São Paulo, 16 de maio de 2009
Araribóia e as terras da Banda D' Além
Município do estado do Rio de Janeiro, Niterói é uma cidade cercada de praias e paisagens de tirar o fôlego. De nenhum outro lugar se pode fotografar um conjunto tal de cartões postais de uma só vez. Do alto do Parque da Cidade, pode-se ver, entre outros, o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor e o Morro Dois Irmãos. A vista privilegiada da Baía de Guanabara e da cidade do Rio de Janeiro é uma constante quando se passeia pelo litoral. No entanto, Niterói não é apenas um mirante de belezas alheias, é também uma cidade onde a natureza exuberante e o mar fazem o contraste perfeito com a urbanidade pacata do município.
Existem dois caminhos que levam da cidade do Rio de Janeiro a Niterói, nome tupi que significa “Água Escondida”. Através da barca que sai regularmente da estação da Praça XV, numa viagem que dura mais ou menos meia hora e faz-nos sentir a brisa marinha enquanto se aprecia a viagem, ou pela Ponte Presidente Costa e Silva, que está entre as sete maiores do mundo, com extensão total de 13,29 km. Ela possui 72m de altura em seu ponto mais alto, e tem uma previsão de trânsito diário de mais de 15 mil veículos. Seja qual for o caminho escolhido, Niterói é uma grata surpresa.
Região oceânica de Niterói
Niterói, mesmo nos dias mais quentes, exibe um sol tímido que traz luz suficiente apenas para realçar as belezas da cidade. E são muitas! Da ponte já se pode observar o Museu de Arte Contemporânea, destacando-se como uma nave suspensa. Essa obra de Oscar Nyemeier ostenta vistas espetaculares da cidade do Rio de Janeiro e o entorno da Baía motivo que, segundo o próprio arquiteto, inspirou-o a elevar o prédio, pretendendo assim que ele não interferisse na paisagem. O MAC está localizado no Mirante de Boa Viagem e quem vai visitar o museu, frequentemente fica entretido admirando a vista.
E é aqui que existe um quê de interior, um ventinho fresco constante, uma calmaria que contagia e faz bem ao espírito. Em toda a cidade edifícios modernos e luxuosos, que não chegam a interferir com a natureza única da cidade, fazem o contraponto com casas e construções seculares. Seguindo para a região oceânica o espetáculo fica por conta das praias de águas límpidas e geladas, muitas vezes cercadas de morros e áreas verdes como Itacoatiara, Icaraí, Camboinhas.
O mercado de Peixes São Pedro oferece uma variedade ímpar de espécies para compra ou degustação e fica lotado nos fins de semana. A Fortaleza de Santa Cruz, impregnada de histórias, desponta muito branca contra o azul do céu e do mar. A Praça da República, com seus prédios de arquitetura eclética do início do século XX, oferece aos olhares mais atentos parte da história tombada pelo patrimônio, trazendo um generoso sopro dos tempos idos.
Nos tempos do descobrimento Niterói era, assim como toda a baía de Guanabara, ocupada por índios de várias tribos que hostilizavam os portugueses. O francês Nicolau Durant de Villegagnon, querendo tornar mais fácil o comércio com as Índias, conseguiu o aval dos reis franceses e o apoio dos índios tamoios que contavam com mais de 70.000 nativos, para ocupar o território. Apesar das diversas dificuldades no sentido de colonizar a baía, encontradas pelo francês, a ocupação francesa se estendeu de 1555 a 1567.
Em 1560 Mem de Sá foi mandado ao Brasil com o intuito de expulsar os franceses e estabelecer na baía a colônia portuguesa. Fundamental para a vitória foi a colaboração do cacique Araribóia, da tribo dos Temiminós. Expulso de sua terra, a ilha de Paranapuã (hoje Ilha do Governador) Araribóia se refugiou com sua tribo na capitania do Espírito Santo. Depois de algumas tentativas frustradas de expulsão, Mem de Sá aconselhou seu filho Estácio de Sá a seguir o exemplo do inimigo aliando-se aos nativos para a batalha.
Pão de Açúcar visto do Forte de Santa Cruz
Araribóia, nome tupi que significa “Cobra da Tempestade”, um destemido guerreiro fez aliança com Estácio de Sá e abriu a frente de batalha entrando sozinho no território inimigo. Ateou fogo ao paiol de pólvora e provocou uma grande explosão que deu início ao ataque surpresa. Segundo uma antiga lenda, ele atravessou o mar a nado para liderar a tomada do Forte Coligny, em 1560, que se localizava na antiga ilha de Serigipe, hoje Villegagnon sede da Escola Naval.
Segundo historiadores, Araribóia participou de mais de uma batalha para expulsar os franceses e tamoios da Baía, mas a ameaça francesa só foi exterminada em 1567, numa luta especialmente sangrenta, quando o cacique, acompanhado do então governador Salvador Correia e Sá, atacou e dizimou os franceses em Cabo Frio, salvando, na mesma ocasião, o governador de morrer afogado. Pelos serviços prestados à Coroa Portuguesa e pelo seu heroísmo em salvar o governador, o cacique Araribóia foi agraciado pelo rei Dom Sebastião de Portugal, com o título de capitão-mor. Ele recebeu o hábito da Ordem de Cristo e uma tença de doze mil réis anuais, além de um traje completo de uso pessoal do rei o que conferia uma grande e rara prova de apreço do monarca.
Em 22 de Novembro de 1573, Araribóia tomou posse da Sesmaria de Niterói, doada por Mem de Sá, que lhe permitiu escolher as terras para onde queria ir. Escolhendo as terras da “Banda d´além”, como chamavam Niterói à época, para lá transferiu sua tribo e se converteu ao cristianismo adotando o nome de Martim Afonso em homenagem a Martim Afonso de Souza. Alguns dizem que morreu de causas naturais, outros que, morreu afogado, no ano de 1574. A aldeia da tribo dos índios Temiminós foi extinta em 1866 e dela nasceu a cidade de Niterói
Considerado o fundador da cidade de Niterói, Araribóia tem uma estátua na Praça Martin Afonso, próxima a Estação das Barcas. De braços cruzados e postura altiva, tem o olhar voltado para a Baía de Guanabara, como que a vigiar a entrada de novos invasores, protegendo a cidade. Alguns dizem que seu olhar saúda quem vem do Rio de Janeiro visitar a cidade. Seja lá qual for a intenção, é apenas justo ver esse guerreiro índio, num merecido patamar de honra e glória. Acostumados que somos a pensar em grandes homens vestidos de plumas e espada fazendo a história, imprescindível eternizar a lembrança marcante de um simples guerreiro índio, que fez a diferença numa guerra que não era dele. Uma guerra por um pedaço de terra que já lhe pertencia por direito.
“Minhas pernas estão cansadas de tanto lutar pelo seu rei, por isso eu as cruzo ao sentar-me, se assim o incomodo, não mais virei aqui.” Resposta de Araribóia ao Governador Geral da Repartição Sul do Brasil; Antônio de Salema, ao ser repreendido na cerimônia oficial de posse do mesmo em 1574.