Dezembro de 2011

 

Silvia Maria

 


"Ensinei pros meus alunos que a voz é um instrumento como qualquer outro, e como qualquer outro tem de estudar e se aperfeiçoar sempre"

 

Silvia Maria é uma cantora de elite. Elite cultural, bem entendido. Longe do canto de sucesso fácil, sem fazer nenhuma concessão, com pleno domínio técnico e largo domínio das emoções, ela cantou a vida inteira. Fez mais que isso: estudou incansavelmente. Ainda criança, gravou a trilha sonora de "Os deuses e os mortos", premiado filme de Ruy Guerra. A música é de Milton Nascimento. Seu seleto gosto musical fez com que escolhesse os melhores músicos do país quando gravou seus discos. Percorreu o Brasil com Baden Powell. Não importa que ela não venda. Não importa que seja criticada. Não importa que grave só raramente. Silvia sabe que aquilo que tem de melhor foi o que fez de melhor na vida. E isso é tudo.

 

 

Jornaleco: Sílvia, você começou a cantar quando?
Silvia Maria: Eu me lembro que eu cantava no quintal da casa da minha avó paterna, lá no fundo do quintal. Porque aí eu achava que ninguém ia me ouvir, eu achava que estava no quintal e estava escondida. Atrase um pé de amora, eu achava que o pé de amora estava me protegendo. Que as pessoas não estariam me ouvindo, que eu estaria fazendo uma coisa só minha. O engraçado é que o repertório que eu tinha, era um repertório que a empregada escutava no rádio. E eu, que tinha 6, 7 anos, cantava Boemia, aquelas músicas do Nelson Gonçalves, sem noção nenhuma do que significasse a letra. E um dia, foram uns amigos dos meus pais em casa e minha mãe me chamou pra cantar Boemia pra eles, e minha irmã Glória, mais velha do que eu, ficou brava. Mas eu achava bonita aquela melodia, aquela voz que cantava. da primeira vez que me apresentei, foi na Federação Espírita de São Paulo. Minha família é kardecista. Eu cantava e me acompanhava no violão. Eu devia ter uns dez anos.

Jornaleco: Você nasceu aqui em São Paulo?
Silvia Maria: Sim, na Maternidade São Paulo, e morei na rua Augusta até eu me casar.

Jornaleco: Você tem 3 irmãs e um irmão. Só você canta?
Silvia Maria: Profissionalmente só. Mas todos são afinados, todos cantam. A Regina e a Glória cantam até hoje.

Jornaleco: Essa musicalidade veio de casa mesmo?
Silvia Maria: Meu pai tocava piano, minha mãe foi professora de canto orfeônico, foi cantora lírica, mas não seguiu carreira. Ela estudou com os melhores professores da época, chegou a dar alguns recitais, mas ela optou por ser professora. Ela deu aula de música na USP. E ela era uma mulher muito além do seu tempo. Ela fazia uma coisa que chamava de “aula experimental”, o workshop de hoje. Era assim: ela desenvolvia um tema durante o semestre e quando os alunos entregavam os trabalhos, ela trazia um artista pertinente ao tema para debater com os alunos. E eu ouvia, em casa, muita música instrumental.

Jornaleco: Você estudou piano?
Silvia Maria: Não, eu estudei violão com o professor São Marcos. Música erudita. Até que eu comecei a assistir o Fino da Bossa, o Bossaudade, me apaixonei por aquilo, e montei um repertorio de música brasileira.

Jornaleco: Então você não teve a fase de rock-balada de Neil Sedaka, Paul Anka, etc?
Silvia Maria: Não. Mas conhecia todos eles por causa da minha irmã Regina. Ela tocava muito bem violão e cantava tudo isso. Eu, na época, gostava de Nat King Cole e Ray Charles.

Jornaleco: E como se deu seu primeiro contacto com a televisão?
Silvia Maria: Meu irmão Paulo tinha uma namorada que era amiga da apresentadora Sonia Ribeiro, e falou de mim para ela. Era um programa que chamava Sábado com você, na Record, e a Sonia, através da minha cunhada, me chamou para ir. Eu cantei “A Rita”. Era ao vivo, e no final do programa a Sonia veio até onde eu estava e disse que o Marcos Lázaro havia assistido minha apresentação e queria me contratar. Foi aí que tudo começou. Assinado o contrato, depois de alguma relutância dos meus pais, afinal eu tinha 12 anos, o Marcos falou com o Adylson Godoy que tinha um programa na Excelsior ,o "Boa Tarde Cartaz" e pediu pra ele me ouvir. O Adylson tinha sido diretor musical do Fino da Bossa e, apesar da pouca idade, tinha uma credibilidade musical muito grande. O Adylson me ouviu, e gostou. E eu passei a ser fixa no programa dele. Havia três pessoas que eram fixas: o Gudin, eu e o Milton Nascimento. Além de cantar o Milton tocava contrabaixo. Só que o Adylson achou que eu precisava de um professor de técnica vocal e a escolhida foi a cantora lírica Madalena Lebeis. Estudei técnica vocal com ela durante um ano e meio.

Jornaleco: E depois?
Silvia Maria: Depois eu fui estudar com o Eladio Pérez-González. Tive aulas maravilhosas, espetaculares, de técnica, de interpretação, de postura. E ele sempre teve muito carinho comigo. Devo a ele muita coisa.

Jornaleco: Você não pensou em canto lírico estudando com o Eladio?
Silvia Maria: O Eladio bem que tentou me catequizar, mas eu não gostava, nem ouvia. Na minha cabeça de treze anos funcionava assim: teatro é teatro, não é teatro cantado. E também eu não gostava da emissão, não achava uma emissão natural.

 

"Hoje o que eu vejo e o que se chama de descontração, eu chamo de desleixo"

 

Jornaleco: Não? Porquê?
Silvia Maria: A diferença entre o canto popular e o lírico é a tonalidade. O tipo de tessitura que se utiliza. No canto popular a gente vai do grave pro médio agudo, não pro agudo, embora na música popular se encontre uma ou outra composição que tenha uma extensão um pouco maior. Por exemplo, as músicas do Baden tem duas oitavas. Já no canto lírico você trabalha a voz do médio para o agudo. Nunca na região grave. Porque no grave o volume é pequeno. E a voz não compete em volume com o instrumento. Se você pegar um pianista tocando pra valer mesmo, ele vai encobrir a voz do cantor com toda certeza. E quando você canta na região média para o agudo, tem de utilizar estudos e recursos técnicos para poder atingir essas notas. E os autores de ópera usavam e abusavam dos agudos, principalmente nas vozes femininas.

Jornaleco: Quanto tempo você estudou com o Eladio?
Silvia Maria: Quatro anos. Pra mim era Deus no céu e o Eládio na terra. Além de estudar a parte técnica das músicas com ele, eu estudava também a interpretação. Fizemos várias aulas que não eram de técnica. Eram de compreensão de texto, de compreensão musical. Então eu tive de ler muitas coisas, simular muitas coisas, como se fosse uma aula de teatro. E era. E no meio teatral o Eladio deu aula pra muita gente. Eu cheguei a assistir uma interpretação maravilhosa da Eva Wilma no estúdio dele. Sou imensamente grata ao Eladio. Devo muita coisa a ele.

Jornaleco: Como foi sua ida para a TV Tupi?
Silvia Maria: Eu tinha rescindido o contrato com o Marcos Lázaro e saído da Excelsior. Uma tarde eu acompanhei o Gudin à Tupi, não lembro o que ele ia fazer lá. E o departamento musical ficava numa casa mesmo, separada da emissora numa rua transversal. Nós estávamos lá, nessa casa, sentados na sala, cantando, quando apareceu um homem, olhou para mim e disse assim: "Baixa...Você quer assinar um contrato com a Tupi?” Eu quase desmontei. Era o Fernando Faro. Eu respondi: "Quero, mas eu preciso falar com a minha mãe". Falei e assinei. Desenvolvi uma amizade muito linda com o Faro, que dura até hoje. Naquela época ele era diretor musical da Tupi. Eu peguei uma época muito bacana na Tupi, de musicais. O teleteatro também era excelente. Tinha o Lima Duarte, Sergio Cardoso, Eva Wilma, Natália Thimberg...Foi lá que eu dei uma crescida, porque eu fazia todos os programas da casa. Eu fazia o Móbile, o Ensaio, Edu Bem Acompanhado (que era o Edu Lobo), além dos festivais universitários.

Jornaleco: Nessa época você namorava o Adylson Godoy?
Silvia Maria: Pois é, nesse meio tempo eu comecei namorando o Adylson e acabei me casando com ele. Nós tínhamos um contacto muito grande e desde que eu conheci o Adylson, ele me ajudou muito. Ele foi muito importante na minha carreira. Eu estudava canto, teoria, técnica, e ainda ensaiava com o Adylson diariamente. Três horas por dia, todo dia. Minhas apresentações eram carregadas de muita técnica, sempre eram diferentes, sempre havia um arranjo novo. Um dia, me lembro bem disso, o pai do Adylson me chamou e colocou um disco do Stan Kenton — um pianista e arranjador norte-americano que tinha uma banda de jazz — olhou para mim e começou a perguntar qual instrumento estava tocando. Eu fiquei aturdida. Aí ele me mostrou os timbres dos instrumentos, as suas características, o que era sopro e o que não era. E foi na casa dos Godoy, que eu tive minha introdução ao jazz. Foi a primeira vez que escutei o Thad Jones, que acabou sendo um divisor de águas na minha vida por causa do som da orquestra — o som dele me enlouqueceu — o tipo de acorde, de definição, de distribuição. Então eu ia pra casa do Adylson, colocava o fone de ouvido e ficava horas escutando os novos sons. É preciso registrar que pela casa do Adylson, rua Machado de Assis 267, passou boa parte dos músicos e cantores do eixo Rio-São Paulo. E, a todos, incansavelmente, ele ajudou. A Claudya, o Gudin, e mais um monte de gente. Até mesmo a Elis Regina e o Milton Nacimento. Que dormiam lá. Inclusive o Milton eu conheci lá.

Jornaleco: E o Festival da Venezuela?
Silvia Maria: Era o Festival Internacional Onda Nueva, realizado em Caracas. Eu tinha 17 pra 18 anos e fui com o Zimbo Trio. A música que nós apresentávamos se chamava Heróica, composição do Adylson, que ficou em São Paulo, nem lembro porquê. O idealizador do Festival, Aldemaro Romero, era uma espécie de André Previn da Venezuela. Festival de música, na época, era um troço que tinha muito prestígio. Daí que o Festival de Onda Nueva tinha nomes importantíssimos concorrendo, como Astor Piazolla, Dave Grusin. Durante o Festival o Piazolla fez uma apresentação no auditório da Universidade. Como eu não conhecia a música dele, fui. Eu não esqueço nunca: comecei a ficar tão alucinada com aquele som, aquilo para mim era coisa tão maravilhosa...foi uma paulada...E quando ele solou o Adiós Noniño, eu comecei a chorar de emoção, precisei sair da sala. Saí, me refiz e voltei para assistir ao resto do concerto.

Jornaleco: Como foi entrar no palco pela primeira vez num país estrangeiro?
Silvia Maria: Bom, eu fui com o Zimbro Trio e quem fez os arranjos foi o Cyro Pereira. Musicalmente eu não podia estar melhor amparada. E eu tinha ensaiado muito aqui no Brasil. Mas sempre dá uma certa tensão. Principalmente num festival em que estava presente o Piazolla. Ah! E também estava lá o guitarrista Charlie Bird.

Jornaleco: Paralelamente o Tropicalismo havia estourado no Brasil. Como você via o Tropicalismo?
Silvia Maria: Vou ser bem sincera: eu não curtia. Não curto. Eu curtia o Caetano de Boa Palavra, Avarandado. Mas há uma exceção: Domingo no Parque. Não vejo Domingo no Parque fazendo parte do Tropicalismo. É uma das composições mais lindas que o Gil fez. Ela é um filme. Você fecha os olhos e vê um filme passando. Vê as cores, os personagens. Um filme que não tem imagens, só o som, mas você vê esse filme. Domingo no Parque é uma música totalmente diferente na carreira de compositor do Gil. Acho que ela é única.

Jornaleco: E a sua participação no Festival Internacional da Canção, no Rio?
Silvia Maria: Um dia o André Midani, que era presidente da Philips, minha gravadora na época, me ligou e perguntou se eu gostaria de participar do festival e eu disse que sim. Então ele me mandou uma fita K-7 com a música que eu iria cantar. Só tinha a linha melódica e uma flauta tocando. A letra veio separada. Quando eu vi aquilo, pensei: e agora? Liguei de novo pro André, expliquei que precisava do arranjo, perguntei do autor da música e ele respondeu: Não se preocupe, fala com o arranjador que você está acostumada a trabalhar. Aí eu liguei pro Amilton Godoy, pianista do Zimbro Trio: “dá uma luz aqui pra mim”. A música era do Eumir Deodato que estava nos Estados Unidos, morava lá aliás, e havia estourado com a sua leitura de Strauss para a trilha sonora do filme “2001: uma odisséia no espaço”. Ele tinha uma carreira bonita e sóilida por lá, como compositor e arranjador. O Amilton harmonizou a música, o Luiz Arruda Paes fez o arranjo e quem regeu foi o Leonardo Bruno. Brilhantemente. A música se chamava “Dia de Verão” e com ela ganhei o prêmio de melhor intérprete.

Jornaleco: Continuando...seu primeiro LP?
Silvia Maria: Um ano depois eu troquei de gravadora, fui pra Continental e me casei com o Adylson. E a música que dá título ao meu primeiro disco, chamada “Porte de Rainha”, foi feita pra minha filha Cristiane. Ainda não existia ultrassom, mas quando eu engravidei o Adylson tinha certeza de que seria uma menina. Foi um disco que teve várias coisas boas. Foi a primeira gravação profissional da baterista Lilian Carmona e os arranjos eram do Ciro Pereira. O Casé também gravou. O solo de Molambo é dele. O Casé, naquela época, já era uma lenda do saxofone. Os arranjos de base eram do Adylson e e os arranjos de orquestra do Ciro Pereira.

Jornaleco: E o LP chegou às mãos do Baden?
Silvia Maria: É. O Fernado Faro pegou o disco e levou pro Baden, que ficou alucinado. Ele morava no Rio, mas tinha um apartamento alugado aqui em São Paulo, e foi lá nosso primeiro encontro. Conversamos muito e combinamos fazer um show: o Cantos e Contos.

A primeira parte do show era instrumental: o Baden, o Meira, autor de Molambo e primeiro professor do Baden, e o Dino Sete Cordas. A segunda parte era o Baden e eu.

Jornaleco: Naquela época ouvia-se muita música instrumental: O Zimbo vendia muito, o próprio Baden. E hoje?
Silvia Maria: Hoje ainda existe uma excelente música instrumental, por exemplo o Proveta, a Banda Mantiqueira, Heraldo do Monte, etc. O que ocorre é que eles não têm mais espaço na mídia. O público deles é muito especifico. E os shows são raros. Um final de semana. Eu sou da época que as pessoas ainda se arrumavam para ir ao teatro, assistir um recital de música.

Jornaleco: Você gravou um LP com o Zimbo?
Silvia Maria: Gravei, o Opus Pop. Antes do Porte de Rainha. E foi um disco muito premiado. Particularmente eu gosto muito da música Scherazade.

Jornaleco: Depois do Porte de Rainha veio o Coragem?
Silvia Maria: Com um intervalo bem grande. Em 1972 eu casei e tive um filho atrás do outro. Eu tenho quatro filhos. Então ficava complicado ter, para com a carreira artística, a mesma dedicação de quando eu era solteira. Eu tinha de acompanhar o crescimento de quatro filhos. Então aconteceu o seguinte: a cara do mundo começou a mudar, a cara das coisas começou a mudar, a cara da música começou a mudar. E eu, que era contratada da Continental, entrei em descordo com eles. Porque queriam que eu popularizasse mais o meu trabalho. E, claro, eu não aceitei. Aí, em 1980, o Adylson encontrou na rua um grande amigo de infância, de Bauru, o José Roberto dos Santos, que era um grande amante da música. Ele não era um produtor, nem nada. Mas tinha em seus planos, lançar um selo se tudo desse certo. E perguntou para o Adylson porque eu não estava gravando. O Adylson respondeu: ah, a Silvia é complicada, vai lá falar com ela. Ele veio. E acabou me propondo um disco independente. Eu ainda alertei a ele que eu isso ia sair caro, por causa dos músicos que eu ia escolher, estúdio, etc. O Boca Livre tinha acabado de lançar um disco independente e tinha dado certo. Então o Zé Roberto me disse: “Silvia, não importa o preço,a vamos fazer”. E aí veio o segundo disco, que eu gravei com o grupo Medusa. Os arranjos de base eram do Medusa mesmo e os arranjos de orquestra do Amilson Godoy (Tuca). O Heraldo do Monte tocou nesse disco. Teve uma participação especial do Roberto Sion. E do Baden na faixa Canção das Flores. Era violão e voz. Nesse disco, além do Baden tem música do Claudio Nucci, do Waldir Azevedo. Eu tenho uma história ótima com o Waldir. Eu queria muito gravar o Pedacinhos do Céu. A letra era do Miguel Lima, (posteriormente o Paulo Vanzolini colocou outra letra). Aí eu telefonei pro Waldir, ele morava em Brasília, e me passou pelo telefone mesmo a letra. E pelo telefone eu fui aprendendo a música. O meu contacto com o Waldir, que se resumiu a uns três telefonemas, foi tão maravilhoso, tão delicioso. Nunca conheci o Waldir pessoalmente.

Jornaleco: E a carreira lá fora?
Silvia Maria: Em 1982, já separada do Adylson, eu fui com o Toquinho para a Itália, fizemos a Itália inteira desde a Sicília até Trieste. E um pedaço da Suíça. E eu tive a grata surpresa de ver o Baden, isso em Roma, assistindo ao show. Fiz um show com o Toquinho no Olympia, de Paris e em 1983 fiz para a Rai Uno, de Milão, uma apresentação com o Baden.

Jornaleco: Aí você teve uma fase de parar mesmo não é?
Silvia Maria: É. Eu mudei para Santos, fui dar aulas de canto e tive muitos problemas familiares que me impediram de continuar. Há uns seis anos eu voltei a morar em São Paulo e a retomar a minha vida artística. Em 2004 eu fui dar aulas na ULM — Universidade Livre de Música — e fiquei lá até o fechamento, em 2008.

Silvia, Claudya e Adylson Godoy no show "Eternos Festivais" - 2008

Jornaleco: Ao voltar você se deparou com que tipo de cenário musical aqui?
Silvia Maria: O pior possível. Eu me deparei com o terror que estava acontecendo, principalmente com a música cantada. Antigamente cada um tinha o seu estilo de cantar, a sua maneira, mas eram vozes bonitas, potentes, com uma grande extensão, vozes seguras. E de repente não tem mais nada disso. Então eu ensinei pros meus alunos que a voz é um instrumento como qualquer outro, e como qualquer outro tem de estudar e se aperfeiçoar sempre. Mostrei cantoras maravilhosas para eles: Isaurinha Garcia, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Ângela Maria, Francisco Egidio, Jamelão, Taiguara até mais recentemente Clara Nunes, Márcia. Cantores de primeira linha. Não estou falando de repertório, nem estilo, mas de vozes lindíssimas, de material vocal invejável. O cuidado com que eles cantavam cada nota. E essa era uma época que você tinha de ir lá e cantar. Não dava para gravar uma frase hoje, outra amanhã. Tanto que a maioria dos programas de televisão era ao vivo e o que era gravado não tinha aquele negócio de ficar voltando. Era tudo em fita, e às vezes você tinha de regravar porque a fita sujava e dava tremor na tela. Agora, se houvesse um erro de afinação, de arranjo, ia assim mesmo. Esse negócio de vamos regravar porque eu não cantei bem, não existia. Cantou errado, tivesse cantado bem. Ficava lá registrado. O cantor ou cantora que soltasse uma nota errada, ia pro ar assim mesmo.

Hoje o que eu vejo e o que se chama de descontração, eu chamo de desleixo. E desleixo é uma coisa que não pode existir. Voltar à simplicidade não é regredir, é voltar à naturalidade. E hoje as pessoas estão totalmente supérfluas, não existe profundidade em nada que se faz e isso, é claro, se reflete na arte. Que passa a ser uma arte ruim. E é só o que se tem. Isso tem a ver com a falta de leitura, falta de enxergar as coisas, falta de ouvir, de conversar. Descarta-se coisas importantes para a essência humana. E cai na superficialidade. Hoje uma criança não deita mais na grama olhando as nuvens e imaginando formas. Uma família não mais se reúne para cantar uma música, para ler um poema. Aliás, acho que nem se reúne mais. Fica cada um no seu quarto com sua televisão ligada, seu computador, seu ipod. E isso se reflete em tudo: na literatura, na pintura, na música. Apesar disso, desse cenário, eu comecei a fazer um show ou outro esporadicamente. No Vilaggio Café, no SESC. Comecei a cantar com o Conrado Paulino, esse violonista extraordinário, que eu conheci na ULM. O Laércio de Freitas me chamou para fazer uma apresentação com ele. E eu fiz também um projeto do Adylson, o “Eternos Festivais”, com o próprio Adylson e a Claudya. Depois eu fui chamada para fazer o “Projeto Adoniran” no Memorial da América Latina. Eu fiz com o Conrado Paulino e o show se chamava "Simples Assim". Nesse dia o produtor Thiago Marques Luiz e o DJ Zé Pedro estavam lá. O Thiago eu já conhecia, já havia gravado uma música do Taiguara para um cd (em homenagem ao Taiguara) que ele produziu, e feito uma apresentação num outro show em homenagem ao Assis Valente. O Zé Pedro eu não conhecia. E o Zé gravou o show inteiro e me deu de presente. Uns quatro dias depois o Thiago me liga pedindo para eu entrar em contacto com o Zé no estúdio. E o estúdio que o Zé estava gravando era pertíssimo da minha casa, então eu telefonei e fui lá na hora. Quando eu cheguei o Zé Pedro já estava com uma lista de sete músicas, que ele selecionou no meu show no Memorial, para eu gravar. Levei um susto e topei na hora. O Zé um cara que me disse coisas maravilhosas, que eu nunca vou esquecer. O CD se chama Ave Rara, título de uma música do Edu Lobo que eu canto e saiu pela Joia Moderna.

 


Silvia e Conrado Paulino no show "Ave Rara"
(foto gentilmente cedida por Henrique Garcia)

 

Site Oficial: http://www.reverbnation.com/silviamariabraziliansinger

 

Discografia:

 

Tema do filme "Os deuses e os Mortos" - Ruy Guerra
“Tema da novela Hosptital” (TV Tupi) – 1971
“Tetê” – 1971
“Dia de Verão” - 1972
“Descaso” - 1973
“Lua Branca” - 1976
Lp “Porte de Rainha”- 1973
Lp “Coragem” - 1981 pelo selo “Arte Maior”

Participações especiais nos discos:

”Opus Pop - ZimboTrio e Orquestra - 1972
”Naturalmente” Guilherme Vergueiro- 1980
”Sampa” Homenagem a São Paulo - 1980

"A voz da mulher na obra de Taiguara" - 2009 - Joia Moderna
"Je n'attendais que toi" - participação no cd de Fábio Jorge, 2010

 

2011- selo Joia Moderna
(foto: Henrique Garcia)

 

e-mail: silviamariacamargo@uol.com.br