São Paulo, 01 de março de 2007

Em A morte do pato, Olavo de Carvalho alegou que as suspeitas levantadas quanto à idoneidade do casal Sarney antes do primeiro pleito que levou Lula ao poder não passou de uma ação com o:"(...) propósito de não permitir que nunca, nunca mais, um concorrente estranho à comum origem ideológica de tucanos e petistas venha a pôr em risco a hegemonia esquerdista sobre a vida pública nacional".
O que dá sustentação a esse raciocínio é a união ideológica entre PSDB e PT. Como FHC teve matriz intelectual marxiana, não haveria no PSDB pensamento liberal. Mas, isto não é de se estranhar, pois o partido nunca se definiu como "liberal". E a social-democracia inscrita, pelo menos em seu nome, é avessa ao liberalismo e fortemente apologética ao maior peso estatal. A diferença entre psdbistas e petistas seria enquanto objetivo, o grau de presença estatal na economia e, para alguns, também de método, como sedimentar o poder político - se por via revolucionária ou reformista.
Agora, sinceramente, tudo isto é muito modelar, pois a prática política corriqueira, pouco os diferencia em qualquer metodologia política. Sendo o PT, apenas mais corrupto. E também enquanto objetivos políticos, o que se vê, uma vez assumida uma prefeitura municipal, governo estadual, presidência etc. é que não há diferença substancial entre nenhum dos partidos brasileiros. Não por falha de caráter, mas por que não se os entende em separado de um sistema político. Talvez, justiça seja feita, vejamos indivíduos políticos, aqui e ali, que adotem prática distinta em graus variáveis.
Sustentar que tudo que se vê no cenário nacional entre esses dois partidos "hegemônicos" (embora se desconsidere de sua análise o fisiológico PMDB) deriva do grande guru esquerdista Antonio Gramsci é de uma superestimação sem tamanho. Como ele diz, a estratégia gramscista seria:
"(...) a de fazer com que todo o espaço dos debates nacionais venha a ser monopolizado pelo debate interno da esquerda, sem lugar nem chance para mais ninguém, usando o próprio arcabouço formal do pluralismo democrático como meio de impor a toda a nação o mais imbecilizante unanimismo ideológico."
Ora, qual estratégia de fundo ideológica que não se pretende hegemonizadora? Dizer isto é o mesmo que "subir pra cima", "sair pra fora", tal o caso de "pleonasmo filosófico" que Carvalho sustenta. Mas, crer que isto suplante o fisiologismo, nepotismo, clientelismo e neopatrimonialismo tão característicos do Brasil é que é uma paranóia sem limites.
Para Carvalho, Roseana Sarney deixou-se "hipnotizar":
"Não apenas ofereceu-se gentilmente para o papel do saco de pancadas, mas deixou-se hipnotizar, enfeitiçar e dominar pelo discurso ideológico esquerdista ao ponto de o próprio pai da candidata pefelista, o ex-presidente José Sarney, tornar-se autor de um projeto de quotas raciais que estatui como lei alguns dos mais insanos preconceitos 'politicamente corretos' já desmoralizados pela experiência da affirmative action em vários estados americanos. Com essa longa carreira de subserviência oportunista e suicida, não era de espantar que mais dia menos dia o partido mais representativo da crença liberal fosse submetido a algo como a suprema humilhação que acaba de cair sobre sua candidata presidencial."
Métodos psicológicos parecem ser de extrema eficácia neste cenário da política nacional, segundo Carvalho. Talvez por isto mesmo, a ex-candidata hoje seja confirmada como líder do governo petista no Congresso:
Está aí "comprovada" a tese dos efeitos hipnóticos gramscistas sobre o "mero" fisiologismo político nacional. Portanto, a "esperança chamada Roseana" não passou, nas palavras do filósofo, de um "canto de cisne da direita liberal". Agora, me digam os liberais (por que não considero nenhum conservadorismo atual como alternativa ao país), o que uma representante de oligarquias regionais que sempre se beneficiou do conluio estatal como alternativa, sequer uma "esperança"?
Nesta linha de raciocínio, a investigação sobre o patrimônio do casal Sarney não pode ser coincidência, mas fruto de um plano maquiavélico-gramscista.
E o filósofo ainda avisa:
"Quando haverão nossos liberais de compreender que uma estratégia socialista abrangente não pode ser enfrentada no varejo, por improvisos eleitorais de última hora, mas requer toda uma estratégia também abrangente, inacessível à estreiteza mental de pragmatistas caipiras?"
Resta a pergunta de qual seria uma verdadeira "defesa no atacado" contra uma "estratégia socialista abrangente"? Um golpe militar... ou um longo e duradouro conjunto de ações "gramscistas de direita"?
Outro exemplo das singularidades políticas brasileiras é o iminente rompimento de Ciro Gomes com o PT:
"O deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) prepara seu rompimento com o PT, mas não com o seu 'amigo' Lula. Ele não perdoa o presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielli, a quem acusa de inviabilizar a siderúrgica do Ceará. Todos os movimentos estão sendo realizados por ele, e pelos políticos próximos dele, inclusive a ex-mulher, senadora Patricia Saboya, no sentido de levar a um rompimento com o PT. São os primeiros prenúncios da campanha eleitoral de 2010."
Teria terminado a sessão de hipnose do ex-ministro da integração regional ou poderíamos diagnosticar uma Síndrome Sensitiva de Auto-Referência para Olavo de Carvalho?