São Paulo, 11 de maio de 2008

Desigualdade e desafio
(quem viu o filme acima, sabe do que eu vou falar)
Eu tive um amigo muito pobre. Seus pais tiveram 12 filhos em Gravataí, na periferia de Porto Alegre. À época meio rural, meio urbana (anos 60-70). Meu camarada estudou em colégio agrícola na vizinha Cachoeirinha, onde morei por 9 longos anos. Quando me mudei para lá, com 15 anos, meus amigos me gozaram, pois morar naquela cidadezinha, que conseguia ser pior que Gravataí era um óbvio sinônimo de decadência.
Voltando ao sujeito, ele estudou neste colégio por um motivo muito simples: tinha verba estadual e dava quarto e comida pros alunos que lá ficavam em turno integral.
Ao se formar no ensino médio, quando todos ou quase todos nossos camaradas iam para a faculdade, o sujeito não teve outra alternativa senão encarar o batente como representante de venda de químicos para a agricultura, aquilo que vulgarmente se chama de “agrotóxicos”. Além, é claro de adubos e outros utensílios. Isto lá pelos idos dos anos 80.
Eu me formei, entrei na pós em São Paulo, a qual não conclui e me lancei no mercado de escolas particulares e cursinhos em São Paulo. Acabei perdendo seu contato por um tempo... Lá pelos 90, voltei a encontra-lo, o que era um pouco dificil quando eu passava rapidamente por Cachoeirinha e, seu horário era das 7 às 21, 22h. Ele e a mulher compraram aparelho de som, tv numa casinha de madeira caindo aos pedaços onde moravam. Daquelas, cuja porta deve ter servido de inspiração aos filmes de ação hollywoodianos (com um chute qualquer se abria). Tudo a prestação, claro, pois não tinham fundos para comprar nada a vista. Certa noite ao chegarem em casa, na sala só tinha sobrado com um sofá velho, cujas costuras se desfaziam. Foram assaltados.
Cachoeirinha tem uma ponte que atravessa o Rio Gravataí, tão poluído que a água que sai da torneira parece leite de tanto cloro que é adicionado. Quando eu tomava banho, meus olhos ardiam pelo excesso de cloro. Hoje, aqui em Florianópolis tenho água de qualidade, mas minha mãe que ainda mora lá, todos os dias ainda fica com os olhos vermelhos. Uma vez por ano, no entanto, os olhos do sujeito não ardiam porque da perna pra baixo ele toma banho com a água da inundação do Gravataí (muito muito antes de se falar em “aquecimento global”), pois ele morava na várzea junto ao rio.
Ele mudou de firma de representação, foi fazer cursos rápidos em São Paulo para conhecer o produto e conseguiu abrir uma lojinha, mas não deixou de visitar seus clientes num raio de 100 a 300km em torno de sua casinha.
Juntou uma grana e construiu um sobrado no fundo do terreno. Tão logo ficou pronto, nem aproveitou e já vendeu, se capitalizando.
Conversávamos muito e eu era um defensor da reforma agrária. O sujeito ria e ria de mim. Eu falava com autoridade “conheço o MST, já visitei a Fazenda Anoni, sei como eles vivem...” Ele disse “certo, vou te levar para conhecer uns assentamentos”.
Visitamos dois, um onde o pessoal realmente trabalhava, mas não tinham muito lucro, produtividade baixa e não dispunham de transporte para descartar os atravessadores; no outro, se esconderam quando nos viram chegando. Só vi porcos deitados na lama, nada mais.
- Como eles vivem aqui. Perguntei.
- Só esperam a grana do governo, me disse.
- Ué? Mas, já não ganharam terra?
- Ah ah ah, foi o que ouvi como resposta.Meia década depois, lá estava o sujeito arrendando uma mega-propriedade para plantar arroz...
- Êi! Por que tu não compra alguma propriedade em vez de gastar com aluguel?
- Anselmo... Se eu comprar, pago mais todos os anos que se só alugar.Enquanto conversávamos, ele arrumava uma bomba d’água com uma tira de borracha improvisada...
Isto se deu em uma época que eu ainda “ensinava” para vários alunos (seguindo meu livro didático) que arrendatários não têm terra e são “explorados” pelos proprietários. Voltei para São Paulo naquele verão e minhas aulas mudaram de tom, substancialmente: já não dizia mais que arrendatários eram todos pobres.
- Cara, por que tem tanta pobreza entre os agricultores, então? Tu é uma exceção, comentei.
- Não, Anselmo. A dificuldade deles é porque pensam como agricultores.Ele estava comprando dívidas de seus antigos clientes e cobrando-lhes com juros menores que qualquer banco.
Eu poderia parar aqui, mas a saga deste “miserável” ainda vai muito mais longe...
Quando a ecologia começou a entrar na moda, ele se interessou em saber como aplica-la. Técnicas como “plantio direto” dispensavam alguns produtos reduzindo custos. O que, normalmente, alguém faria, seria desdenhar disso, para continuar vendendo mais caro. Ao longo de dez anos, como um pastor materialista, ensinava agricultores como economizar.
Quando falávamos de qualquer outra futilidade, como “que carro tu prefere”, ele contemporizava com o ano do veículo, cuja relação custo-benefício seria melhor... “Zero quilômetro desvaloriza 20% ao sair da loja”. E não pagava por um, mas trocava por “sacas de arroz”.
Meia década depois, ele tinha duas grandes lojas de produtos agropecuários.
Ao fim do segundo mandato do FHC, ele votara no Lula por que estava descontente com a política econômica. Hoje, viu que fez besteira, mas que não era tão diferente do próprio governo FHC.
Com a alta do Real, ele se ferrou. Quebrou e o crédito sumiu. Uma grande empresa paulista estava prestes a decretar sua falência por falta de pagamento. Ele pagava se os clientes lhe pagavam, pois aí estava seu capital de giro. Mas, estavam quase todos quebrados. Do outro lado, seus vários fornecedores entendiam perfeitamente, mas esta grande empresa não poderia abrir exceções.
Como o telefone não ajudava, pegou sua pick-up com um advogado, um monte de papéis e veio para São Paulo. Chegou em casa na madrugada, pois se perdeu na Marginal e teve que pedir informações para algumas “mulheres estranhas” na Waldemar Ferreira ao lado da USP, o famoso “Putusp”. Eram travestis... Demorou também porque ficou batendo papo por lá...
Conseguiu estender o prazo de pagamento e a dívida saltou de uns 300 mil para mais de um milhão.
Decretar falência seria muito mais fácil, mas isto implicava em chutar os empregados de suas duas empresas. Fazendo a limpa e cortando tudo que podia descobriu que seu cunhado o lesara em alguns milhares de reais.
Como era religioso, espírita, maçom, o diabo não quis matar o cara. Coisa que se fosse comigo, eu teria feito depois de torturar o infame. Sua opção acabou sendo decretar falência, mesmo.
Hoje, ele arrenda outra área em Guaíba, outra cidade da metrópole porto-alegrense. O que ele faz lá? Arroz, mas contrata agricultor de Santa Catarina e garante o lucro do proprietário.
Movimenta 300 mil reais por mês e tira pra si, no mínimo, 30 mil mensais.
Sua garantia: se quebrar, paga quantia fixa ao dono da terra sem ônus para o mesmo. Seu contrato, seu nome.
A desigualdade nunca o tornou marxista. A desigualdade o desafiou. Eu perdi a conta dos rounds que ele teve na sua vida, mas posso dizer que nunca foi nocauteado. Provavelmente, por que enquanto eu lia Os Grandes Escritos Anarquistas de George Woodcock, ele lia seus manuais de aplicação dos produtos químicos...