São Paulo, 4 de março de 2007

 

 

A fábrica de tecidos


Fátima Silva

 


Quando o apito da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos, eu me lembro de você
Mas você anda, sem dúvida bem zangada
Pois está interessada, em fingir que não me vê
Você que atende ao apito, de uma chaminé de barro
Porque não atende ao grito tão aflito
da buzina do meu carro
Você no inverno, sem meias vai pro trabalho
Não faz fé no agasalho
Nem no frio você crê
Mas você é mesmo artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você
Nos meus olhos você lê
Como eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente impertinente
que dá ordens à você
Sou do sereno poeta muito soturno
Vou virar guarda-noturno
E você sabe porquê
Você só não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto do piano esses versos pra você
Esses versos pra você.

 

Fico pensando como era a vida na Vila Operária da Fábrica de Tecidos Confiança nos áureos tempos da década de 30, quando houve a reabertura da fábrica. Como devia ser gostosa a vida naquele tempo, a inocência das pessoas de então, o romantismo inerente à aquela época.

Apesar de querer acreditar que a vida mais simples e romântica emprestava ao conjunto uma atmosfera de filme antigo, sei das dificuldades que aquelas pessoas enfrentaram e deixaram de herança a seus descendentes. Estes enfrentam problemas até hoje para preservar seu patrimônio e a memória da Vila Operária do esquecimento e da negligência. Naquele tempo tinham que dividir suas casas com outra família, o que gerava conflitos e mudanças constantes. Hoje muitos ainda nem tem a posse legal de suas casas. Outros ainda as perderam para pessoas que não têm qualquer apego ou sentimento de resguardar nem mesmo o imóvel, quanto mais a história que ele representa.

Andando ali, pelas ruas da Vila Operária Confiança, imagino os funcionários da fábrica e seus familiares começando o dia num burburinho gostoso que cheirava a café. As crianças correndo pelas calçadas em direção à escola. Algumas mulheres nas janelas dando adeus a seus maridos e outras delas, indo para a fábrica. O dia de sol refletido no olhar de cada pessoa e o esplendor da própria fábrica, altiva, magnífica. Penso que deviam carregar consigo o orgulho de fazer parte do progresso, do crescimento que a fábrica vivia naquele momento.

Hoje em dia, quando as pessoas passam por ali é para ir ao Supermercado que ficou no lugar da Fábrica. O prédio não perdeu sua grandeza, a arquitetura está preservada, apesar das adaptações, como uma cobertura logo na entrada.

É belo, cheio de janelas grandes, dispostas ao longo dos dois andares. Visto de frente tem duas torres encimadas por telhados, dispostas uma na ponta e outra próxima a entrada. Ao fundo, próxima à Chaminé, uma terceira, diferente das outras, maior um pouco, sem telhado, mais desenhada. O conjunto me lembra um brinquedo que eu tinha, em que montávamos casinhas e castelos com blocos de madeira pintados com janelas e telhados vermelhos. Com sua segunda chaminé (a primeira rachou e foi demolida) ele se destaca imponente diante do estacionamento quase sempre lotado. Quando passamos pela entrada, existe uma separação de dois prédios distintos, onde está a cobertura translúcida unindo-os. Só neste momento temos a perfeita dimensão daquela construção que ocupa uma quadra inteira.

Mas quando eu passo por lá à noite me encanto mesmo é com as casinhas da rua Artidoro da Costa. Pequenas casas de dois andares, lado a lado, todas amarelas. Imagino estas casinhas naqueles tempos de então. Foi ali, muitos anos antes, que se construiu o primeiro açude para abastecer as caldeiras da fábrica.

Ao longo do dia imagino o som estridente dos três apitos, o primeiro anunciando a entrada, o segundo anunciando o almoço e o terceiro anunciando a saída de tantos e tantos operários de volta para suas casas. Como canta a música, imagino o aperto no peito de Noel a esperar pela aparição de sua amada. Ao terceiro apito, mais uma vez o vai- -vem de pessoas, mais uma vez a criançada soltando pipa, jogando bola, recebendo seus pais e mães de braços abertos.

Eis então que vinha a noite caindo e as luzes se acendendo. Assim como quero crer que foi. As cadeiras sendo colocadas nas calçadas da Rua Maxwell, da Artidoro da Costa, onde ainda hoje existem casas da Vila Operária Confiança. Violões e cavaquinhos sendo afinados. Mulheres felizes pondo a mesa para suas famílias. As ruas da Vila Operária se enchendo de música, de vida, de risadas, da melodia das serenatas, enquanto a fábrica apagava suas luzes, fechava seus portões, dormia. Vozes unidas, afinadas ou não, misturadas para receber as estrelas da noite.

Vejo, mais que imagino, as brasas dos cigarros dos homens brilhando na noite perfeita, fresca, serena. Toda essa atmosfera envolvida numa luz amarela, baça e mágica. Os moços recitando em voz alta poesias para tímidas e risonhas mocinhas por trás das janelas.Vejo tudo desse jeito romântico que já não faz mais parte do nosso contexto.

Não existe mais a pacífica e inocente seresta do passado. As ruas estão desertas, os que por ali passam, correm atrás de minutos cruciais no seu já tão atribulado dia. Não olham para os lados, e se olham é por cautela, não vêem a luz amarela, não vêem a chaminé imponente, não vêem os morros ao fundo, não vêem a antiga fábrica de tecidos, pois hoje é só um supermercado. Não sentem a vibração eterna dos três apitos... Não vêem a si mesmos.
Ainda hoje, vejo pessoas nas janelas, nas calçadas, crianças correndo, mas não existe mais por ali a música dos violões, a poesia dos moços e a cultura daquela gente simples que fez a história da Vila Operária.

Muitas pessoas passam por ali todos os dias, mas poucas vêem a antiga Fábrica e sentem que ali se viveu a música, a poesia, a cultura, o romantismo e parte da história de Vila Isabel.

(fotos de Fátima Silva, com exceção da foto de Noel )

 

 

Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco