São Paulo, 28 de agosto de 2002

Entrevista:

Theo de Barros
Theo de Barros nasceu no Rio de Janeiro, há 59 anos, e mudou para São Paulo em 1954, aonde vive desde então. É casado e tem dois filhos. Mora em Pinheiros, numa casa com uma vista privilegiada. Autor de, pelo menos, dois grandes clássicos da MPB, “Menino das Laranjas”, e “Disparada”, em parceria com Geraldo Vandré.
Jornaleco: Como aconteceu a música na sua vida?
Theo: Eu era pequeno, meu pai era diretor musical das Emissoras Associadas, Rádio e Televisão Tupi, e o pessoal se reunia em casa. Eu ia dormir e ficava ouvindo aquela turma tocando, aí comecei a aprender violão com uma dessas pessoas. Quando mudei para São Paulo, eu era garoto ainda, tímido, não conhecia ninguém, e o violão se tornou meu grande amigo.Jornaleco: E aí você começou a compor?
Theo: Aí eu fui estudar, estudei até o segundo clássico, depois passei a me dedicar só ao violão mesmo. Naquela época começou a haver aqui em São Paulo, reuniões do pessoal da bossa-nova: eu, a Alaíde Costa, o Luiz Roberto. Na verdade, eu e a Alaíde, e o então marido dela, o Mário Lima, fomos os articuladores dessas reuniões, e em seguida começamos a nos apresentar às segundas-feiras, no Teatro de Arena, nas "Segundas Musicais". Esse movimento nosso, saiu em represália à uma frase do Vinícius, em que ele chamava São Paulo de "túmulo do samba". E olha que éramos eu, o Luiz Roberto, e a Alaíde, os três, cariocas.Jornaleco: Menino das Laranjas é dessa época?
Theo: É. Eu ia passar as férias no Rio, e no Rio, bem mais que em São Paulo, havia o menino que ajudava a mãe na feira. Eu ficava olhando e daí surgiu a música.Jornaleco: E a letra também.
Theo: Isso. A letra também é minha.Jornaleco: Estourou na voz da Elis?
Theo: Quem primeiro gravou Menino das Laranjas foi o Vandré, a Elis gravou depois. Quem fez os arranjos do disco do Vandré foi um saxofonista chamado Meireles, que também fez os arranjos do disco da Elis. Só que a Elis ficou meio ressabiada comigo, só me chamou para eu me apresentar no O Fino da Bossa, programa semanal que ela tinha na Record, um ano depois. Até imaginei que talvez houvesse acontecido alguma fofoca, alguém ter comentado que não gostei do arranjo. Mas isso não foi verdade.Jornaleco: E aí veio Disparada?
Theo: Disparada foi assim: eu conhecia o Vandré, que naquela época, 1966, morava naquele prédio Redondo, em frente ao Teatro de Arena, que aliás tem o apelido de Redondo mesmo, e nós estávamos trabalhando juntos, no show da Rodhia. A Rodhia tinha um estande na Fenit, e intercalava desfiles de moda com shows musicais. Também musicais, porque tinha de tudo. O Vandré cantava, e eu tocava, e tinha um trio, o Trio Novo, que depois virou o Quarteto Novo. Era moda o trio, com aquela formação de baixo, piano e bateria. Então nós fizemos o show da Rodhia em São Paulo, e começamos a viajar pelo Brasil. Um dia, ainda em São Paulo, o Vandré me chamou e me mostrou a letra de Disparada e me perguntou se dava pra pôr uma música. Aí eu fiz a música e nós a inscrevemos no Festival da Record e fomos classificados. Fizemos a primeira apresentação e fomos para Natal. Só voltamos para a última apresentação. O Trio Novo havia se transformado no Quarteto Novo: era eu, que tocava violão e contrabaixo, o Aírton Moreira: percussão, Heraldo do Monte: viola e o Hermeto Paschoal, que tocava piano. O Vandré foi o Mecenas do Quarteto Novo. Nós ficamos um ano acompanhando-o, éramos exclusivos do Vandré, e daí aparecia convites de shows em todos os lugares. E todo mundo queria gravar com a gente, se apresentar com a gente.Jornaleco: E porque você não voltou a compor com o Vandré?
Theo: Temperamento. O Vandré é muito difícil e eu sou mais difícil ainda (risos).Jornaleco: Aí veio a fase do Teatro de Arena na sua vida?
Theo: Isso foi lá por 1968, 1969. Eu fiz os arranjos e fui tocar em algumas peças do Teatro de Arena, que era o grupo do Boal e do Guarnieri. Foram várias peças: Arena Conta Zumbi, Arena Conta Tiradentes, e Arena Conta Bolívar, que foi proibida aqui no Brasil e fez um sucesso enorme nos Estados Unidos. Aliás, o que a gente teve de problema com censura não foi brincadeira.

Jornaleco: Vocês viajaram com o Arena?
Theo: Viajamos. Apresentamos todas essas peças nos Estados Unidos. Era um elenco muito bom: Lima Duarte, Renato Consorte. E na peça Arena Conta Bolívar eu compus as músicas. As letras eram do Boal e do Guarnieri. Fui o diretor musical também.Jornaleco: Aí veio a década de 70/80.
Theo: Aí eu me casei, vieram os filhos, a vida mudou um pouco e eu fui trabalhar em publicidade. Passei um bom tempo fazendo jingle. Por uma questão de sobrevivência mesmo. Claro que não fiz só isso. Fui produtor e arranjador dos discos do Marcus Pereira, onde dirigi a coleção Centro-Oeste/Sudeste, fazendo um mapeamento do folclore dessas regiões. E isso foi muito bom, porque depois eu passei a me interessar mais por folclore. Mas também fui arranjador dos discos do Sérgio Ricardo, Carlos Lyra, Adauto Santos, Jane Duboc, e outros.Jornaleco: Na década de 80 você gravou seu primeiro disco?
Theo: Foi. No selo Eldorado, que eu fui fundador, junto com Aloísio Falcão. Um álbum duplo. E aí resolvi estudar jornalismo. Me formei pela FIAM. Sempre gostei muito de escrever, de fotografar, e acabei fazendo o curso. Se bem que eu sempre fui autodidata, mesmo.Jornaleco: E esse tempo todo, você ficou meio sem compor MPB?
Theo: Fiquei. Por nenhuma razão especial. Eu andava meio desmotivado mesmo.Jornaleco: E hoje em dia, quem compõe no Brasil?
Theo: Olha, eu vou te contar uma coisa: a partir dos festivais da Record, começou pelo Brasil inteiro, pelo interior, uma onda de Festivais que não parou mais. Há todo um pessoal que compõe muito bem, que toca muito bem e cujo trabalho é totalmente desconhecido, porque esse pessoal não tem acesso à mídia. Você ouve coisas interessantíssimas, mas que o público talvez nunca chegue a conhecer.Jornaleco: E porque o público não tem acesso a esse pessoal?
Theo: Porque a mídia não permite. Quando eu fazia programas de rádio, eu recebia cachê, e era inadmissível para o disc-jockey que alguém pagasse para que o seu disco fosse tocado. Hoje, isso de pagar, virou uma instituição.Jornaleco: Acho que ouvi em algum lugar por aí que interessa às gravadoras, bancar pequenos grupos de rock e pagode porque o custo sai baixo. Se te chamarem você leva uma orquestra e...
Theo: De jeito nenhum. Isso é boato mesmo. Pude presenciar isso, recentemente, quando fiz uma gravação em um estúdio ao lado do estúdio onde um desses caras gravavam. Eles ficam três, quatro dias, testando a bateria eletrônica, até que saia do jeito que eles querem. E, normalmente, essas gravações são feitas nos melhores estúdios. Ou seja, o custo acaba saindo muito alto. Mais alto do que sairia um disco meu, por exemplo.Jornaleco: Então o que leva o dono da gravadora a optar por música de má qualidade?
Theo: Gosto mesmo. Pessoas que tomam conta da gravadora, ou os próprios donos, que não têm a menor noção de música. E tem uma coisa que precisa ser dita: foi o sucesso da Bossa Nova lá fora, que obrigou que se fizessem, aqui no Brasil, gravações bem feitas, cuidadosas. O Brasil já foi o quarto mercado mundial de discos, hoje não sei como está.Jornaleco: Tenho a impressão de que a boa música brasileira acabou.
Theo: Não acabou não. Apenas não está sendo executada. Há um material muito grande e valioso, que eu espero, consiga romper os bloqueios. Como eu disse antes, hoje em dia o dinheiro está comprando qualquer atributo moral.Jornaleco: Você falou agora pouco sobre esses festivais aonde têm aparecido pessoas muito talentosas.
Theo: É, falei. A música instrumental brasileira é de altíssima qualidade, mas que, lamentavelmente, não consegue passar para o lado de lá do mercado, o lado das rádios, gravadoras e lojas. Então o que se vê são excelentes músicos, gravando em selos independentes, cuja distribuição também não existe. O resultado é que todos os caminhos para a boa música estão fechados. Esse pessoal faz com a cara e a coragem, e por não sofrer nenhum tipo de pressão, faz uma música de altíssima qualidade.Jornaleco: As mulheres estão compondo muito? Estão compondo bem?
Theo: Eu gosto muito da Joyce e da Sueli Costa.Jornaleco: O Maestro John Neschling disse, recentemente, em uma entrevista, que a música clássica contemporânea não é conhecida de ninguém, salvo de uns poucos privilegiados, porque não é executada em lugar nenhum.
Theo: Sem dúvida. E o mesmo acontece com a MPB. Além do agravante de que São Paulo tem quatro casas noturnas onde é possível ouvir MPB. Veja bem: uma cidade como São Paulo e apenas quatro casas noturnas: Supremo, All of Jaz, Confraria e Villaggio Coffe. Só. O Rio nem isso. Acho que o único lugar que tem dado um incondicional apoio à música brasileira, numa atitude corajosa, é o Sesc, aqui em São Paulo. Que tem ajudado a sobrevivência desses artistas que nós estávamos falando agora pouco, e desses selos independentes, que é onde esse pessoal grava. No Rio o Sesc não funciona como funciona aqui.Jornaleco: O preço do CD não é caro demais?
Theo: Caríssimo. Para você ter uma idéia, um cd meu, me sai hoje, na gravadora, R$ 8,80, incluindo Direitos Autorias. A loja vende um cd por quanto? Vinte, trinta reais?Jornaleco: O que você acha da música formato MP3 que toca na Internet?
Theo: Em termos de divulgação é ótimo, mas em termos de direitos autorais se torna um problema grave, porque você não recebe nada.Jornaleco: Semana passada, falamos aqui no Editorial do Jornaleco sobre a "cultura oficial", aonde a secretaria de cultura do município, por exemplo, trouxe um repentista do Piauí para cá em detrimento dos nossos autores e cantores.
Theo: É isso mesmo. Eu tentei vender um projeto, junto com a Inezita Barroso, à secretaria da cultura, mas do estado, o projeto se chamava Natal Brasileiro e nem resposta me deram.

Jornaleco: Como é ser arranjador? Qual arranjo você gostou mais de fazer?
Theo: É muito gostoso, é quase a mesma coisa que compor. Eu gosto de tudo, de tudo que compus e de todos os arranjos que eu fiz. Recentemente fiz um trabalho para a Movieplay, a pedido da Holanda, arranjos para um disco com músicas do Cole Porter e do George Gershwin.Jornaleco: E reger uma orquestra, você gosta?
Theo: Em público? Não. Sou muito tímido pra isso. Só em estúdio.Jornaleco: Você teve influência de quem?
Theo: Influência você sofre de todo mundo. Passa tanto tempo ouvindo tanta coisa, e só na hora de compor você percebe: essa frase é oriunda de...aí já foi, a música está feita.Jornaleco: Falando nisso, certa vez o crítico Tinhorão disse e, segundo ele, provou, que o Tom havia " plagiado" as primeiras frases musicais de umas duas músicas. Você tem conhecimento disso.
Theo: Isso não existe. Lógico que vai haver repetição. A música é reduzida a doze notas. Cinco são acidentes musicais. Imagine se você tivesse um vocabulário de apenas doze palavras? Lógico que vai haver repetição e nunca vai ser intencional. Plágio de uma frase ou duas, não existe. O compositor é um criador e de sã consciência, a pior coisa que existe para ele é plagiar alguém. Ainda mais o Tom.Jornaleco: Theo, me conta os seus planos musicais mais imediatos.
Theo: Estou fazendo um disco com o Paulo Cesar Pinheiro. Claro que vai sair por um selo independente. Aliás, voltei a compor por insistência dele. A vida toda eu compus trinta canções e em um ano, com o Paulinho, foram cem.Jornaleco: Me fale do seu último disco.
Theo: É este daqui, chama Violão Solo. Foi gravado pelas Paulinas, um selo fantástico, mas não tem distribuição nenhuma. Você encontra em casas religiosas para vender, mas não em lojas do shopping. Olha que coisa.página pessoal do Theo na web: www.netsense.com.br/theo/