São Paulo, 15 de janeiro de 2007

As vilas da Vila


Fátima Silva

 


Eu moro em Vila Isabel. Não nasci aqui, mas morei em um bairro vizinho e era comum estar em Vila Isabel. Havia diversas atividades que realizávamos em Vila Isabel, fato esse que o tornava nosso bairro também. A minha amiga de infância morava em Vila Isabel, bem em frente ao “antigo zôo” onde muitas vezes minha mãe me levou, junto com minhas irmãs e primos, para brincar. O posto de saúde fica em Vila Isabel e fazer compras na Boulevard 28 de Setembro era corriqueiro. No carnaval era para lá que íamos para ver os desfiles e os blocos. Então eu casei e alugamos uma casa na Vila.

Vila Isabel fica vizinha a Tijuca, Grajaú, Andaraí, Lins de Vasconcelos. De ônibus, sem trânsito, está a 25 minutos do centro da cidade.

Atualmente estou procurando uma casa de-fi-ni-ti-va e, ontem, marquei com o corretor em frente a quadra da Unidos de Vila Isabel. Até aquele momento não havia pensado em como poderia dormir numa madrugada de samba, se acaso morasse por ali...

O corretor disse que estaria de camisa verde e demorei quinze minutos e muitos homens de verde depois, para compreender que o verde era só uma das cores de seu blusão e enfim, destacá-lo da multidão de passantes. A casa ficava do outro lado da calçada, então atravessamos duas pistas da Boulevard 28 de Setembro. É assim mesmo: Boulevard como está escrito nas placas. A principal avenida de Vila Isabel tem oito quarteirões com calçadas largas, onde podemos ver notas de músicas da MPB desenhadas em pedras portuguesas brancas e pretas num gracioso mosaico. Autores como Noel Rosa, Almirante, Chiquinha Gonzaga, Ary Barroso, Lamartine Babo, entre outros, eternizados nas calçadas de Vila Isabel.

estátua de Noel

 

A casa ficava dentro de uma vila escondida. Uma característica marcante de Vila Isabel são as inúmeras vilas espalhadas por suas ruas. São muitas mesmo. Algumas bem grandes, arborizadas. Outras menores, escondidas entre os prédios e o comércio, com portões tão pequenos que parece que entramos em um outro mundo quando passamos por eles. Outras ainda que sobem por enormes escadarias ou descem para um terreno mais baixo que o nível da rua.

E eu moro em uma vila. Um portão verde pequeno, um corredor estreito, totalmente nu e, de repente, surgem casinhas agradáveis dos dois lados, jardins, passarinhos e um silêncio adorável, só quebrado pelos latidos dos cachorros e o miado dos gatos.

O portão da Vila que íamos visitar não era pequeno, mas ficava quase oculto pelas lojas comerciais ao seu redor. Havia um corredor escuro àquela hora da tarde, mas depois dele a vila se abria mais larga, clara e com graciosos canteiros centrais. As casas, cada uma de uma cor, todas muito graciosas e pequenas, com suas particularidades adoráveis. Um gato branco preguiçoso numa janela. Um senhor de cabelos brancos sentado numa cadeira de balanço em outra varanda. Um tapete verde pendurado em um parapeito de janela. E o silêncio. Olhei para o alto e havia somente os prédios vizinhos, um muito moderno, o outro mais antigo, mais baixo, mas ambos sobressaindo naquele pequeno vale de casas!

Fiquei imaginando quantas vezes, andando por Vila Isabel, já não me deparara com cenários bucólicos como aquele. Se não olhasse para o alto, teria certeza de estar numa cidade do interior. Esse é um prazer que só vi por aqui; sair de uma rua agitada onde passam, incessantemente, ônibus, carros e transeuntes e entrar em um oásis de tranqüilidade e sossego. Tive a sensação de ter sido abduzida para uma outra dimensão, mas ainda não é esse o meu novo lar.

Voltei à avenida. O nome do bairro não é Vila Isabel por causa das vilas que aqui abundam, mas sim para homenagear a princesa Isabel. A espaçosa Boulevard 28 de Setembro tem todo um charme, apesar do burburinho constante. Ela é um centro comercial do bairro e não poderia ser diferente com o Hospital Universitário Pedro Ernesto e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ali tão próximos.

Durante o dia, apinhada das gentes de Vila Isabel e adjacências ela é uma mistura de sons e tons. Ambulantes, estudantes, médicos, enfermeiros, donas de casa, idosos. Este ir-e-vir não cessa, por entre lojas, galerias, bares, salões de beleza e escolas.

A avenida começa na São Francisco Xavier, junto à nova estátua do Noel, e vem se estendendo majestosa em seus contrastes inúmeros. Sobrados, casas abandonadas, prédios modernos, prédios antigos. Botequins, bares, pizzarias, lanchonetes, restaurantes, fast food. Mercardinhos, supermercado. Igrejas e templos de todos os credos. Camelôs e butiques.

Ela vai descendo, apinhada de pessoas de todas as classes, profissões e pensamentos. Todos concentrados nas atividades de todos os dias. E então termina na praça Barão de Drummond, uma praça larga onde temos o Convento da Conceição da Ajuda, um prédio imponente que ocupa quase um quarteirão, onde moram freiras na clausura, que fizeram votos de silêncio. Esse convento foi transferido em 1911 do centro da cidade, quando da expansão da Avenida Rio Branco, para o casarão da fazenda que hoje fica em frente à praça. Da Fazenda do Macaco, restou o nome que ficou para o morro, hoje símbolo maior da violência no bairro.

Barão de Drummond, grande simpatizante da causa abolicionista, foi o fundador do bairro, que se originou nas terras da fazenda que ele comprou. Não sabem os senhores, mas ele fez também o primeiro Jardim Zoológico da cidade, que quando perdeu subsídios do governo começou a ficar em dificuldades. Drummond então criou o jogo do bicho que estimulava as visitas ao zôo e ainda garantia uma renda para as despesas do mesmo. Era ali, na Visconde de Santa Isabel, antigo Parque dos Trovadores, hoje Parque Viveiros de Vila Isabel ou o “antigo Jardim Zoológico” — como costumamos chamar —, onde brinquei muito quando menina. Uma grande área verde, com lagos, árvores e jardins que poderia ser um ícone do bairro não fosse a proximidade com a favela e a pecha de estar em um dos lugares mais violentos do bairro.

As ruas da Vila são muitas, mas todas têm um segredo escondido em alguma singularidade, onde podemos sentir-nos transportados como se não estivéssemos exatamente ali, mas em algum lugar encantado longe do barulho dos carros e das agitação. Pode ser uma escadaria, uma igrejinha no alto do morro, uma vila escondida por trás do mais ínfimo portão. Pode até ser o samba de madrugada na quadra da escola de samba ou as pessoas sentadas em mesas de bar sobre as calçadas quando cai a noite, pode ser. A Vila é nuance, contraste, movimento e isso é que permite a cada um encontrar o seu recanto particular, mesmo que seja só para passar, olhar e ir embora.



 

Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco