Rio de Janeiros, 05 de abril de 2011


Palácios Cariocas – Biblioteca Nacional do Brasil

 

Fátima Silva


Tenho falado de vários prédios da cidade do Rio de Janeiro que além de imponência, beleza e arte em sua forma mais sublime, também carregam o importante papel de difundir a história e perpetuá-la através dos tempos. Um patrimônio vivo é um livro que nos leva em suas páginas, como numa viagem silenciosa de balão.

O patrimônio de que vou falar hoje é mais que um livro mágico, é uma biblioteca inteira de viagens insólitas e prazerosas pela história de todos os tempos e lugares do mundo. A Biblioteca Nacional está localizada na Avenida Rio Branco no centro da cidade Rio de janeiro. O edifício tem projeto do engenheiro Sousa Aguiar e estilo eclético, com características neoclássicas e art nouveau. Possui elementos decorativos de artistas como Eliseu Visconti, Henrique e Rodolfo Bernardelli, Modesto Brocos e Rodolfo Amoedo. Imponente, grandioso e sóbrio, o prédio faz um belíssimo quadro com o Teatro Municipal e o Museu Nacional de Belas Artes, na Cinelândia. A Biblioteca Nacional do Brasil, considerada pela UNESCO como a sétima maior do mundo, é também a maior biblioteca da América Latina.

A história da Biblioteca é anterior à data de sua fundação. Em 1º de novembro de 1755, Lisboa sofreu um terremoto que marcou história por sua dimensão e pelos estragos que causou. Maremoto e incêndios destruíram a cidade e, entre outros, o edifício da Real Biblioteca, também conhecida como Real Livraria, uma das mais importantes bibliotecas da Europa, na época.

O rei Dom José I de Portugal e o ministro Marquês de Pombal reuniram e organizaram o que sobrara da Real Livraria e a transferiram para o Palácio da Ajuda. Em 1808, com a transferência da família real e da corte portuguesa para o Brasil, para fugir a invasão de Napoleão Bonaparte em Portugal, o acervo foi trazido para o Rio de Janeiro.

Sessenta mil peças, entre livros, manuscritos, mapas, estampas, moedas e medalhas, transferidas para cá em três etapas, uma em 1810 e duas em 1811, e armazenadas numa das salas do Hospital do Convento da Ordem Terceira do Carmo, na antiga Rua Direita (hoje Rua Primeiro de Março).

Em 29 de outubro de 1810, através de um decreto, o Príncipe Regente ordena que no local das catacumbas que serviam aos religiosos do Carmo, seja erguida a Real Biblioteca. A data de 29 de outubro de 1810 é considerada oficialmente como a da fundação da Real Biblioteca que, no entanto, só foi aberta ao público em 1814. A partir de então a Biblioteca continuou a aumentar seu acervo, através de compras, de doações e, principalmente, através da entrega obrigatória (as chamadas “propinas”) de um exemplar de todo material impresso nas tipografias de Portugal e na Imprensa Régia, instalada no Rio de Janeiro. Essa prática das “propinas” sofreu modificações ao longo do tempo e deu origem ao Decreto de Depósito Legal, que ainda hoje está em vigor.

Em 1821, com o retorno de D. João Vl e sua família a Portugal, por questões políticas, aqui permaneceram D Pedro I e a Real Biblioteca, já consideravelmente maior. Em 1822, após a Independência, a Biblioteca passou a ser propriedade do Império do Brasil. A Convenção Adicional ao Tratado de Amizade e Aliança firmado entre Brasil e Portugal, em 29 de agosto de 1825 oficializa a sua propriedade através de indenização (de dois milhões de libras esterlinas) paga a Família Real pelos bens deixados no Brasil. A Biblioteca, então, passa ser chamada Biblioteca Imperial e Pública da Corte.

Em 1858, a Biblioteca foi transferida para a Rua do Passeio, número 60, no Largo da Lapa, atualmente esse prédio abriga a Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1876 a biblioteca passou a chamar-se Biblioteca Nacional.

Com as constantes contribuições e a compra de coleções de obras raras em leilões e em livreiros de todo o mundo a inevitável ampliação do acervo culminou na necessidade de transferir a Biblioteca para um prédio condigno. O atual prédio, que teve sua pedra fundamental lançada em 15 de agosto de 1905, durante o governo de Rodrigues Alves foi inaugurado em 29 de outubro de 1910, durante o governo Nilo Peçanha.
Através do tempo a Biblioteca Nacional diversificou e aperfeiçoou suas atividades passando por inúmeras reformas. Amparada pelos recursos tecnológicos mais modernos ela hoje conserva, restaura e protege suas obras, disponibilizando-as de forma moderna e segura. A Biblioteca atende a usuários em sua sede e virtualmente, divulgando as obras nacionais a outros países e disponibilizando as coleções para pesquisas e estudos. Ela possui laboratórios de restauração e conservação de papel, oficina de encadernação e centro de microfilmagem, fotografia e digitalização. Em 2006 foi criada a Biblioteca Nacional Digital o que a coloca em pé de igualdade com as maiores bibliotecas do mundo no processo de digitalização de acervos com acesso às obras pela internet. Apesar da tecnologia usada em seu favor a Biblioteca Nacional do Brasil apresenta o aspecto sóbrio característico de uma biblioteca, com estantes de livros e espaço de estudos. Ainda que grandiosa em sua arquitetura e detalhes artísticos, o maior valor que ela agrega está nos inúmeros exemplares e coleções de seu patrimônio cultural. São mais de 200 anos (se contarmos apenas sua permanência no Brasil) de história em acervo de papel.

Nesse palácio em particular a história vai além da suntuosidade de sua arquitetura ou da riqueza de detalhes que configuram um prédio de sua magnitude. A Biblioteca Nacional do Brasil é a caixa-forte do tesouro, do patrimônio, da história. Uma belíssima caixa para um inestimável tesouro.




 

 

 

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