São Paulo, 04 de janeiro de 2009



Chegou cedo

 


Anselmo Heidrich

 

 

 

Alceu Garcia é um pseudônimo. Corresponde a um dos melhores liberais nos meios internéticos. Escreve muito bem, mas quando pisa fora da economia parece escorregar direto para a vala comum do economicismo. Em Já vão tarde trata da derrota do Partido Republicano nas últimas eleições americanas. Ao avaliar o que o partido deveria ter feito no plano interno não posso deixar de concordar, entre o que destaco a redução dos gastos públicos, mas ao falar de política externa sua ingenuidade é gritante:

1) Denúncia do tratado da ONU e expulsão dessa organização e suas ramificações do território americano.
2) Retirar-se do FMI, Banco Mundial e instituições semelhantes.
3) Retirar-se da OTAN e todas as alianças militares similares.
4) Abandonar todas as bases militares no exterior.
5) Fim da doação de vastas somas de dinheiro e armas a governos ‘amigos’.
6) Restauração da competência do Congresso de declarar guerra e fazer a paz, usurpada pelo executivo.
7) Denunciar e refutar a farsa ambientalista global.

Em primeiro lugar, já faz algum tempo que a ONU é rechaçada pelos governos americanos. Acho uma tremenda ingenuidade querer crer que haja algum “consenso globalista” ou algo assim. Em termos de geopolítica global, o que menos se encontra é este termo alienígena, o consenso. Se os EUA fossem títeres da ONU, ou sequer recorrentes signatários de suas políticas, não teriam invadido o Iraque e, muito menos, deixariam de assinar protocolos como o de Kyoto. Para quem lê o que a ONU assina, sabe da influência das idéias cepalinas que até hoje grassa na instituição. Nada disto se vê em termos de políticas americanas. Governadores como Schwarzenegger ou senadores como McCain são favoráveis ao livre comércio, inclusive com posições contrários ao subsídio de etanol de milho como quer Obama.

Em que medida se retirar do FMI ou do Bird pode ajudar os EUA? Se sua influência global diminuir, isto pouco favorecerá a política externa americana. Acho que a questão é menos “se retirar” do que deixar de financiar governos corruptos. Se a maioria dos estados que recorre ao fundo internacional se enquadra na categoria de ‘corruptos’, a questão não é o pertencimento a instituição, mas sim sua atuação. O Bird, por sua vez, financia importantes projetos de desenvolvimento, inclusive alguns de tônica urbanística e ambiental. Só mesmo com um declarado utopismo para querer que todos bons projetos se desenvolvam sozinhos, com geração espontânea em cada país, região ou cidade. Se alguém se declara liberal de verdade, não deveria ver problema na formação de uma rede transnacional que superasse (ou ultrapassasse) as fronteiras nacionais.

Quando ‘esquerdistas-socialistas’ e ‘direitistas-conservadores’ se posicionam em conjunto contra algo me parece que este algo deve ter seus méritos...

Mas, ainda temos o capítulo ‘suicídio’ ao se retirar de toda aliança militar e sabandonar todas as bases mundo afora. Só mesmo no mundo de Poliana para achar que uma nação pode, unilateralmente, se desarmar ou abandonar suas vantagens estratégicas em meio a diversos inimigos que a querem ver pelas costas. Tendo vários países como regiões financiadoras de terroristas ou com a possibilidade de estrangular sua economia com bloqueios terrestres e marítimos, o que os EUA deveriam fazer? Pior do que a dica de Alceu, só mesmo emprestando-lhes suas ADMs.

Por que ‘amigos’ aparece entre aspas? Quer dizer que são inimigos ou que só se tem interesses? Em política, os interesses não são justificáveis? Alceu Garcia deve achar que estados deveriam se portar como empresários em constante competição para não encontrar lógica em acordos internacionais e abertura de linhas de crédito. Se um país necessita de crédito para ativar um corredor de exportações por esta peculiar maneira de pensar tem que ser deixado à própria sorte. Sem comércio, sem desenvolvimento. É como se o mundo globalizado fosse feito apenas com nações hipotéticas com a mesma capacidade de competir, a mesma quantidade de reservas externas etc.

Se os conflitos externos dependessem da aprovação do Congresso, o que o país faria na urgência de responder a um ataque? Esperaria, pacientemente, que os debates congressistas chegassem a um termo comum? Caso a Rússia partindo de Cuba ou Venezuela movimentasse submarinos nucleares próximos a Washington, os EUA teriam que contar com o bom-senso das oposições políticas para que o mecanismo de defesa fosse acionado? Quantos meses durariam sem que algum ato insano varresse algumas cidades do mapa? O que este raciocínio pressupõe é que ‘democracia’ não signifique especialização e separação de poderes. Que republicanismo signifique o poder da maioria e que só esta, através de seus representantes, possa decidir qualquer matéria, mesmo que uma administração tenha sido previamente eleita para deliberar sobre este e outros assuntos. A premissa de Alceu Garcia é de que um governo plebiscitário não só é desejável, como possível. Enfim, um mito da democracia direta transplantada para uma sociedade de 300 milhões de indivíduos.

Por fim, movimentos ambientalistas são, geralmente, de esquerda e têm propostas estatistas como soluções. Mas, os problemas ambientais não são “de esquerda” ou “de direita”, são só problemas. Se o suposto aquecimento global é aproveitado pelos socialistas como bucha de canhão para atacar o capitalismo, isto não deve servir para refutar a própria teoria que só poderia ser feito em bases propriamente científicas.

A premissa conservadora-liberal de Alceu Garcia desdenha de fatos como o que levou ao fim da escravidão pelo governo de Abraham Lincoln, como se a Guerra de Secessão fosse um atentado a autonomia governamental local, sumo pecado! É como se em nome da atomização e descentralização políticas, o direito individual e a liberdade civil fosse um detalhe.

Se os republicanos e neocons “já vão tarde”, não há nenhuma vantagem em “chegar cedo” armado com a pura retórica liberal para falar do que não compreende, seja em termos geopolíticos ou ambientais.



 

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