São Paulo, 04 de janeiro de 2006


Involução americana

 

Anselmo Heidrich

 

Mais velho que seus companheiros de infortúnio, confessava-se envergonhado por ter de aparecer diante dos officiales dos Estados Unidos com a roupa tão lamacenta e suja por causa da travessia. Insistiu, por conseguinte, em me mostrar que, por baixo, trazia uma camisa e uma calça limpas para se apresentar a algum empregador eventual e, ainda por baixo destas, mais um terceiro traje para ir à missa no domingo. Na realidade, Zaragoza não possuía nada mais que essas três roupas superpostas. Um agente recrutador sem escrúpulos viera até sua aldeia, em Ahucanetzingo, no estado de Morelos, e roubara todas as suas economias, mil dólares, a pretexto de lhe vender o endereço imaginário de um empregador americano, um fazendeiro em Nova York! Zaragoza não fala uma única palavra em inglês e só faz repetir “Nueva-York, Nueva-York”. Um agente dos border patrols tenta, com dificuldades, fazê-lo compreender que Nova Iorque está a cinco mil quilômetros de Tijuana e que lá, de qualquer modo, não existe mais nenhuma terra para cultivar.

Guy Sorman, A Nova Riqueza das Nações


Diferentemente do que relata a epígrafe, conheci um sujeito no Brasil que emigrou para Los Angeles. E, como é de se esperar para qualquer trabalhador dedicado e bem informado, se deu bem. Entregando pizzas, obtém o suficiente para dividir um apartamento com outros imigrantes e dispõe de toda parafernália eletrônica para o lar, um Courier da Ford para trabalhar e um Neon da Chrysler para se divertir e “caçar”... Para um self-made-man desses, o recentemente aprovado projeto para construção de uma cerca de mais de 1.100 km na fronteira com o México, não é um ato dos mais simpáticos. Já, para aquele tipo de conservador que cheira conspirações em todo canto, o brasileiro a que me referi poderia muito bem estar entrando nos EUA para disseminar o germe da revolução.

O fluxo migratório não é obra de revolucionários, mas de sonhadores em busca de uma terra de oportunidades. Se não fosse pelo péssimo sistema de ensino brasileiro (1), não haveria tantos debandando. Na verdade, é difícil acreditar que a Revolução Americana, feita com as mãos calejadas de imigrantes já tenha terminado. Enquanto tomada do poder do estado, a revolução acabou sim, ela já foi. Mas, se entendermos como a mesma se gestou antes e depois de sua independência em relação à Inglaterra, o mesmo princípio ativo permanece.

São 300.000.000 de americanos hoje. A cada onze segundos, um novo habitante é adicionado à “terra dos bravos”. E o principal elemento desta adição não se encontra no próprio crescimento vegetativo, mas na imigração. Alemanha e EUA detêm hoje, mais de 50% dos imigrantes no mundo, o que traz incompreensão e insegurança.

O país se debate com a questão da imigração (2), não só a ilegal, mas igualmente a legalizada. Atualmente, já existem trechos de contenção que são atravessados preferencialmente à noite, pois caso seja pego, o imigrante passa menos tempo na cadeia até ser deportado no dia seguinte. Tática prática e funcional, mas se estiver portando documentos falsos pode amargar meses em um presídio até ser liberado. Com sua longa linha fronteiriça e o ímã que exerce, não vejo muita possibilidade de sucesso no muro. Exceto se o objetivo for a simples redução, o problema em si do fluxo migratório não tende a desaparecer.


Muros de contenção mais apropriados não são um equívoco frente a atual situação. O equivoco está na própria “meia-integração” do NAFTA que, diferente de uma UE não integra comunidades efetivamente.

Bush não é um político tão limitado quanto muito de seus pares republicanos. Seu projeto era muito melhor, previa um programa de reciclagem que admitia trabalhadores para servir aos interesses de empresas americanas, especialmente para os trabalhos em que o cidadão americano rejeitava ou demonstrava pouco interesse. Os membros do Partido Democrata também não têm alternativa viável, nem parecem se interessar pelo assunto realmente. Preferem ficar em um cômodo oposicionismo. E acusam seus pares republicanos de fazerem uso político da questão. Ora, quem não faz? Pior eles, cuja posição é meramente crítica e nada propositiva. No entanto, não duvido que seja um projeto feito às pressas mesmo, com fins imediatistas frente às próximas eleições. Enquanto isto 1,2 milhão de ilegais foram presos ao longo da fronteira só no ano passado.

Se os EUA têm direito a limitar ou, em caso extremo, proibir a entrada de mais imigrantes, me parece óbvio que sim. O problema reside nas premissas de um projeto sem sustentação econômica e que, endossa claramente a paranóia de alguns puristas. O congressista americano J.D. Hayworth lançou um livro sobre o assunto, Whatever It Takes: Illegal Immigration, Border Security and the War on Terror, em que aponta os malefícios causados pela imigração. Segundo ele, além de estar na raiz da criminalidade de seu país, acusa como falsa a idéia do México ser um “país amigo”. Seu alerta cai como uma luva em tempos de terrorismo internacional. Abusando de uma retórica cara ao paranóico republicano, a decadência de sua civilização e as conspirações externas.

Entre os supostos mitos analisados, estão:

1. Mentira: a alegação de que uma maior criação de empregos no México e uma redução da taxa de natalidade levariam a diminuição da migração para os EUA;
2. Os EUA necessitam de mão-de-obra mais barata proveniente do exterior? É um absurdo pensar que sua vasta economia em pleno século XXI necessite do fluxo contínuo de mão-de-obra de baixo custo através da fronteira.

Com uma população de mais de 107 milhões e uma taxa de crescimento populacional de 1,16% (2006), o México sofre com a típica estratificação social tão comum aos latino-americanos, em que a base da pirâmide social não detém meios adequados de reprodução. Apenas citar a taxa de crescimento anual de sua economia em torno dos 5%, não é suficiente para que o desenvolvimento se internalize entre as diversas camadas da sociedade. Inversões de capitais externos já não têm mais sido suficientes para alavancar a economia regional, o que, por si só, não é remédio liberal algum se reformas internas aos países não são adotadas. Não passa de um remendo e pretexto para os estatistas difamarem o tal “neoliberalismo”.

Sinto falta realmente de vozes liberais na política regional. Tudo que se vê por parte dos auto-intitulados “liberais” em países latino-americanos é um clamor por mais investimentos externos. Nada contra estes, mas não são, bem entendido, o único motor do desenvolvimento. Seu tipo de crescimento que não parece buscar o desenvolvimento do mercado interno pari passu ao externo leva ao respaldo de idéias nacional-desenvolvimentistas, isto é, protecionistas na melhor das hipóteses e outras, claramente socialistas. Exemplos nunca nos faltaram, como se vê na pobre e condenada Venezuela de Hugo Chávez.

Vejamos um endosso teórico da reciclagem nacional-desenvolvimentista, de um expert da ONU:

(...) el uso de aduanas y de protecciones temporales y mesurables puede ayudar al desarrollo si se saben manejar dentro de una política macroeconómica "ofensiva y no defensiva".

Esta “solução” nós já conhecemos bem com Perón e Vargas, dentre outros. Dívidas públicas, ineficiência burocrática, desincentivo à inovação tecnológica, uso político de estatais, privilégios aos funcionários públicos e, de quebra, muita apologia estatal e demonização do estrangeiro. Junte-se ao tipo de falsa solução latino-americana reprodutora de caudilhos políticos, o medo dos conservadores americanos e teremos o caldo de cultura perfeito ao não encaminhamento correto da situação. Hipocritamente, ambos os lados não disponibilizam solução alguma. A imigração ilegal continuará, novos governantes americanos reclamarão e gastarão mais de seu orçamento em medidas paliativas, ao lado de lideranças ao sul do Rio Grande que pouco ou nada farão, exceto distribuir algumas migalhas de seus estados hipertrofiados com o emprego público. O muro entre México e EUA promete ter tanta eficácia quanto o combate ao tráfico de drogas. Uma de suas externalidades será, possivelmente, a evolução e o encarecimento dos serviços de máfias que arrebanham braceros.

Embora todos os grupos envolvidos neste xadrez expressem seu descontentamento, conservadores, liberais, liberals , socialistas etc., a previdência social nos EUA ganharia com o projeto rejeitado de Bush. O incremento de uma enorme força de trabalho disposta a pagar um preço pelo seu “sonho americano” teria o agradecimento dos aposentados. Como nos EUA, estar integrado ao mercado de trabalho não significa, necessariamente, ser cidadão americano, a economia e o fisco ganham. Esta é uma das grandes diferenças da economia americana frente à européia, sua flexibilidade. Enquanto os europeus ficam temerosos de incorporar as dezenas de milhões de turcos (e outras dezenas de milhões de curdos, indiretamente) o crescimento dos maiores PIBs da UE é letárgico. Se for justo dizer que Europa está se “arabizando” devido à formação de cistos étnicos, os EUA poderão se “europeizar” no sentido econômico deste neologismo.

Claro está que ressaltar os benefícios trazidos à economia pelos imigrantes não significa aprovar os objetivos sindicais das ligas que dizem representar os mesmos. É absolutamente normal que qualquer sindicato trabalhista se utilize de retórica socialista, mais ou menos branda. Mas, nem por isto os imigrantes que atravessam a fronteira por que optaram pelas benesses da economia de mercado mais pujante do planeta acreditam que isto levaria a institucionalização de uma “república socialista”. Isto seria o mesmo que acreditar que alemães orientais entravam em Berlim Ocidental para encontrar uma estátua de Lênin.

Não que conspirações não existam, mas confundir a ação e intenção de grupos civis de índole e ideologia terceiro-mundistas com o posicionamento e, mais importante, ação do governo mexicano não passa de estratégia de um político esperto para angariar votos de caipiras mal informados. Se a imigração fosse assim tão ruim aos EUA como um todo, ela simplesmente não existiria pela simples razão de que não existiriam empregos. Crer no contrário é assumir a premissa que o congresso americano e o Pentágono estão sendo, ingenuamente, manipulados. Isto não é geopolítica, isto é teoria conspiratória da grossa. Infantil até.

Se for para afirmar que a imigração traz prejuízos à sociedade americana precisamos de números e não suposições fantasiosas. Quais seriam os padrões homogêneos para comprovar quanto os nativos sofrem ou se beneficiam pela entrada de imigrantes? Na verdade, a relação entre número de imigrantes e emprego no país mostra amplas variações.

Segundo estudo feito pelo Pew Hispanic Center, entre 2000 e 2004, cerca de 25% dos nativos americanos residiam em cidades onde o rápido crescimento da população estrangeira se relacionava com benefícios a estes e 15% dos nativos residia em cidades onde o fluxo intenso não trazia boas associações. E, o mais interessante, refere-se aos 60% restantes que vivem onde a entrada de estrangeiros era pequena. Neste caso, os nativos americanos não tiveram benefícios no plano trabalhista. Sim, a conclusão é que a imigração, no computo final, traz mais benefícios que prejuízos.

Claro que os puristas da cultura americana discordarão. Seja para um operário que já achava desnecessário o aprimoramento de suas habilidades profissionais, seja para uma KKK, a ambos convêm mesmo desdenhar do princípio que construiu aquela potência: o sonho e o trabalho do imigrante.






(1) Segundo estudo do Bird, divulgado pela Exame de setembro de 2006, o Brasil ostenta os piores índices em educação entre os chamados “emergentes”: 13% analfabetos; apenas cinco anos de escolaridade média; 9% de mão-de-obra qualificada; 21% de repetência no ensino fundamental. Notem que este último dado aponta mais para a (má) qualidade dos professores do que seus alunos.

(2) De acordo com a Oficina de Censos de Estados Unidos, se estima que o país tenha 34 milhões de imigrantes legais e ilegais maiores de 16 anos. Até 2001 eram quase 30 milhões. Mas, apesar da cifra estratosférica, o incremento de ingressantes no mercado americano continua menor que os trabalhadores nascidos nos EUA.

(3)[3] Socialistas, social-democratas e, numa tradução grosseira, porém didática, “esquerdistas”.