São Paulo, 1 de agosto de 2007



Sílvio Fiorani

 

 

Investigação sobre Ariel
(dois trechos)

 

 

O diário de Francisco

(anotações remotas)
SP 03/09/1982

A arte serve apenas para lembrar. De quem eu teria ouvido a frase? Onde a teria lido? Parece uma frase proustiana, mas imagino que ela não seja de Proust. No entanto, como ele, penso que o lembrar, quando se fala de arte, será sempre mais dilacerante quanto mais livre for a lembrança, quanto mais o lembrar for um lembrar-por-lembrar. E essa desatenção que é apenas o lembrar-se por lembrar gerou, no caso daquela sua busca do tempo perdido, uma torrente que veio demonstrar, entre tantas coisas, o fato prosaico de que nada acontece por acaso, uma coisa puxa a outra, a vida é assim, o que se há de fazer, como popularmente se diz; veio demonstrar-me o que eu já sabia desde a infância, pois ouvira tais afirmativas no painel narrativo de Otília Rovelli, minha tia, enquanto tecia suas lembranças, recordando por recordar, relatando tudo monocordicamente, sem nada julgar ou selecionar para a posteridade, trazendo até os nossos dias aquela herança que os historiadores tinham por norma descartar segundo o conceito das inutilidades. E pairava sobre tudo a “desatenção” que não pressupunha qualquer juízo, deixando livre de qualquer censura a memória, para que ela assim tecesse o passado como um todo, o texto, que, sem o saber, sem ter consciência das filigranas da literatura, Otília Rovelli tomava, com a grandeza que lhe era peculiar, no seu mais remoto e verdadeiro sentido: o texto: aquilo que se tece. Daí adivinha a importância de seus relatos a respeito das coisas mínimas que, afinal de contas, legariam à minha geração o sentido mais profundo dos fatos familiares. Era assim Otília Rovelli mergulhada em seu passado, bastando um cheiro, uma pequenina menção, um certo sabor que a fizesse lembrar do que havia experimentado muitos anos antes (quando imersa ainda em sua sagrada infância) para que a circunstancia vivida se reavivasse, com o que o ato e o seu entorno eram então recuperados, e ainda o que se havia dito na ocasião, os gestos, as roupas, a temperatura, o murmúrio da folharada no quintal, tudo como antes, mas numa escala nova que ampliava, por assim dizer, a dimensão dos fenômenos, dignificados pelo tempo que havia passado; e também porque, pela própria natureza disso que chamamos “tempo”, os fatos são limitados enquanto os estamos vivendo, aprisionados, parece, pela consciência, enquanto os acontecimentos lembrados não pressupõem limites. Trata-se afinal do edifício imenso da recordação.


A mão e a luva

(o diário de Ariel)

(...)

Foi então que me ocorreu esta insanidade de que te dou conta, a insanidade de me portar como uma espécie de deus provisório que se metesse a mudar as relações do destino, que ajudasse a evitar a fatalidade que se anunciava segundo minha intuição, essa fatalidade chamada Beatriz Gouveia. Que sei eu; o fato é que eu sinto uma felicidade ansiosa e plena de temor, e uma curiosidade nunca antes sentida, por aquela alma feminina que lá dentro de si, eu já fico a imaginar, porta alguma ameaça, alguma causa de descaminho. Então me sobreveio a idéia de exorcizar-me antecipadamente, se isso não é uma impropriedade. E essa idéia me acometeu na forma de um romance que começo a escrever, algo que jamais me havia ocorrido e que logo me fascinou, que foi imaginar um novo destino para mim, um outro para Beatriz e ainda um outro mais para Trajano Gonçalves, como se assim, usando de tal subterfúgio, eu venha a conseguir, de alguma forma, furtar-me à realidade. A nova idéia me faz vibrar interiormente e me impele a preencher páginas e mais páginas para construir um porvir mais aceitável para mim. Dou-me conta, de repente, do quanto vinha sendo infeliz. Talvez esse destino novo venha a mitigar um pouco a minha fome metafísica (ouso chamá-la assim), pois se trata de algo vasto.
Não existe o mundo ideal para pessoas como eu, que parece que nasceram com algum defeito que as impede em absoluto de adaptar-se ao mundo ou conformar-se com o mundo. Sei, no entanto, que, sem esta aventura de escrever um romance inteiramente novo, tudo poderia ser pior.