São Paulo, 05 de outubro de 2006


Garrinhas de fora

 

Anselmo Heidrich

 

Em The Common What?, Paul Hein critica a noção de bem comum. Afinal, o que é um “bem comum”, o que é um “bem” e o que é “comum”? Por outro lado, o que não é incomum é vermos religiosos proferindo suas visões mal acabadas sobre economia, definitivamente se metendo em seara que não são lá muito afeitos. Podem começar a falar da Natureza (“que Deus nos deu...”) para, tranquilamente, sem remorso ou preocupação conceitual alguma, se iniciarem a comentar sobre o emprego, a segurança, a Globalização etc. Mas, para consumidores de automóveis japoneses ou alemães, o “bem comum” pode ser, contrariamente ao que pensam pastores, baixos tributos, redução de tarifas alfandegárias, por exemplo. Para o dono de um boteco, consumo livre de fumo e bebida. O maior bem comum não é o que pensam os burocratas no comércio externo, assistentes sociais ou funcionários do serviço de saúde, mas o livre-arbítrio.

Analogamente, no Brasil a Teologia da Libertação se espalhou como praga na lavoura. Um exemplo de que é, hoje no Brasil, a influência religiosa na política e sua aproximação ao estado, conceitos como “luta de classes”, introduzidos em sua leitura do evangelho não são mera “manipulação externa”, são manifestações de um tipo de religioso semeado nos próprios solos latino-americanos, tão férteis na produção de caudilhos que também os complementam com vozes messiânicas. A crença de que o pobre é pobre por que há riqueza, que a propriedade privada e a livre iniciativa são coisas do demônio etc. É uma adaptação do jogo de soma zero às escrituras.

Isto não veio do nada, não veio recentemente através de um partido, do Foro de São Paulo etc. Como o pontua Augusto Zimmermann, em 1950, a Ação Católica Brasileira (ACB) já abraçava o marxismo com a intenção de abolir a Constituição de 1946, cujo líder, um franciscano chamado Thomas Cardonnel advogava o conceito de “desordem estabelecida” que denunciava a falsidade de uma paz social baseada em uma “injustiça natural”.

A similaridade entre a retórica light de bens comuns e o espírito revolucionário que atenta contra o mercado é uma diferença de grau, não de princípio. E muito embora esta percepção possa partir igualmente de ateus que endossem valores similares a determinadas crenças religiosas (naturalismo, pacifismo, igualitarismo) é notório que as militâncias religiosas ligadas à Teologia da Libertação sejam as principais multiplicadoras do anti-capitalismo latino-americano.

A religião neste caso é mais funcional que uma ideologia atéia. Ela serve como expressão de identidade cultural, tal como se vê no Islã. E, apesar de toda defesa que antropólogos possam fazer de outras culturas, ao admitirmos o respeito às outras culturas de modo irrestrito, significa fecharmos os olhos para atrocidades como a que muitas mulheres muçulmanas são acometidas. Em alguns casos, o “meio-termo” simplesmente não é possível.(1) Uma coisa é usar o véu de livre e espontânea vontade que, sabemos, não é o que ocorre. Outra, que é o que ocorre, é levar uma chuva de pedradas de alguma “polícia moral”, caso seu tornozelo fique exposto.

Mesmo em sociedades ocidentais, o perigo emerge, especialmente após episódios como o 11/09 nos EUA, quando fundamentalistas cristãos aproveitam o expediente para “equilibrar suas forças” com o fundamentalismo muçulmano. Assim, estamos assistindo ao recrudescimento de teocracias (ou mesmo, regimes constitucionais com maior peso de igrejas) no seio do mundo civilizado, em nossas sociedades abertas.

Para os fundamentalistas, a separação entre igreja e estado atenta contra os princípios da própria liberdade dos povos em manter sua fé e cultura. O fato de que os religiosos americanos justifiquem sua posição, devido aos governos americanos apoiarem os Dez Mandamentos não pode justificar, por exemplo, a discriminação contra outras religiões. A tão propalada cultura ocidental, ao defender a liberdade de culto não é, eminentemente, cristã. É muito mais do que isto, é uma democracia liberal.

Qual é o temor? Ele reside em uma visão de dês-cristianização do Ocidente. Qualquer imoralidade política é vista como perda das “bases cristãs da sociedade”. Como se não houvesse corrupção de religiosos... Se a corrupção não é maior entre eles, isto só ocorre por que sua ordem religiosa não é (ainda) um sistema de poder hegemônico. Mas, qualquer sistema que não esteja sujeito às mudanças através do sufrágio universal institucionaliza o roubo em um sistema mais ou menos autoritário. Ou alguém crê que uma teocracia é “mais santa” que uma democracia?

A secularização da sociedade não é, exclusivamente, uma des-cristianização mas, mais do que isto, uma des-religiosização da mesma em sua processualidade política. Ao mesmo tempo em que ocorre a secularização, novas fés e dogmas são assegurados aos crentes, sejam eles budistas, muçulmanos e também, por que não?, cristãos. O que é eliminado não é a religião do cenário cultural, mas sim o favoritismo de uma única religião. E este não beneficia a própria liberdade de culto. Ou admitimos isto ou ao falarmos que a “cultura ocidental” é, essencialmente, cristã endossaremos o fato de que cristãos devem ser, em nossas sociedades, “cidadãos de primeira classe”.

Acho maravilhoso sim, que nosso modelo social comporte o maior número possível de religiões. Só assim teremos uma espécie de “competição pela fé”. Analisemos o caso judaico que, devido justamente ao primor que esta cultura tem pela educação, em que pese o fato dos judeus serem historicamente desfavorecidos, em que pese toda a adversidade que enfrentaram e enfrentam alhures, têm se notabilizado por sua grande contribuição à humanidade através da produção científica, do conhecimento. Isto não foi dado por nenhum estado. Pelo contrário, os estados é que se beneficiaram deles e se há algum mérito destes, foi permitir o desenvolvimento de uma cultura particular sem intrometer-se em seus negócios. E vice-versa.

(1) Creio que há uma confusão sobre o direito à expressão cultural e preservação da própria identidade com a adoção de um modelo ocidental, liberal e democrático. A questão não exposta é quem escolhe, quem decide adotar este ou aquele modelo cultural? Uma corrente afirmativa da antropologia conhecida como “antropólogos da ação” endossam que os “direitos culturais”, “direitos étnicos” etc. têm que ser preservados da ameaça da globalização, ocidental, massificante. Mas, quem decide isto? Intelectuais sediados em metrópoles de I Mundo? Cidadãos “politicamente corretos” que, efusivamente, rejeitam qualquer interferência nos outros países, mas que não vêem como a dita “preservação cultural” significa, na prática, a tortura e repressão sistemática a um sexo, como no caso islâmico. Se realmente defendem o isolacionismo cultural, é um direito seu, mas que não venham falar que advogam “direitos humanos”. Se o fizerem, não passam de hipócritas. Tais antropólogos defendem sim, no caso do Islã, única e exclusivamente o direito masculino.