e de costumes que já fazem parte do bairro e o tornam ainda mais pitoresco. Copacabana é cor, movimento e calor humano.

Prédios e mais prédios, colados uns aos outros se estendem pelas calçadas das ruas Barata Ribeiro e Nossa Senhora de Copacabana e entorno. Embaixo deles, lojas, supermercados, quitandas, lanchonetes, floriculturas e toda sorte de comércio possível. Num passa-passa constante, turistas encantados, nativos apressados e jovens em dupla ou em bando, estão em busca do mar, do sol e do que mais o dia ou a noite possam oferecer. E as possibilidades são infinitas, pois em nenhum outro lugar você pode esbarrar com um novo “amigo de infância” e ter uma tarde inesquecível sobre o calçadão revestido de mosaicos portugueses, que formam o desenho de ondas e datam de 1906.

As ruas próximas ao mar são frias e trazem o sal no rosto de quem anda por elas, é um beijo revigorante num dia de calor e um sopro gelado nos dias de inverno. E mesmo nestes dias frios há quem passeie pela areia molhada, ou corra pelo calçadão quase vazio. O céu cinza entristece a paisagem e faz o mar ficar igual, muita vez, ele sobe em altas ondas e vai até a pista como se quisesse buscar os banhistas. No verão, os ônibus lotados, descarregam os visitantes de outros bairros numa massa homogênea e ruidosa que prefere deixar-se ficar no posto oito, ali próximo ao Arpoador, uma grande pedra que avança para o mar e é o lugar preferido de pescadores e de namorados. E não bastassem as virtudes que aqui descrevo, há ainda um parque florestal que remonta os anos 60, o Parque da Chacrinha, com 13,3 hectares de mata atlântica, oferecendo uma alternativa de lazer bucólica. Contrastes perfeitos desta minha cidade incomparável.

Há também os fortes, do Leme e Copacabana e os túneis que possibilitaram, em outros tempos, os acessos a praia. Conta uma antiga lenda que nesses anos (1858) em que chegar a praia era uma aventura, foram vistas duas baleias no mar e que muitos, inclusive o Imperador Pedro II e comitiva, acorreram ao local com provisões e lá ficaram por três dias inteiros num piquenique incomum. Eles não viram as baleias, mas aprenderam a gostar da praia e a partir daí os acessos foram sendo abertos com estradas e túneis e em 1917, a então oficialmente Praia de Copacabana, teve regulamentado o uso do banho de mar com restrições de horário e decoro próprios da época. Se esses senhores vissem essa praia hoje, num dia típico de verão carioca, entenderiam que não se pode restringir a alegria e a naturalidade onde isso já faz parte da natureza.

Copacabana é uma menina preguiçosa e selvagem que durante o dia se estende languidamente ao sol e, à noite, fica ainda mais bonita com seus prédios iluminados. O mar, que quase desaparece no escuro, ao longe, continua lá, batendo agitado, no seu chuá-chuá incessante e a vida se faz além das areias brancas e úmidas da praia, porque a princesinha precisa dormir antes do sol chegar, mas em suas ruas ainda existe a alegria e o vozerio das gentes que por ali moram ou passeiam.

Outro dia, passando em frente ao Hotel Copacabana Palace, me furtei alguns momentos para observá-lo sem reservas, sob o sol das nove horas. Já o tinha visto muitas vezes à noite, todo iluminado e glamuroso, mas sob o sol ele ganhou novas perspectivas. Muito branco, muito amplo, intimidadoramente luxuoso e imponente, ele se situa de frente para a praia, para os banhistas despreocupados que se estendem na areia. Nesse momento, quase o vi repleto de damas e cavalheiros mascarados com seus risos abafados pela marchinha carnavalesca e os fogos de artifício do Ano Novo. Essa marca de um tempo antigo está impregnada por todo o bairro, em seus edifícios antigos, em seus hotéis conservadores e luxuosos, em muitas das pessoas, de cabelos brancos, que não dispensam a elegância e a tradicional arte do bem-viver. Mais que em suas roupas e jóias, em suas bengalas ou chapéus, eles carregam em si a aura de tempos que não voltam, mas que certamente, permanecerão em pequenos e grandes detalhes que só Copacabana possui, por um bom tempo. Oxalá!

 

*(o escritor paulistano que odiava o frio, amava o calor, que trocou São Paulo pelo Rio, morou a vida toda em Copacabana, ali na praça Serzedelo Correa, em uma modesta cobertura.)


 

 

Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco