São Paulo, 05 de julho de 2009



O Império Contra-Ataca

 


Anselmo Heidrich

 

 

Em O império do consumo, Eduardo Galeano abusa do tom emocional para criticar a economia de mercado. Quem tiver paciência para ler, verá que ele conclui que o mercado gera infelicidade e que, no fundo, as pessoas consomem o que não precisam consumir. Que o fazem porque são induzidas. Não passam de seres teleguiados pelo marketing, títeres de um supermercado das ilusões ou algo assim. O cerne de seu argumento reside num conceito difícil de definir em termos coletivos, a felicidade que, obviamente, é algo individual. O que pode parecer extremamente óbvio para nós não é, para quem sempre argumentou em termos marxistas. Na verdade, mais leninistas que marxistas, uma vez que a categoria estado-nação parece pesar mais do que as classes sociais. Claro que para os comunistas envergonhados não cai bem assumir a luta de classes, como pressuposto, então se torna bem mais conveniente falar em “termos nacionais”. Funciona, inclusive, melhor para arrebanhar simpatizantes antiamericanos ou paranóicos que preferem expiar a culpa de nossas mazelas sociais com conveniência ao culpar outros países.

A questão não é se os EUA e a Europa Ocidental são mais ‘felizes’. Ninguém com um mínimo de seriedade colocaria isto em pauta. Por contraposição, qualquer tentativa de cotizar felicidade me soa ingênuo para dizer o mínimo, como, aliás, já foi considerado o mais feliz dos países, a própria Nigéria. Eu me pergunto como um país com 42% de analfabetos (com mais de 15 anos) ou US$ 2.300 de renda anual pode ser feliz? Simples. Em primeiro lugar porque país nenhum é feliz, felizes são as pessoas. A felicidade é uma percepção e, sensação, eminentemente, individual, não transferível homogeneamente a uma coletividade. Quando enviesamos qualquer análise por categorias coletivas como país, região, cidade, é provável que não entendamos nada, mas apenas criemos mitos. Segundo, o que esses países podem ter de melhor é sua eficácia em possibilitar o alcance de determinados objetivos. Como por exemplo, certos bens necessários a uma reprodução física e econômica dos indivíduos. Trocando em miúdos, a possibilidade de ter um Neon para meus passeios (que nos EUA equivale ao nosso fusquinha) e uma Courier para entregar minhas pizzas, apartamento alugado com toda parafernália eletrônica em algum canto da Califórnia meridional me tornaria mais feliz do que viajar 120 km diários (três vezes por semana) entre Florianópolis e Biguaçu? Talvez. Mas, acho que morar com minha ‘família’ me tornaria feliz até na Albânia, não sei. Com certeza eu poder ter ido a São Paulo rever amigos de adolescência quando eu era “30 kg mais novo” e beber até soltar o tampão da cabeça é algo que depende de algum recurso financeiro. Já, se eu ficaria mais feliz em descer a Rebouças num Hummer em direção a um show no Credicard Hall, acho que não faria muita diferença. A questão que temos que avaliar é o mínimo necessário para subsistência e alguma possibilidade de troca que caracterize, para meus padrões, uma certa ascensão social. Acho isto um valor importante. Onde eu consigo é que é relativo. Vejo o Brasil de hoje e comparo com o de 25 anos atrás e considero que muitas coisas são mais fáceis, mas a felicidade não vem a galope por causa disto. Tampouco a consciência da melhora histórica porque falta o poder de comparação para a maioria dos jovens. Então, digamos que podem ser momentaneamente mais infelizes, mas seguramente com maior poder aquisitivo e acesso a medicamentos, maior expectativa de vida e acesso ao que eu nunca tive. Eu já passei horas em frente à TV chulhando para que passasse um vídeo-clip do que gosto por semanas e nada. Hoje, no youtube vejo o que conheço e o que não conheço, mas gosto. Sou mais feliz? Isto é relativo. Sou pressionado pelo consumo? Definitivamente sou é pressionado por minhas necessidades e a possibilidade de realização de algumas delas é que mostra, objetivamente, alguma evolução, esta sim, mensurável. A felicidade não.

O que o Galeano faz em todo seu texto é esboçar uma lógica circular onde o sistema necessita de mais mercado aberto ao mesmo tempo em que limita o acesso a ele. Burro este sistema, não? Ora, se o sistema não consegue em alguns lugares e consegue em outros, o mínimo que o Galeano deveria se perguntar seria qual ou quais as diferenças entre essas sociedades. Isto ele não faz porque não quer investigar. O que ele quer é condenar o que a maioria quer. O que ele propõe? Que odiemos o McDonald’s. É uma comida que não me apetece, mas convenhamos, é limpo, rápido e, relativamente, barato. Faz um enorme sucesso na China, país que jogou fora algo que Galeano elogia: um sistema centralmente planificado que bloqueava (este sim) o acesso ao consumo. Por que os pais gostam de levar os filhos ao McDonald’s? Acho que é difícil para quem tem filhos poder comer, tranquilamente, em algum lugar, de modo prático e rápido, com espaço para crianças brincarem. E esta cadeia de lojas de alimentos oferece um espaço social para tanto. A comida não é saudável? Certamente se eu comer feijoada e churrasco (algo que me deixa muito feliz) toda semana também não ficarei muito saudável. No meu caso, tudo que me deixa mais feliz, não me deixa saudável. E isto é mensurável.

Activia faz bem pro intestino. Isto resolveu o problema de muita gente. A felicidade em evitar flatos é difícil de mensurar, mas a redução do gasto com laxantes sim. Este é um pequeno exemplo de que medir o que faz bem é chato e trabalho de formiguinha, como as séries históricas para se conhecer ou mapear um fenômeno. Razões ocultas, espirituais, sensações, sentimentos, intuições e todo o mundo cultural relacionado são difíceis de medir, mas rendem artigos que empolgam as massas e nos dão uma vã sensação de que entendemos o mundo. A verdade é que como não entendemos a nós mesmos, queremos que o mundo se adapte aos nossos preconceitos.

Acredito, no entanto que sociedades que disponibilizam mais, seja pelo mercado seja pela democracia não criam seres necessariamente mais felizes, mas possibilitam que as pessoas alternem e/ou alterem comportamentos que possam ser inconvenientes. Se conseguirem satisfação e felicidade com seus câmbios, isto não depende de sistema nenhum. Só delas.

 


 

Outras artigos do autor publicados no Jornaleco