São Paulo, 19 de junho de 2007

 

 

As riquezas de Santa Tereza

 


Fátima Silva

 

Santa Teresa é um dos bairros mais fascinantes do Rio de Janeiro. Ele cresceu ao redor do convento do mesmo nome, construído no século XVIII, no antigo Morro do Desterro, hoje Morro de Santa Teresa. Além de possuir riquezas arquitetônicas e culturais que são mais que manifestações históricas, o bairro parece reter em sua atmosfera a aura de tempos antigos da história da cidade. Essa propriedade de sobrevier ao tempo e apesar dele é uma sensação vívida que está além dos cinco sentidos.

Lá, e somente lá, ainda circulam os bondes elétricos, remanescentes do século XVIII. Charmosos, apesar de antigos; românticos, apesar de barulhentos eles são o meio de transporte mais usado, seja pelos moradores, seja pelos turistas. Quando chega próximo a alguma estação o motorneiro bate o sino para avisar. Este homem dirige o bonde, recolhe as passagens e muitas vezes se transforma num guia turístico, tudo isso com muito bom humor. As estações têm plataformas elevadas, pois o estribo, uma espécie de “degrau” do bonde, fica bem alto em relação ao chão. Este é o transporte mais barato do bairro e seus horários são regulares (sai de 15 em 15 minutos). Apesar disso, muitas pessoas viajam perigosamente penduradas nos estribos, para não pagar passagem.

Seja por sua história, seja por pura curiosidade ou pelo romantismo que empresta ao bairro, o bondinho é a vedete da cidade e deixá-lo perder-se seria uma insensibilidade imperdoável. Tombado pelo patrimônio histórico, o bondinho de Santa Teresa tem museu com bondes e miniaturas de seus primeiros modelos, expostos a visitação. Ele parte de sua primeira estação: Carioca, passa sobre os Arcos da Lapa, como se transportasse quem nele vai, por uma ponte mágica. Sempre que eu passava por ali, sentia como se entrasse em um outro país, em uma outra fronteira. Um lugar bucólico, aconchegante, singular. Até o ar que eu respirava parecia diferente.

Morei em Santa Teresa, de 1986 a 1989. A primeira vez que subi até lá foi através de um anúncio de vagas para moças. Era em um antigo convento e subi a ladeira de Santa Teresa a pé. Essa primeira visita poderia não deixar boa impressão. A subida íngreme, o convento sombrio... Porém, quando cheguei à Estação do Curvelo, para voltar ao Centro da cidade, o bairro ganhou novas cores. A estação do Curvelo é como uma estação antiga, com plataforma, telhado e até uma pequena lanchonete. Perto dela, em uma espécie de praça, me deparei com uma esplendida visão do mar azul lá embaixo. Essa particularidade do bairro sempre foi o que mais me encantou ao longo do tempo em que morei ali. Havia vários caminhos para entrar ou sair de Santa Teresa. Escadas e ladeiras que conduziam aos bairros vizinhos. Invariavelmente, e se não chovia, eu descia a pé e escolhia sair na Lapa, ao lado da sala Cecília Meireles, ou no Flamengo, ou ainda no Passeio. Como suas construções ficam encravadas nas encostas, algumas construções ficam assustadoramente abaixo do nível da rua. Por isso, em alguns pontos, quando o bonde faz suas curvas abruptas, paisagens maravilhosas da cidade lá embaixo, se revelam aos passageiros encantados.

As pessoas que encontrei por ali vinham de vários países e muitos pareciam personagens irreais. Havia uma senhora que estava sempre na estação do Curvelo e me parecia uma velha bruxa. Ela se vestia com muitas cores, mas seu aspecto era sujo. Seu rosto era um misto de loucura e doçura; cabelos desgrenhados e brancos e as bochechas rosadas como as de uma vovó. Nunca consegui entender o que ela dizia, então me limitava a sorrir. Mas meu personagem favorito, era um alto e esguio “índio americano”, com sua longa trança, lisa e negra, sua roupa branca cheia de franjas e muitos badulaques indígenas. Ele ostentava uma elegância que parecia desafiar a realidade. Ficava fascinada com aquela figura que parecia fora do contexto, mas demorei pouco tempo para perceber que só eu não pertencia ao lugar. Eu estava ali para observar, aprender, me encantar apenas.

Outra característica marcante de Santa Tereza é a grande quantidade de artistas que moram lá. Como se o lugar tivesse um ímã para atrair pessoas sensíveis para apreciar e usufruir de seus recantos. Rapazes com violões, moças de cabelos ruivos e violinos. Poetas recitando o amor em plena rua, pintores espalhados pelas diversas esquinas de onde se descortinam quadros vivos da cidade lá embaixo. Jovens e velhos, negros e brancos, brasileiros e estrangeiros. Havia também os bêbados, as mundanas, os meninos de rua, como não? Mas isso não interferia na totalidade de riquezas que ali encontrei. E em nenhum outro bairro que conheci senti essa homogeneidade. Apesar das diferenças raciais, culturais e de nacionalidade. Lá, isso é comum e torna o bairro diferente de todos os outros. Como se cada uma daquelas pessoas levasse um pouco de si para acrescentar ao ambiente que, por si só, já é adorável! Como se essa variedade, essa nuance de aspectos e contribuições diversas, fosse capaz de criar uma realidade nova, melhor e sem dúvida, muito atraente. Santa Teresa sempre me pareceu um país dentro da minha cidade.

Tenho uma grata recordação do bairro, que são os belos quadros do Rio de Janeiro que pude observar das altas janelas do convento onde morei e também de um hospital onde trabalhei. Lá a maioria das casas e prédios é imponente, com uma arquitetura belíssima e antiga. Tem até castelos. Geralmente, possuem enormes e generosas janelas que circundam as construções oferecendo um álbum belíssimo de fotografias da cidade. De cada janela se vê uma coisa nova, de cada lado um aspecto diferente, mas sempre algo maravilhoso, um presente divino aos olhos e ao coração! Se não fossem as ruas sinuosas e íngremes serpenteadas pelos trilhos do bonde, era o mar e o céu azul lá embaixo, emoldurados pela vegetação.

Incomparável, belo, despretensioso, único; Santa Teresa, “Santa” para seus íntimos, é assim. Uma parte mágica desta cidade generosa que é o Rio de Janeiro.


Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco