Rio de Janeiros, 10 janeiro de 2011

 

Confeitaria Colombo

 

 


Fátima Silva

 

 

As ruas do centro do Rio de Janeiro, algumas delas, ainda são estreitas e possuem sobrados que sustentam a precariedade do tempo e do descaso. Poucas ruas apresentam restauro em seus sobrados o que é realmente lamentável, pois fazem um bonito quadro quando bem cuidados. A Confeitaria fica numa dessas ruas estreitas, ladeada de sobrados, quase oculta em meio ao constante progresso que alarga as avenidas e faz sombra com imensos arranha céus. Apesar disso, ela é uma verdadeira surpresa no contexto que descrevo. Quando se vira a esquina da Rua Gonçalves Dias ela surge; quase escura, numa penumbra peculiar, para depois se revelar resplandecente em dourados e espelhos que refletem os lustres em seu interior como se fossem constelações infinitas.

O ambiente intimida a princípio. Eu, particularmente, me senti fora do cobntexto. Como se a Confeitaria fosse um lugar para olhar, não para sentar, comer, beber, pingar água ou café. Mas ao mesmo tempo, senti uma vontade enorme de levar todo mundo para ver este retrato da Belle Époque carioca, porque o que é belo deve ser apreciado e só assim faz jus ao seu real sentido.

 

Entre as maravilhas que se pode observar no interior da Confeitaria vale citar os famosos e enormes espelhos de cristal, (trazidos de navio da Bélgica) em molduras de jacarandá, que pesam 1.500 kg cada. Eles são os responsáveis pela propagação de luzes e imagens que trazem ao ambiente um fulgor dourado especial, uma atmosfera quase irreal. Difícil não perder incontáveis minutos admirando as Cristaleiras que expõem os apetitosos doces e também a porcelana do início do século e as taças de cristal bordadas a ouro. O piso, os móveis, as bancadas de mármore italiano e a clarabóia, composta por belíssimos vitrais e que pode ser vista por uma abertura no primeiro pavimento. No segundo pavimento está o restaurante Cristóvão. Essa clarabóia importada da França tem 8m de cumprimento e 4,5m de largura e passou há pouco tempo por um processo de limpeza em que foi necessário seu desmonte em 135 módulos.

O que me fascinou na Confeitaria foi a atmosfera. Aquele clima épico, atemporal que alguns patrimônios nossos perpetuam pelos anos afora. É um daqueles lugares em que não se fala alto, onde a postura é outra e os olhares vagueiam sedentos em busca de novos detalhes a todo momento. Você pode comer ou beber, mas seu olhar vai passear pelos tempos memoráveis em que clientes ilustres como Chiquinha Gonzaga e Rui Barboza passaram por ali. Inacreditavelmente, a profusão de espelhos e luzes cria um ambiente acolhedor, íntimo e agradável ao mesmo tempo que traz também charme e requinte para qualquer evento. Devo confessar que em muitos momentos me senti tonta, atordoada com a quantidade de informações instigantes que meus olhos recebiam, mas a experiência foi surpreendente porque não se trata de um museu, não se trata de algo guardado a sete chaves. É um restaurante, é público, é bastante freqüentado e ainda assim tombado, ainda assim patrimônio, ainda assim preservado.

 



Fundada em 1894 pelos portugueses Joaquim Borges de Meireles e Manuel José Lebrão, a Colombo está localizada no Centro histórico da cidade. Ela sofreu reformas entre 1912, quando vieram os espelhos e em 1922 o prédio foi ampliado com um segundo andar que àquela época servia chás e café e a instalação da clarabóia. Diz-se que a Rua Gonçalves Dias era, pelos idos do século XVIII, chamada de Rua dos Latoeiros devido a grande profusão de profissionais do ramo (artesãos que trabalhavam com latão) que existiam por ali. Foi na casa de um desses profissionais, Domingos Fernandes, que o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, se escondeu e foi preso em 10 de Maio de 1789. No terreno dessa casa, que foi demolida, construiu-se a Confeitaria Colombo.

Cada dia que passa acho mais evidente que uma aula de história sempre deveria ser dada em campo. Embora o livro seja um veículo maravilhoso para nos transportar a qualquer parte do tempo ou do mundo, nada se compara a você ouvir a história que se faz representar na voz do outro, daquele que sabe ou mesmo daquele que vivenciou o fato. Ouvir um guia, um professor ou uma pessoa saudosa descrever com paixão um acontecimento passado já é por si só uma experiência mágica, quando se alia isso a possibilidade de estar no lugar em que se deu o fato, então ele toma forma, cria dimensões e quase fica nítido. Fui levada por uma amiga a visitar o prédio da antiga Confeitaria Colombo em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro. Esta foi inaugurada em 1944 na esquina das ruas Nossa Senhora de Copacabana e Barão de Ipanema e funcionou até 2003 quando se mudou para o Forte de Copacabana.

No local hoje funciona uma agência do banco do Brasil que leva o nome Colombo. Nesse local pouco resta do que foram os áureos tempos da Colombo em Copacabana. Enquanto minha amiga discorria suas lembranças de infância eu vislumbrava um espelho bisotado e um ou outro detalhe mínimo esquecido pelo avanço da modernidade. Ela lembrava os domingos em que almoçava em família ouvindo música tocada ao piano e a mim só restava ver o pequeno palco e o instrumento, provavelmente uma homenagem póstuma ao artista. Ainda assim, guarnecida das imagens da Colombo do centro, pude imaginar aqueles dias em que freqüentar a Colombo nos dias de domingo era um programa obrigatório e indiscutível na sociedade carioca.

 

Muitas vezes o local fala por si só, como é o caso da Colombo. Basta transpor a calçada que se é imediatamente transportado para uma época em que as pessoas acreditavam merecer a beleza e a arte em sua vida cotidiana. A Colombo é um desses lugares que surpreendem por resistir ao tempo e preservar sua essência quase que intocada para deleite de quantos estejam dispostos a visitá-la.


 

Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco