São Paulo, 01 de fevereiro de 2009
Pensar Delivery
Tentando botar ordem nas idéias e as idéias no lugar, é sempre um imenso prazer para esta escriba poder discorrer sobre os “colunistas com filtro” ou “revolucionários a favor” ou “transgressores de butique” que escrevem “com luvas” (obliterando a memória das mãos) e até “com pinças” (tal o nojo e o horror à realidade, como sempre pobre, suja e feia), responsáveis pela blindagem cultural, embotamento crítico e embaçamento crônico onipresente na grande mídia, que impede o livre pensar do homem comum de modo a transformar precisamente essa realidade tão horrível e tão pedestre.
Porque a palavra se presta a tudo – eis a essência desse pós-nominalismo neoconservador, sempre oposto aos universais, às idéias, aos ideais, às utopias e às ideologias, salvo a própria – o Pensamento Único.
Em artigo recente, o sociólogo francês Jean-Pierre Garnier (autor de “Contra os territórios de poder”) chama a atenção para os desdobramentos conceituais dos termos “anarquista” e “libertário”. Para ele, o anarquismo tende agora a substituir o comunismo no papel de figura do Mal, ao lado do fundamentalismo islâmico (ao qual eu acrescentaria o fundamentalismo texano-puritano); já o adjetivo “libertário” acabou constituindo um rótulo cultural fartamente vinculado pela mídia, muito usado pelos “engajados de shopping” de toda a laia, que disfarçam sua adesão à ordem estabelecida por meio de um verniz anticonformista.
Desde os anos 50, o anarquismo vem sofrendo um lento processo de demonização e neutralização, como quando designava artistas, escritores, cineastas que afrontavam abertamente “os códigos estéticos burgueses”, desde os protagonistas do movimento Dadá, passando pelos surrealistas de André Breton até os cineastas da Nouvelle Vague. Já o termo “libertário”, ao menos na Europa, acompanhou a liberação dos costumes e das mentes afinados com liberalização da economia, a ponto de produzir o seguinte oximoro mutante: o “liberal-libertário” – dois termos que, atrelados, se excluem mutuamente, resultando no oposto – ou seja, o “neo-ultra-pós-conservador de carteirinha”.
Trata-se aqui duma descrição precisa das mancadas direitistas de certos líderes da revolta de maio de 1968 – a exemplo do próprio Daniel Cohn-Benedit – que passaram a menosprezar a revolução objetiva, valorizando apenas a “reforma” das subjetividades, deixando o poder e o dinheiro à Direita, aos donos de sempre. Infelizmente, como todos sabem, é impossível mudar o mundo sem tomar o poder, aliás, é imprescindível tomar o poder da burguesia caso se queira mudar o mundo.
Ao longo dos anos, com o aumento das desigualdades, da precariedade e da pobreza, a dupla “liberal-libertário” foi perdendo a credibilidade, mas continua gozando de prestígio entre as elites. Dentro de um contexto de restauração política e ideológica, estamos participando, até mesmo involuntariamente, do jogo discursivo neoliberalizante, que dá voz à Ideologia dominante, cujo objetivo é levar à perda do radicalismo crítico, que é monopolizado e absorvido por uma aculturação individualista – no pior sentido, sem mérito algum – e desengajada da política.
Daqui para frente, preocupado acima de tudo com seu desenvolvimento pessoal imediato, o neopequenoburguês fofo e libertário rejeitará toda perspectiva de autoemancipação coletiva, que ele enxergará como uma ameaça contra a democracia e o Estado de direito.
Limitada ao modo de vida concebido superficialmente como “estilo de vida”, a “não-conformidade” não tem mais razão de investir contra os padrões vigentes, uma vez que sua “transgressão” individual, institucionalizada, subvencionada e mercantilizada participa orgulhosamente da renovação da dominação capitalista. Em contrapartida, agora que contam com a aprovação geral, os governantes podem se dar ao luxo – e o caso do governador Serra é um magnífico exemplo – de reprimir toda forma de luta, comportamento ou palavra que represente um obstáculo para essa dominação.
Márcia Denser é paulistana, escritora, Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Escreve para o site Congresso em Foco, onde este artigo foi originariamente publicado.
E-mail:mdenser@uol.com.br
Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco