São Paulo, 30 de outubro de 2006


Liquidez de sofismas

 

Anselmo Heidrich

 

Segundo, relatório citado do Conselho Mundial da Água (WWC) no 4º Fórum Mundial da Água, realizado na Cidade do México com representantes de 121 países, a situação mais crítica encontrada no mundo é, como já é de conhecimento público, a africana.

O continente, com aproximadamente 3,5 vezes a extensão do Brasil, conta com uma densa rede hidrográfica que vai rareando em direção ao norte (Saara) e a sudoeste (Calaari). Apesar disto, o volume pluviométrico e sua distribuição variam imensamente no território.

No entanto, o déficit hídrico é encontrado em regiões intensamente povoadas e não, como se poderia imaginar, nos desertos. Simplesmente por que ele ocorre onde a demanda é grande. Assim, temos 300 milhões de africanos que representam cerca de 5% da população mundial e utilizam 3,8% do total de água doce. (1)

Já, o conceito de stress hídrico se refere à diferença entre a água utilizada e a disponível em recursos naturais. E esta é sua distribuição mundial:

WaterGAP 2.0 - December 1999 apud Water Crisis

Como se vê, claramente, no mapa acima extraído do próprio site do Conselho Mundial da Água, a maioria dos países situados ao sul do Saara não sofre de stress hídrico. É no mínimo estranho que o relatório anteriormente citado, seja contradito pela informação contida neste mapa... E por causas do stress entende-se as:

— Quantitativas, como a sobre-exploração de aqüíferos, ressecamento de rios etc.

— Qualitativas. Eutrofização, dejetos orgânicos, salinização etc.

Problemas como a eutrofização, que consiste na falta de oxigênio na água podem ser causados também por processos naturais como a presença excessiva de organismos vivos na água (animais, plantas, bactérias, algas) tornando a disputa por oxigênio mais intensa que pelo alimento. Claro, não poderia deixar de ser, que a tendência do nosso jornalismo ambiental, é a de enfatizar tão somente a eutrofização artificial, de causas antrópicas, como os esgotos e efluentes ricos em matéria orgânica que aumentam a concentração de seres vivos.

Não nos deixemos também levar por médias regionais em áreas tão vastas. Em uma análise mais depurada (2), observamos que é relativo. Bahamas e Cingapura, por exemplo, têm os mais baixos níveis de potencial per capita de água em m3/ano (menos de 500). Claro que como são países ricos, isto não chega a configurar um problema (3). O Gabão, país africano equatorial tem grande disponibilidade, mas como já era de se esperar dado seu atraso econômico, usa muito pouco (pouca produção, baixo consumo...). Ao passo que os EUA, com reservas consideradas suficientes, detêm regiões em que o planejamento prevê o abastecimento apenas para os próximos dez anos, como é o caso do Utah. A Austrália, país que tem a maior porção de território desértico do mundo, graças a sua pequena população (menor que a da Grande São Paulo) e seu planejamento de uso dos recursos, encontra-se da confortável situação de rico em recursos hídricos. Mas, se achar que não há mais regiões onde a escassez pode vir a ser uma realidade, existe a Sibéria com mais de 100.000 m3/ano per capita disponíveis (4). De fato, não é a ausência absoluta de água que configura um problema real, mas o não tratamento da mesma. Mundialmente falando, morre uma criança a cada 15 segundos por desnutrição e doenças relacionadas.

No Brasil, como seria de esperar no caso de tão vasto país, a disponibilidade varia muito. De mais de 1.500.000 m3/ano per capita em Roraima, podemos chegar aos pífios 1.270 de Pernambuco ou 1.555 m3/ano per capita do Distrito Federal. Com baixo investimento na infra-estrutura, já que obra subterrânea não dá voto, a construção de poços sem fiscalização traz riscos de consumo de água contaminada. Em todo o Brasil, estatísticas não oficiais acusam a existência de 700 mil poços artesianos clandestinos. Só no estado de São Paulo podem chegar a 40 mil (5). De acordo com o Pnad (2002), somos 22,6 milhões sem acesso à água potável.

E no caso africano relatado, em que cerca de 50-60% da população vive na zona rural, seria óbvio constatar que o stress de ordem qualitativa não é predominante, uma vez que a dispersão populacional coaduna seu “gênero de vida” com o equilíbrio de ecossistemas naturais. Mas, não. A tônica de qualquer reportagem sobre meio ambiente acusa fatores verdadeiramente alienígenas, como a industrialização ou a moderna agricultura em regiões que vivem na completa penúria e isolamento. Alguém em sã consciência diria que a realidade comum ao continente africano, expressa na foto abaixo tem causas industriais em seus problemas ambientais?

Poço africano — Photo by ADMVB

Ainda se pode questionar a racionalidade deste tipo de argumento, pois a obtenção de água mundo afora, especialmente para a agricultura, não depende exclusivamente, de recursos naturais disponíveis sem as devidas obras de infra-estrutura que podem ampliar a oferta.

O WWC, como qualquer organismo ambientalista, tem seus méritos e limites. Os méritos consistem em chamar a atenção para a gestão de recursos que, até bem pouco tempo, não detinha a devida atenção de administrações públicas; os limites teóricos (que levam às implicações práticas) consistem em partir da premissa sobre a finitude dos recursos como causas do problema em si. E o que resta a partir de então, senão o alarmismo?

Outro risco, frequentemente lembrado, é a possibilidade de conflitos civis ou internacionais devido à escassez hídrica. Com as migrações decorrentes em busca de sítios favoráveis, sua disputa em margens fluviais ou lacustres tende a crescer. Isto é certo, mas não é tão simples assim... Se for verdade afirmar que a disputa mundial pelas fontes hídricas leva às tensões onde a escassez seja diretamente proporcional ao conflito, o mundo teria bem mais guerras e genocídios que apresenta, mesmo por que cerca de 260 bacias hidrográficas no mundo são divididas por dois ou mais países. Se não é assim que se desenvolve a lógica da “guerra pela água” é por que há a mediação dos estados-nações. É a competência ou não dessas estruturas de poder que pode contar para a maior amplificação da destruição.

Algo pode e deve ser feito. Não é possível que continuemos a culpar “São Pedro” ou a vingativa “Mamãe Gaia” pelo que a humanidade faz... Antes da paranóia ambientalista-catastrofista tomar vulto, se falava em projetos, se procuravam soluções. Enquanto que no Piauí há uma probabilidade de quase 50 vezes mais de crianças não terem acesso à água comparado a São Paulo, estados que eventualmente são acossados pela seca também procuram eliminar o déficit hídrico.

O Rio Grande do Sul carrega problema crônico com a falta de chuva esporádica. Proporcionalmente, é mais grave que o caso do Sertão Nordestino, pois este tem a semi-aridez como uma constante. No estado, a Secretaria de Meio Ambiente está realizando um plano estadual para diagnosticar e disponibilizar água para áreas mais problemáticas (6). Serão 22 bacias hidrográficas a serem identificadas, seus maiores usuários e destino preponderante do recurso como à pesca e a agricultura (7).

Ações filantrópicas internacionais têm seu mérito(8). Não faço parte daqueles que a excluem, mas é evidente que isto vicia (9) e, assim sendo, as chances reais que tem um estado africano ou outro qualquer de adquirir independência, capacidade de gerência própria se tornam cada vez mais distantes.

Vez por outra também tomamos ciência de absurdos proferidos ou executados por aqueles que se dizem “porta-vozes dos excluídos”. Muitos, bem intencionados – embora, de boas intenções se diz que o Inferno está cheio... – baseiam-se em utopias. Como as “vermelhas” estão um pouco fora de moda mundo afora (exceto, na América Latina...), as mais disseminadas são as utopias “verdes”.

Em Eco-Imperialismo – Poder Verde, Peste Negra, Paul Driessen disseca a atuação do Greenpeace em sua “ajuda” à África. Em um capítulo, apropriadamente, chamado de “Bosta de vaca para sempre” diz que, através de sua influência em agências de fomento como o Bird, o Greenpeace obstrui a construção de hidroelétricas. A solução: consumo de biomassa renovável em suas choupanas, isto é, esterco. São um bilhão de mulheres e crianças expostas todos os anos à contaminação. São quatro milhões de mortes anuais de crianças no mundo todo. Pneumonia, asma ou câncer pulmonar, caso tenham tido a “sorte” de sobreviver às outras doenças. Tudo graças à “romantização da pobreza” feita pelos advogados dos “direitos étnicos” em sua luta contra a tecnologia.

Enquanto a tônica das análises continuar recaindo sobre a falaciosa e sofismática imagem geográfica da oposição “Norte/Sul”, os estados e estados-nações mais pobres continuarão pagando caro por tal conveniência, cujos pseudos-argumentos apresentam alta liquidez em nossos meios acadêmicos eivados de terceiro-mundismo até a medula.

1] Minha fonte que se arvora “o maior portal ambiental da América Latina”, contém alguns erros de análise ao afirmar que a África Subsaariana é uma região formada por 53 países e maior parte da água disponível desemboca no oceano ou se perde em ambientes áridos. Na verdade, 53 correspondem ao total de países no continente inteiro e não em uma secção deste, por maior que seja esta; ademais, “desembocar no mar” não é um problema em si, Brasil e Canadá têm drenagens predominantemente exorréicas e, nem por isto deixam de usufruir deste potencial. O Chade, por contraste, tem seus principais rios em drenagem endorréica, o que não exime o país de ter uma grande aridez e semi-aridez em seu território; e, algo que “se perde” em zonas desérticas revela o quê? Uma inclemência da natureza ou uma inadaptabilidade humana? É bem conhecida a experiência bem sucedida da ocupação israelense no Negev, sob as mais adversas condições naturais e políticas. Estas, aliás, é que são as mais difíceis de contornar. E para não ficar apenas com o bem sucedido caso israelense, tomemos exemplos de países africanos mesmo, como o Egito que desenvolve projeto de transferência de águas do Nilo deserto adentro ou a Líbia com vários campos de irrigação em pleno Saara ou a Argélia que está projetando 11 usinas de dessalinização no litoral para 2009.

[2] Decifrando a Terra/organizadores: Wilson Teixeira…[et al.]. – São Paulo : Oficina de Textos, 2000, pp. 425-426.

[3] Cingapura tem a cômoda posição de ser um dos maiores fornecedores de eletro-eletrônicos para o mundo e, de acordo com suas necessidades, importa água das Filipinas; o arquipélago das Bahamas, como é bem sabido, além de ser um famoso pólo turístico do Caribe, também é um “paraíso fiscal”.

[4] Com a internet, uma série de spams paranóicos têm circulado. Alguns dos mais freqüentes são sobre a intenção de os EUA efetivarem um plano maligno em conluio com a ONU para nos tirarem a Amazônia ou usar algum expediente para nos roubar a água da Bacia Amazônica! Estes antiamericanistas não se dão sequer ao trabalho de calcular, fosse o caso seria muito mais cômodo politicamente e barato economicamente importar água das geleiras e lagos canadenses, um dos países com maior capacidade hídrica mundial e além do mais, fracamente povoado.

[5] No estado de São Paulo, o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee) tem, em cadastro, apenas 15 mil poços (“Água clandestina” - OESP - Sábado, 25 de outubro de 2003).

[6] “Estiagem: gaúchos querem aproveitar melhor o potencial hídrico do RS.” Newsletter diária n.º 811 - 06/10/2006

[7] “Para os primeiros anos, nós imaginamos ações preventivas, como reflorestamento das margens dos rios e programas de educação ambiental (…) No final de 2007, as conclusões serão transformadas em um projeto de lei. No médio prazo, um sistema de irrigação deverá ser implantado em todo o Estado.” (idem).

[8] Acompanhe à respeito, o fantástico relato de Kaplan em Os Confins da Terra:
"Dias depois em Abidjan jantei com um embaixador que me falou da viagem que fizera ao extremo nordeste da Costa do Marfim, perto da Guiné e do Mali, para observar um projeto internacional de erradicação da oncocercíase (cegueira de rio), apoiado pelas Nações Unidas. Moscas pretas que enxameiam nos rios do interior da África picam africanos que tomam banho e lavam roupa, e as picadas transmitem a doença. O objetivo do programa era erradicar as larvas borrifando repelente nos cursos d’água.
Dizer isto é fácil, fazer é que são elas. Os helicópteros borrifadores precisavam voar contra o vento a alta velocidade perto da água, sobre riachos não mais largos que as pás dos rotores, com árvores dos dois lados. Satélites transmitiam imagens computadorizadas indicando a condição de cada rio e riacho. Computadores de alta sensibilidade monitoravam a composição química da água do rio, o que requeria constantes ajustamentos na proporção dos seis elementos químicos do repelente. Os pilotos eram americanos, canadenses, peruanos, portugueses e antigos iugoslavos. O embaixador disse ter ficado impressionado com o espírito de equipe e a disciplina paramilitar dos pilotos. Eles tinham conseguido erradicar a cegueira de rio da região adjacente, porem ela podia voltar facilmente pela Libéria e Nigéria se o projeto parasse.
– Pense no esforço – disse o embaixador encantado com o que tinha visto. – Tecnologia do mais alto nível, atenção aos mínimos detalhes, os mais extraordinários talento e comportamento ético para erradicar uma doença em uma parte da África, e temporariamente. – Disse o embaixador que os pilotos levantavam-se todos os dias antes do amanhecer para receber instruções e estudar as imagens computadorizadas que orientariam seus planos de vôo, isso durante vários anos. Rações ocidentais eram mandadas de avião de Abidjan e depois levadas de caminhão para o alojamento dos pilotos, que tinham geradores próprios para eletricidade. A instalação mais parecia uma base na lua."

[9] Veja o apelo do economista queniano James Shikwati:
Essas intenções estão prejudicando nosso continente nos últimos 40 anos. Se os países industrializados realmente querem ajudar os africanos, deveriam finalmente cancelar essa terrível ajuda. Os países que receberam mais ajuda ao desenvolvimento também são os que estão em pior situação. Apesar dos bilhões que foram despejados na África, o continente continua pobre.