Rio de Janeiro, 01 de fevereiro de 2012


Valongo, a força de um monumento

 

Fátima Silva


 

Tenho andado por lugares do Rio de Janeiro em que me sinto transportada no tempo, como se pudesse quase viver as histórias que eles carregam. Lugares como a Rua do Lavradio ou como a Quinta da Boa Vista em que tive a nítida impressão das damas de sombrinha e dos senhores de chapéu e bengala; o Largo do Boticário; a Vila Operária da Fábrica de Tecidos Confiança, onde quase pude ouvir as serenatas, cantadas embaixo das janelas ou como Santa Teresa e a Lapa, onde persiste a aura inalterável da boêmia carioca.

Em alguns desses locais, é somente um lampejo, um detalhe. Em outros, porém, surpreende-me a sensação nítida de épocas remotas, tal é a emoção e deslumbramento que me inspiram. Quando o bondinho de Santa Teresa atravessa os trilhos sobre os Arcos da Lapa, parece querer sobrepor seus ruídos característicos à modernidade que insiste em se infiltrar nos arredores. É como se a essência do que ali foi vivido de alguma forma não se tivesse perdido no tempo e perambulasse pelas ruas como uma dama altiva, sabedora de sua importância e determinada a não se deixar extinguir. A quem tem o olhar atento, ela não passa despercebida.

Valongo era o nome de uma antiga enseada da cidade do Rio de Janeiro, nome que acabou sendo assimilado também pelo seu entorno. A urbanização através do tempos acabou por aterrar a enseada e em meados do século XIX o nome Valongo acabou por desaparecer, persistindo hoje em dia apenas no Jardim Suspenso do Valongo e no Observatório do Valongo. Atualmente a região compreende o bairro da Saúde. Sobre a origem do nome, provavelmente é uma junção das palavras vale e longo. A palavra Valongo também nomeia um bairro (e sua ferrovia e igreja) da cidade de Santos, em São Paulo e freguesias diversas em Portugal.

Saúde é mais um bairro que traz em si as cicatrizes profundas e marcantes do passado do Rio de Janeiro. Era em suas imediações, que havia o maior Mercado de Escravos das Américas. Apesar de não ser um dado que traga glórias nem orgulho à cidade, não pode ser encarado como fato sem importância. Quase todas as casas que existiam na atual Rua Camerino, antes Rua do Valongo, funcionavam como depósito da mercadoria humana e era para lá que se dirigiam aqueles que pretendiam efetuar compras, permutas e até aluguéis de africanos. De várias etnias e línguas, eles eram, em sua maioria, jovens e crianças. Debilitados pela viagem, doentes pelas precárias condições a que eram submetidos, esses homens, muitas vezes, morriam antes mesmo de desembarcar dos navios sendo enterrados em valas comuns no que passou a ser conhecido como Cemitério dos Pretos Novos, ali mesmo na região. Existem muitos relatos sobre o cemitério do Valongo, descrevendo corpos a flor da terra ou em valas comuns abertas por vários dias. Apesar desses relatos e de escavações onde se encontraram ossadas, ainda há controvérsias sobre a localização exata do cemitério.

O Morro da Conceição, que faz parte do bairro, foi um dos marcos iniciais da cidade, juntamente com os morros do Castelo, de Santo Antônio e São Bento. Reduto do samba (uma herança da época em que os estivadores se reuniam após o trabalho), o Morro ainda preserva resquícios da boêmia carioca e tenta resgatar o interesse do público para a comunidade como referência histórica da cidade, através de seus inúmeros ateliês de arte espalhados entre o casario e projetos culturais que promovem a visitação. Diferente de outras comunidades situadas em morros pela cidade, o Morro da Conceição não tem tráfico ou violência, mais provavelmente pela presença do exército na Fortaleza.

Pode-se perceber em suas ruas e casas um engajamento dos moradores em não deixar a essência dos áureos tempos se extinguir, muitas casas ainda preservam detalhes típicos da época do império, chamando a atenção de quem passa. No entanto, como em diversos lugares da cidade onde o descaso transforma a história em pó, ali também se percebe o abandono, onde poderia haver iniciativas em prol da própria comunidade. Oficinas profissionalizantes que ensinavam ofícios como o de padeiro e gráfico estão fechadas há muitos anos enquanto o que chamam de Centro Cultural não ocupa mais que uma sala. A Igreja de São Francisco da Prainha que ficava á beira da praia, incendiada em 1710 por ocasião da invasão francesa e reconstruída em 1910, hoje se encontra fechada para visitação e, dizem, oculta preciosos tesouros históricos

É no morro que se encontra a Fortaleza da Conceição, desde 1718, e tem esse nome porque ali foi construída, em 1696, uma capela para a santa. O Observatório do Valongo e o Palácio Episcopal, onde atualmente funciona o Serviço Geográfico do Exército, também fazem parte do legado histórico do morro. O conjunto hoje se dedica ao serviço de cartografia do Brasil. Do alto da Fortaleza a vista do centro da cidade e da zona portuária se apresentam de forma generosa. O relógio da Central do Brasil pode ser visto em um ângulo inusitado, entre as árvores, que emprestam ao lugar um bucolismo que parece não pertencer à ensolarada Rio de Janeiro. Dizem que foi esse o motivo que levou o Bispo D. Francisco de São Jerônimo a querer construir ali seu Palácio e que só se desagradou do lugar depois que a fortaleza se instalou e os serviços religiosos se mostraram incompatíveis com as salvas de canhão. Micos e pássaros estão por toda a parte fazendo um contraste admirável com os prédios da cidade, avistados ao longe. Nesta mesma Fortaleza ficaram presos os inconfidentes, desembargador Thomaz Antonio Gonzaga (autor da obra “Marília de Dirceu” escrita em parte durante a prisão), José Alves Maciel e Domingos Vidal, mantidos incomunicáveis até seu julgamento e degredo para a África.

De quase toda parte do Morro da Conceição pode-se observar o famoso edifício A Noite, o primeiro arranha céu do Rio de Janeiro e à época de sua construção também o maior do mundo em concreto armado. Ele possui 22 andares (que correspondem a 30 de um prédio moderno devido ao pé direito alto). Foi construído em 1930, com projeto de Joseph Gire (mesmo arquiteto do Copacabana Palace) e abrigou o jornal “A Noite” e a Rádio Nacional. Hoje ele não se destaca mais das outras construções que existem na região.

A Pedra do Sal, onde o mar da Baía de Guanabara vinha bater, ainda no final do século XIX, é uma pedra lisa e íngreme, com uma escadaria esculpida por mãos escravas, ladeada de casas coloridas subindo em direção ao alto do morro. Era lá, naqueles idos, que desembarcavam os navios negreiros trazidos da África e onde também era feito o carregamento de sal, por isso o nome dado á pedra. No entanto, não é só uma pedra, há algo mais ali que parece prender o olhar e chamar a atenção, como se fosse um monumento natural. Ela parece se destacar do todo e ter identidade própria. Uma tremenda força emana de seus degraus, contrastando com a quase indecente lisura da pedra que lhes deu origem. Indescritível sensação de já ter andado por ali. A mesma impressão que já tive em diferentes lugares do Rio, como se a história que carrego em minhas lembranças tomasse forma nas coisas que vejo muito mais do que se estivesse a ler qualquer livro. Ou então, é a alma antiga da cidade que vagueia por ali, esperando quem a perceba.

Dizem alguns que o povo carioca é saudosista e que esses redutos da história só persistem por sua teimosia em não deixar morrer as rodas de samba, as reuniões em bares regadas a choro e bossa nova, nem os recantos persistentes do Rio Antigo. Ouso dizer que se pudermos preservar a alma do Rio Antigo além das peças de museu ou livros embolorados, mesmo com teimosia, estaremos contribuindo para que nossa cidade seja mais que belas praias. Abrir os olhos para um passado histórico é estar atento ao que nos rodeia, mesmo que não existam placas explicativas ou monumentos erigidos, mesmo que estes estejam em ruínas ou embaçado pelos anos. Uma história sem alma pode se transformar em simples poeira de traças e cupins.

 

 

Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco