São Paulo, 08 de setembro de 2008

 


Biografias

 

Márcia Denser

 

 

Biografia I

 

Estou lendo a biografia de Truman Capote escrita por Gerald Clarke.

Eu a encontrei atravessando numa segunda-feira a biblioteca deserta, livro do qual me aproximei a contragosto dos meus passos, de cuja leitura me acerquei com desgosto infinito como quem retorna a si após umas férias intermináveis ou duma doença crônica que se troca durante anos pela sanidade de estar vivo e escrevendo, pela saúde que significa ser escritora quando então me aproximo ressabiada, temendo o que vou ler, a quem vou reencontrar.

Mas existe outro detalhe importante: encontrei essa biografia de Truman Capote na segunda-feira, 25 de agosto, depois descobri que é a data de sua morte em 1984. De forma que foi o livro – ou TC – que me encontrou.

Olhem, não existem coincidências, tomo Borges por testemunha: “Todo acaso é um encontro marcado, toda derrota é uma misteriosa vitória, toda morte é um suicídio” in Deutsch Requien, O Aleph.

TC é de 30 de setembro de 1924, da geração que nasceu nos anos vinte, a minha, emergindo em 80, só teria dez anos para produzir uma obra, entre 80 e 90 – afinal, os latino-americanos tiveram que entregar os pontos dez anos antes dos russos, mas ao fim e ao cabo e em virtude da ideologia reinante, a Cultura de Mercado, todos nós, escritores ocidentais, entregamos os pontos. Não sabíamos – embora pressentíssemos que havia algo de muito errado no ar – que teríamos tão pouco tempo para o exercício do pensamento independente.

Ele era duma geração de escritores imediatamente posterior à “geração perdida” da qual faziam parte Hemingway, Gertrud Stein, Fitzgerald, Joyce, que teriam entre vinte e trinta anos no entre-guerras, viviam em Paris e todos duríssimos, sem grana, algo compensado pela juventude, talento (“Viva! Estamos perdidos” – gritava Dorothy Parker) e uma atmosfera mágica, tensionada entre dois momentos que coexistiam na geografia parisiense, o Ancién Régime e a recentíssima modernidade tecnológica, isto é, o passado e o futuro conviviam no presente. Francamente. E a falta de grana não impediu que um bando deles não só ganhasse como até recusasse o Nobel de Literatura: Faulkner, Hemingway, Steinbeck, T.S.Eliot, Gide, Sartre (este recusou).

Mas a geração de TC despontou em 45-50, nos “anos dourados” da Pax Americana (que acabaram em 1989 com o colapso da União Soviética e fim da guerra fria) e deu o próprio TC, Gore Vidal, Tennessee Williams, Christophe Isherwood (uma pá de viados), J.D.Salinger, Saul Below, Philip Roth, Malamud (uma pá de judeus), Carson MacCullers, Mary MacCarthy, Joyce Carol Oates, Sylvia Plath, Susan Sontag (uma pá de mulheres), Norman Mailer, Nabokov, Antony Burgess (além de uma pá de escritores não enquadrados em-nenhuma-das-categorias-anteriores). Foram anos politicamente incorretos? E o macartismo comia solto.

Desde Other Voices, Other Rooms em 1948 até 1983, data da sua última publicação (One Christmas), Capote teve quarenta anos para realmente produzir uma obra, que atingiu seu ápice em 1964 com A Sangue Frio – embora eu a considere apenas um terço da sua grande aposta literária, se levarmos em consideração o impacto duradouro de peças como Breakfast at Tiffany’s, Os Cães Ladram, Música para Camaleões, no sentido duma verdadeira busca existencial através da linguagem e, nesse ponto, percebe-se quanto o filme Capote é uma bobagem mercadológica equivocada, exagerando a importância dessa obra para autor, como se a vida e a literatura de TC se resumisse a ela, fosse uma progressão única na direção deste livro.

Eu não queria fazer comparações estúpidas, mas elas são um fato. Não só em tempo como em dinheiro. Já no primeiro livro, Other Voices (1948), ele recebeu 25 mil dólares da Randon House; por Bonequinha de Luxo (1958), 300 mil dos produtores de Hollywood – aliás, uma miséria se pensarmos nas quantias estratosféricas que o mercado editorial paga ao lixo contemporâneo, tanto o que encomenda como o produzido espontaneamente – e TC nem era considerado pela comunidade literária norte-americana um escritor do primeiro time! (idem comunidade literária brasileira, a turma daquela época ainda tinha uma noção bem clara de valores).

Fazendo um balanço, tudo o que esses caras tiveram – juventude, talento e até dinheiro no tempo devido, nós, os contemporâneos também temos, claro, só não tivemos, agora percebo, este tempo específico – um Zeitgeist propício a que se engendrassem universos, outros universos, possíveis, diversos.

Eles tiveram esperança.

Biografia II

 

Agora estou lendo a biografia de Gore Vidal escrita pelo próprio (Palimpsesto, memórias. Rio, Rocco, 1996), considerado o maior rival e inimigo declarado de Truman Capote. Quer dizer, “lendo” é força de expressão, antes “decifrando” aquilo que sobrou duma péssima tradução: ironicamente tanto Vidal quanto Capote em versão brasileira empatam, isto é, são igualmente mal traduzidos. E, absurdamente, Gerald Clarke, um escritorzinho de quinta categoria, biógrafo de TC [1], recebe uma tradução impecável assinada por Lya Luft (lembrando que, um dia, ela foi uma escritora rigorosamente da série literária).

Os agentes literários desses dois não deviam nos subestimar tanto, people do third world. É por coisas desse tipo que se descobre o que o primeiro mundo pensa do Brasil e tudo o mais que vive e respira por aqui – em estreito convívio urbano com cobras, jacarés, coquetéis servidos em cocos, garçons & macacos incluídos. E não estão errados, sobretudo ultimamente, de forma que tudo o que tais obras podem fazer é dialogar com a ignorância do público e a ausência da crítica: clamar no deserto! Sobra apenas aquela meia dúzia de leitores privilegiados (onde me incluo, claro) que ainda lembram que as coisas nem sempre foram assim por aqui. Noves fora.

Voltando a Gore Vidal: naturalmente entre as memórias de GV escritas pelo próprio e a biografia de TC escrita por um sujeito de quinta, naturalmente se fica com o primeiro (quer dizer, depois que se desconta a péssima tradução, o maldito editor que precisa diminuir custos, o maldito agente literário que nos subestima, o maldito autor que fica de touca porque é um idiota, etc, etc, etc.), mas também fica algo que, ao fim e ao cabo, realmente conta, que é a obra de um e outro e, no caso, TC ganha disparado.

Afinal, quem já não leu (ou ouviu falar ou assistiu ao filme) Bonequinha de Luxo ou A Sangue Frio? E o quê, você, leitor brasileiro, já leu de Gore Vidal, que mal lhe pergunte: A Cidade e o Pilar ou Myra Breckenridge ou Burr ou Duluth? Hein? Talvez um pouco mais recentemente Washington D.C. ou Império, pois fazem parte da crônica política americana contemporânea.

Recentemente EU li Washington D.C. e não lembro duma só palavra mal fechei o livro. Terá sido a má tradução? (também da Rocco, como esta gentilmente me lembrou na orelha de Palimpsesto) Que o nivela a qualquer coisa escrita por Sidney Sheldon? – Outro com ISO 90.000 de Esquecibilidade? Bem mais memoráveis são os ensaios de Gore Vidal – aquele dedicado a Scott Fitzgerald é genial e divertidíssimo.

Daí que as Memórias idem porque, na verdade, Gore me parece O Cronista Norte-Americano por Excelência, não o Ficcionista, tal como ele se imagina (sorry, cara, que é Capote e, num nível mais elevado, Steinbeck, Hemingway, Faulkner, em razão da Universalidade de tais autores), inclusive o próprio Gore himself que, o tempo todo no livro, faz questão de enfatizar seu sangue azul, suas raízes como neto de senador, suas conexões com a Casa Branca, suas intimidades com Jack e Jackie Kennedy (meio-irmão por parte de pai de Jacqueline Kennedy, née Bouvier), suas divergências com Bobby K – QUEM mais podia estar por dentro de tudo senão ele próprio? Mas falta algo, não sei – a tradução não destrói tanto assim um grande escritor, não o fez com Capote.

Ainda assim, há momentos de elevada intensidade poética, o sujeito sabe o que está fazendo, sem contar algumas declarações absolutamente incríveis, conquanto memória político-literária de curto, médio e longo prazos (devia ser leitura obrigatória no vestibular, eu falo sério), até porque se a literatura é a única arte que não pode ser globalizada (e é a barreira da língua que felizmente a impede), por outro lado ela é internacionalizada – seus valores são válidos universalmente – e qualquer escritor de quinta da internet pode te confirmar isso, pode apostar.

Então lendo Vidal, o belo aristocrata, é quase como se Capote, o anão plebeu, pudesse ter escrito suas memórias – e não poderia tê-lo feito tão bem quanto GV ao escrever as próprias. Concluindo (e descaradamente plagiando Borges): talvez porque, para a eternidade, ambos sejam o mesmo homem.

[1] Capote, uma biografia. Gerald Clarke: S.Paulo, Editora Globo, 1993.


 

 

Márcia Denser é paulistana, escritora, Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Escreve para o site Congresso em Foco, onde este artigo foi originariamente publicado.
E-mail:mdenser@uol.com.br


Outras crônicas da autora publicadas no Jornaleco