Rio de Janeiros, 07 de março de 2011
O Complexo do Alemão
Dia desses passei pelo Morro do Adeus, uma das treze comunidades que compõem o bairro do Complexo do Alemão. Sim, o Complexo é um BAIRRO, com suas ruas delimitadas pela Lei de nº 2055 de 9 de dezembro de 1993. Confesso que fiquei bastante impressionada com a dimensão das obras feitas pelo governo, mesmo enquanto me perguntava, por que cargas d´água, um teleférico no Complexo era a prioridade.
Continuo me perguntando sem uma resposta convincente, mas deveras impressionada. O acesso à estação, desse morro em particular, proporciona vistas amplas do complexo e entorno, sem dúvida alguma, com o objetivo de proporcionar um passeio aos que se sintam curiosos. Pistas largas serpenteiam o morro enquanto mirantes vão-se destacando em pontos estratégicos. Alguns conjuntos habitacionais, destinados aos que perderam suas casas para as obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), se destacam aqui e ali entre as casas da comunidade. Pode-se ver ainda, casas semi-destruídas se misturando com a vista panorâmica do complexo. A quantidade de pessoas que subiam o morro, muitas a pé, naquele fim de tarde, para passear no local, era tamanha que me peguei imaginando o movimento quando as obras forem finalizadas e o teleférico começar a atender população e visitantes. A comunidade pacificada virou alvo da curiosidade mundial, que até então a via apenas como um cenário de violência e horror. Se isso será bom ou ruim só o tempo dirá.
O bairro do Complexo do Alemão foi construído sobre a Serra da Misericórdia, um conjunto de morros e nascentes, praticamente destruído pela ocupação que começou em 1951 quando seu proprietário o dividiu em lotes e os vendeu. Leonard Kaczmarkiewicz, imigrante polonês, era conhecido pela populaçao como "o alemão" e o local passou a ser chamado de o “Morro do Alemão”. O Complexo se formou da ocupação desordenada dos morros adjacentes o que aconteceu devido ao crescimento industrial após a abertura da Avenida Brasil em 1946. A violência provocada pelo tráfico de drogas, no entanto, destruiu qualquer possibilidade de progresso, provocando o fechamento das indústrias da região, onde é comum ver fábricas e galpões abandonados. Alguns desses locais se transformaram, recentemente, em escolas e conjuntos habitacionais.
Complexo do Alemão visto do Morro do Adeus
Com uma população estimada em 300 mil pessoas o Complexo passou por uma ação que mobilizou as Polícias e as Forças Armadas e tem, desde novembro de 2010 uma unidade pacificadora carrega a responsabilidade de não deixar que a situação de poder paralelo e terror voltem a se estabelecer. Como disse o Secretário de Segurança José Mariano Beltrame à mídia, na ocasião; “essa é uma dívida do Estado para com a comunidade” e, creio eu, com todas as comunidades da cidade o que se reverte em favor de toda a população.
O que percebi nos últimos meses de leitura de artigos e opiniões diversas foi a ingenuidade e o preconceito que permeiam muitos julgamentos sobre as comunidades e seus habitantes. Como eu disse na crônica Os morros da nossa história: “Um morro de favela é sempre mais que suas mazelas, seus vícios e seus “rótulos”. Lá, meninos soltam pipas, jovens batalham seus sonhos e pessoas de bem trabalham arduamente para garantir o pão de cada dia. Lá se reza o terço, se canta o samba e se faz cultura. Todos os dias essas pessoas descem o morro e engrossam a massa humana dessa cidade ativa e próspera e, ao voltar para suas casas, tudo o quse esperam é a mesma paz que nós também almejamos.”
A favelização é um problema secular que começou no final do século XIX, quando surgiu o Morro de Favela (Morro da Providência) ocupado por ex-combatentes da Guerra de Canudos por volta do ano de 1897. Isso aconteceu porque não havia lugar para eles se alojarem e, de uma situação que deveria ser provisória, fez-se hábito. Um hábito que se alastrou pela cidade, muitas vezes, devastando áreas de preservação ambiental o que demonstra que a fiscalização seria um dos fatores primordiais para conter esse avanço. Paralelo a isso, acontece um isolamento da comunidade provocado pelo preconceito e pelo medo. As favelas são como mundos à parte onde tudo, desde as gírias até o modo de vestir se transformam de acordo com o que acontece entre suas ruelas e becos. É toda uma linguagem forjada no desafio de ser diferente, de fazer diferente e existir mesmo quando tudo conspira em contrário. Para completar o quadro o poder paralelo, seja do tráfico ou das mílicias, escolhe esses locais para instalar seu domínio criminoso.
Apesar disso e, diferente do que algumas pessoas pensam, num dia normal de domingo, na maioria das comunidades, as pessoas sentam em suas varandas, saem para andar nas ruas, fazem seus almoços de família e confraternizam enquanto crianças andam de bicicleta, jogam bola ou soltam pipa. Se isso pode acontecer bem em frente a uma boca de fumo ou diante de bandidos armados é porque o ser humano, seja de qualquer cidade ou país, se habitua a situações extremas, simplesmente por não encontrar alternativa. Algumas ONGs se engajam em projetos, dignos de louvor, para tentar melhorar o futuro das crianças que crescem nesse ambiente, encarando um desafio maior que suas possibilidades, porque a chave da mudança é a educação. Infelizmente isso não é o bastante, há necessidade de um esforço maior e contínuo de nossos governantes para tonar essa transformação possível. Projetos sociais, segurança, políticas de boa vontade e fiscalização são somente o começo de um trabalho que pode mudar a realidade dessas comunidades e seus moradores.
Complexo do Alemão visto do Morro do Adeus
Em novembro último todos os olhos se voltaram para o complexo do Alemão, símbolo maior da violência na cidade do Rio de Janeiro. Fomos forçados a enxergar as mazelas que se originam em condições de segregação e poder paralelo. Sentados diante de nossas TVs, assustados, ameaçados pela ousadia do tráfico que espalhou o terror pela cidade, tivemos que olhar ao nosso redor e encarar de frente aquilo que preferíamos não ver. Hoje a palavra comunidade tem o mesmo tom pejorativo que a palavra favela, porque se refere a uma situação que não foi mudada, ainda. Para inserir as comunidades num mesmo contexto que os outros bairros da cidade é preciso que as tratemos sem preconceito, sem fronteiras de indiferença, sem julgamentos.
Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco