São Paulo, 01 de setembro de 2007

 


Insanidade Exata - Bispo do Rosário


Fátima Silva

 

Os doentes mentais são como beija-flores.
Nunca pousam.
Estão sempre a dois metros do chão.”

Arthur Bispo do Rosário

 

“De bêbado e louco, todo mundo tem um pouco”, diz o ditado. Mas quanto “ser louco” é considerado a quota normal para um ser humano? Até onde é louco aquele que ouve vozes, que vê personagens irreais, que grita e fala sozinho, que anda a esmo pelo mundo afora desapegado das coisas materiais ou que tem atitudes incomuns ante os “nobres normais”?

Não será a verdadeira loucura aquela que nos traz vergonha quando temos atitudes impensadas? Não será louco o arrogante, o “dono-da-verdade-absoluta" que quer sobrepor suas necessidades às de seus semelhantes? Ou aquele que, descaradamente, afronta toda uma sociedade para atingir seus objetivos pessoais? Não será passível de eletrochoque a passividade dos povos às mazelas ambientais, sociais e políticas que afligem todo o mundo?

A questão fica ainda mais evidente quando lembramos nossos loucos geniais. Aqueles que sublimaram a loucura e deixaram ao mundo um legado de insanidades exatas. Verdadeiros gênios; artistas originais; sábios na simplicidade de suas expressões e manifestações diversas, esses homens passaram pela história alternando entre a genialidade e a loucura enquanto produziam música, arte, conhecimento e verdade. Pelo mundo afora, existem exemplos destes homens e mulheres que mudaram a história, apesar de toda a loucura que se atribuiu a eles.

Quem não se lembra de Gentileza? Que se vestia de branco e pintava painéis embaixo de um viaduto no centro do Rio de Janeiro? Escrevia lições de simplicidade, gentileza e agradecimento. Eu vi Gentileza algumas vezes, quando ia de ônibus para o trabalho, por volta de 1987. Ele oferecia flores aos motoristas de ônibus e aos passageiros, falava com os pedestres. Sua túnica branca, sua barba e cabelos longos, seu olhar gentil. Ele “pregava” com energia e olhar alucinado, isso assustava, mas quando se aproximava de alguém, sorria e recebia de volta sorrisos. Se eram de entendimento ou constrangimento, na verdade, não importa. Afinal, o que você oferece é uma semente que, cedo ou tarde, vai brotar. E ele oferecia o seu melhor!

E quem já viu as obras de Arthur Bispo do Rosário ou ouviu sua história de vida? De pessoa normal a interno da Colônia Juliano Moreira, vê-se a trajetória de um artista que preparava uma exposição para Deus. Afirmação esta, que o levou a ser interno na Colônia Juliano Moreira, por cinco décadas. Instruído em suas visões, ele “reconstruiu o universo” com sucata e fiapos de tecidos vários, criando peças que, para os entendidos, representam a arte contemporânea. O que causa espanto? Talvez o fato de ter passado a maior parte de sua via recluso, sem contato com o mundo exterior, numa realidade que, àquela época, resumia em enfermos mentais a porção discriminada da sociedade. Negros, mendigos e indigentes condenados a viver sob condições vis, tratamentos cruéis e de eficácia questionável e até torturas.

Em sua representação do mundo, para prestar contas a Deus, este homem criou mais que arte, ele encantou os “homens normais” deste e de outros países, com bordados, esculturas e colagens singulares. Provavelmente, ele usou o bordado tradicional de Japaratuba (Sergipe) sua terra natal, onde os homens confeccionam os arranjos das festas religiosas. Criou mantos e fichários com nomes de pessoas que conheceu. Esses artefatos, contam a história do homem que foi funcionário da Light, que serviu a Marinha Brasileira por mais de sete anos, que foi lutador de boxe e (depois de muito tempo na solitária) ganhou o respeito dos funcionários e colegas do manicômio virando o “xerife” do lugar.


Bispo do Rosário com o Manto da Apresentação

Sua história é dividida em duas partes; a normalidade e a loucura. E um resultado único; de beleza e delicadeza incontestáveis. Mas, como dizia o próprio Bispo do Rosário; “Não faço isto para os homens, mas para Deus.” Ele não queria expor sua arte, queria levá-la consigo, quando morresse. Não era para nossos olhos, para nossas galerias, para nossas exposições.

Na degradação de sua saúde mental ele exacerbou um talento que, ainda hoje, após mais de 15 anos de sua morte, fascina e intriga. Em suas obras, ele registrou o mundo que via para prestar contas a Deus. Se isso se traduz em beleza e singularidade, o inventário foi feliz, apesar de todo o tormento mental em que devia viver. Quem já pôde visitar as obras expostas do Museu do Inconsciente, certamente se surpreendeu com a qualidade dos trabalhos dos internos; os ditos “loucos”. Talvez o sofrimento e os martírios íntimos destas pessoas reclusas do mundo dito normal, despertem uma necessidade maior de fazer arte, para expressar aquilo que não entendemos em suas palavras, manifestações e alucinações cotidianas. O que me intriga é a expressão sublime ao traduzir a melancolia, a depressão, a tristeza e a solidão. Se sentimentos assim podem produzir tamanha originalidade o que poderia ser a representação de emoções contrárias e mais felizes?

Diante de tantas insanidades cometidas na atualidade dos tempos, em pleno segundo milênio, quando temos tecnologia de ponta e conhecimentos antes inimagináveis, creio que as definições de loucura deveriam ser repensadas e redefinidas, pois os “verdadeiros loucos” se encontram à solta.


 

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