São Paulo, 26 de setembro de 2007
Estante
Como ando recebendo muitos livros, resolvi inventariá-los, falando um pouco de cada um, até porque são boas dicas de leituras. A lista começa com duas publicações dum bom e velho amigo, Flávio Moreira da Costa, campeão olímpico de jabutis (quantos você já ganhou, Flavinho, seis, sete?), o romance O Equilibrista do Arame Farpado (Agir), Jabuti de 1997 sendo relançado após dez anos de publicação (assim como Loyola fez nos 25 anos de Não Verás País Nenhum), realmente um tour de force de estilo, elegância, erudição – algo meio que raro em nossos dias.
Não é apenas ficção, são nossos romancistas contemporâneos resgatando a memória do passado recente do país e sua cultura, tão submetida a essa permanente e sistemática operação de desmanche por governo, empresas, mídia, sem contar a produção ativa do esquecimento espetacularizado.
É Moreira da Costa quem organiza Os Melhores Contos de Cães & Gatos (Ediouro), aliás, o Flávio antologista, também dispensa comentários. Em coletânea que vai de Homero (Argos, o cão de Ulisses), passando por Buck, uma obra-prima de Jack London, Mumu, outra de Turguêniev, Miss Dollar, cão-pretexto, antes um sofisticado recurso estilístico a que Machado de Assis recorre para falar de sua dona, a bela, distante e insípida Margarida; por Zig Braga, o cão do Rubem Braga, pelo surrealista Cão, o minúsculo devorador de Moacyr Scliar, além de muitíssimos gatos como o Gato, Gato, Gato do irretocável Otto Lara Rezende Otto.
Do livro como um todo, apenas dois senões e uma pergunta que não quer calar: o que faz ali o mero gato Zen de Heloísa Seixas se a trágica Baleia de Graciliano Ramos está ausente?
Da editora Boitempo, Jabuti 2007/Editorial em Ciências Humanas, ganho merecidissimamente pela dupla Emir Sader e Ivana Jinkings, recebo outra coletânea, Sobre o Amor, organizada por Leandro Konder, uma reunião 23 textos comentando o que escreveram sobre o tema nomes universais como Sócrates, Marx, Goethe, Carlos Drummond, Freud, Borges, Dostoievski, Balzac, Cervantes, Rosa, entre outros, constituindo, para pesquisadores do assunto, uma bibliografia comentada. Aliás, tantas visões resultam numa abordagem que ilumina o tema duma perspectiva múltipla, prismática, vertiginosa. Leandro também organiza a coleção Marxismo e Literatura, destacando-se Profanações, de Giorgio Agamben, imprescindível filósofo da contemporaneidade. Na linha de documento e memória política destaco Caparaó – A primeira guerrilha contra a ditadura, de José Caldas da Costa, com prefácio de Carlos Heitor Cony.
Entre as crônicas, o saboroso Tempo de Delicadeza (L&PM pocket) dum Affonso Romano de Sant’Anna para lá de lírico, sábio, esmiuçando essências,memórias, aparências (vou falar dele com mais vagar: como um livro tão pequeno me parece tão importante, sobretudo para os jovens? Bom, entre outras razões, pela atitude literária do Affonso). O Ivan Angelo não me mandou mas vocês não podem deixar de ler As Melhores Crônicas de Ivan Angelo, selecionadas pelo mineiro desatinado Humberto Werneck, da famosa coleção da Global do editor Luiz Alves, Melhores Crônicas, com direção editorial de Edla Van Steen. Esta coleção existe há tipo 30 anos e inventaria de forma inestimável nossos escritores e suas obras.
Mais romances e contos: As Espirais de Outubro de Whisner Fraga (Nankin), A leste da morte de Nilto Maciel (Bestiário), O Açougueiro de Alina Reynes (Caligrafias), uma francesa de Bordéus que anda badaladíssima, este último enviado muito simpaticamente pelo jornalista baiano Henrique Passos Wagner. Ainda a conferir, Henrique.
De poesia, dois lançamentos diametralmente opostos – quanto à forma e ao tema – mas ambos importantes: Poética na Política de Glauco Mattoso (Geração Editorial), o mais maldito dos poetas perpetra sonetos letais aos maus costumes dos maus políticos brasileiros; em Meu Filho, Minha Filha, Carpinejar (Bertrand Brasil) constrói, em versos livres, um sensível manual de educação sentimental destinado a pais separados que dispõem apenas do fim de semana para confirmar a paternidade, pois pai separado sempre está sob ameaça do despejo. De ser trocado. Ou de ser esquecido.
Márcia Denser é paulistana, escritora, Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Escreve para o site Congresso em Foco, onde este artigo foi originariamente publicado.
Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco