São Paulo, 1 de agosto de 2007


Entrevista

Sílvio Fiorani

Sílvio Fiorani reside na cidade de São Paulo há cerca de trinta anos, mas continua ligado sentimentalmente à Vista Alegre do Alto, no interior paulista, onde nasceu em 1943. É neto de imigrantes italianos que se estabeleceram como plantadores de café no norte do Estado. As ressonâncias psicológicas e culturais da epopéia da imigração constituem o pano de fundo de seus romances A Herança de Lundstrom e O Evangelho segundo Judas, que, ao lado de Investigação sobre Ariel, compõem uma trilogia sobre a formação do personagem-narrador Francisco Rovelli. Investigação sobre Ariel recebeu o prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional com o melhor romance de 2005. Desde O Sonho de Dom Porfírio, o primeiro romance, Fiorani tem sido elogiado pela crítica pela qualidade de sua prosa. Publicou, também, Os Estandartes de Átila (contos) e os romances A Morte de Natália e Entre os Reinos de Gog e Magog. Em 2006 publicou Os Visitantes da Noite, novela em episódios. Participou, também, de dezenas de antologias publicadas por algumas das principais editoras do país, além de grande número de contos veiculados nos jornais e revistas brasileiros mais importantes. Teve contos publicados na Itália, França, Espanha, Portugal, Taiwan, República Tcheca e Estados Unidos, onde participou da antologia internacional da revista PLOUGHSHARES de 1985, uma das três publicações literárias mais importantes daquele país. Nesse ano, participou também, como escritor convidado, do International Iowa Writing Program.Três de seus contos foram selecionados para a antologia Modern Poetry in Translation, publicada pelo King’s College, da Universidade de Londres, e dedicada à poesia brasileira. Tratando-se dos únicos textos em prosa da antologia, o editor Daniel Weissbort justificou: “Nós incluímos estas três peças de Sílvio Fiorani porque elas nos golpearam não como histórias, mas como poémes en prose no sentido baudeleriano do termo”. Sílvio, atualmente, mora nas imediações da avenida Paulista. É tão sério e meticuloso, no bom sentido, claro, dando uma entrevista quanto escrevendo um romance. Eu diria que ele fez sozinho esta entrevista. O que não é de se espantar. Sílvio é o maior escritor brasileiro vivo e talvez ele nem saiba ainda da sua importância na literatura brasileira.

Mécia Rodrigues

 

Jornaleco: Sílvio, você nasceu no interior do Estado de São Paulo?
Sílvio: Sim. Eu nasci em Vista Alegre do Alto. Na minha infância Vista Alegre era uma cidade em que 90% da população eram de origem italiana, como eu. Meu avô materno, que era do Vêneto, se estabeleceu em Vista Alegre, lá por 1922, logo nos primeiros anos da cidade. Quando eu nasci a cidade tinha cerca de quatro mil habitantes e era uma cidade em decadência, imersa em uma solidão grandiosa. Foi a época de mais uma crise cafeeira, que praticamente paralisou o comércio. Tratava-se de um grande impasse. Aquilo pareceu afetar as pessoas não apenas do ponto de vista econômico, mas do ponto de vista emocional. Desprovida de grandes acontecimentos, a cidade teve, penso, que avançar para o terreno das compensações, exaltando o que a vida tinha de interessante em suas minúcias. Um pequeno circo que, casualmente ali chegasse, gerava, com suas apresentações, por mais modestas que fossem, grande alvoroço. Foi um tempo, me pareceu, pleno de paixões, e eu não fiquei imune a essa atmosfera nostálgica. Era preciso ser criativo, apelar para o drama para fazer frente àquilo. No entanto, aquela estagnação nos dava a liberdade de andar livres pelas ruas praticamente inertes e de desfrutar do campo ao redor. Uma cidade pequena pode não ser boa para os bancos, para o comércio, para as lojas, mas para as crianças pode ser uma espécie de paraíso porque a possibilidade de fantasiar e de pôr em execução as fantasias se torna imensa.

Jornaleco: Uma cidade grande nem te passava pela cabeça?
Sílvio: Jamais. Só quando eu cheguei à adolescência é que comecei a ter um senso crítico maior. Passei a achar uma desonra a minha cidade não ser conhecida, não ter nada que a distinguisse. Vista Alegre nem era município. Um horror. Foi meu irmão mais velho quem liderou o movimento político para que o que era apenas um distrito se tornasse município. E esse meu irmão depois se tornou prefeito da cidade, foi reeleito duas vezes e atualmente é prefeito de novo.

Jornaleco: Você estudou lá?
Sílvio: Eu fiz o primário lá. Já o ginásio não. A cidade, àquela época, tinha só o curso primário. Comecei o ginásio no Colégio Agostiniano de Engenheiro Schmidt, perto de Rio Preto. Aquilo era barra pesada, um ambiente altamente repressivo e degradante. No ano seguinte, fui para Catanduva, onde terminei o ginásio. Iniciei o Clássico em Jaboticabal, mas antes de terminar o curso fui para Ribeirão Preto fazer Química Industrial, que era um curso de nível colegial, mas profissionalizante. Passei quatro anos lá. E, finalmente, vim para São Paulo, para trabalhar como químico e cursar jornalismo. E fiquei. No comecinho foi uma relação meio que de tapas e beijos com a cidade, mas logo me apaixonaria pela vida que aqui se podia viver, com tanta efervescência cultural, tanta agitação.

Jornaleco: Vamos voltar um pouco à sua infância. Em que momento da sua vida você descobriu os livros?
Sílvio: Em janeiro de 1953, quando eu viajei com a minha mãe para uma cidade do oeste de São Paulo: Promissão. A minha irmã mais velha ia ter bebê e fomos para lá. Andando pela cidade, certo dia, eu entrei em uma papelaria — em Vista Alegre não havia papelaria, livraria, nada disso — e vi um livro chamado “Chiquinho fugiu com o Circo”. O autor era Fernando Fortarel. Aí eu pedi dinheiro para minha mãe para comprar o livro, que acabei lendo muitas vezes. A partir daí comecei a comprar livros regularmente. O primeiro impacto mesmo foi esse livro. Já logo no início do ginásio, me encantei com os clássicos brasileiros: José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, Taunay. Iracema, pela sonoridade, me deslumbrou. José de Alencar me deu a noção também de ritmo. Não que eu tenha mentalizado isso já naquela época, mas quando comecei a escrever pra valer, percebi o quanto aquelas velhas leituras estavam sedimentadas em mim. Eu sabia quase de cor a primeira página de Iracema. Também adorava Camões, os poetas românticos, sobretudo Álvares de Azevedo. Eu li em um livro de escola, quando tinha uns doze anos, uma carta que Álvares de Azevedo havia escrito para a irmã. Ele morava em São Paulo e ela no Rio. E ele falava do quanto detestava São Paulo. Havia ainda outras queixas. Achei aquela carta deslumbrante porque falava de uma situação de infelicidade que Álvares Azevedo elevava à condição de um grande drama. Os poetas românticos tinham essa coisa de sofrer e cantar o sofrimento. Como se da felicidade não se pudesse extrair nada que prestasse em termos literários.

Jornaleco: E tinha essa coisa romântica de Álvares de Azevedo ter morrido jovem...
Sílvio: Tinha. E eu achava isso lindo, romântico: morrer jovem. Eu até ficava pensando, na época, se fosse comigo, o que eu faria. Então pensei em deixar uma carta contando tudo o que me aborrecia na vida. E além da carta deixaria na vitrola um disco que se enquadrasse naquela situação. Isso durou pouco, claro, pois eu logo me daria conta do quanto de estupidez havia naquilo tudo.

Jornaleco: Falar em disco tocando na vitrola, que tipo de música você ouvia?
Sílvio: Garoto ainda, eu ouvia os discos de um dos meus irmãos, que já tinha uns vinte e pouos anos. Que era quem ia a todos os bailes, namorava muito, comprava discos. E eu ficava ouvindo esses discos: eram canções americanas, brasileiras. Depois veio a fase de rock, de Elvis Presley, que eu ouvia no rádio. Tinha um programa na rádio Mayrink Veiga chamado" Hoje é Dia de Rock", que eu ouvia sempre, e como queria que a cidade ficasse conhecida, mandei uma carta para a rádio inventando que aquele programa era retransmitido pelos alto-falantes da praça. A partir de então, logo na abertura, o locutor anunciava, entre outras retransmissoras, o serviço de alto-falantes da Praça Pedro II de Vista Alegre do Alto. Era uma maneira, enfim, que eu havia encontrado para tornar Vista Alegre um pouco mais conhecida. Havia programas de rock em rádios do Brasil inteiro, mas o da Mayrink Veiga foi o melhor e o que sempre teve mais audiência. Muitos anos depois “Hoje é Dia de Rock” virou título de uma bela peça teatral de José Vicente, de quem eu fui muito amigo.

Jornaleco: Nessa época você já havia começado a escrever?
Sílvio: Já, mas poesia. Escrevi, escrevi, escrevi, mas não sobrou nada. Sei lá por que eu insistia em poesia. Isso decerto porque eu lia muita poesia. Eu sabia sonetos de Camões de cor, e também de Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Bilac, Fagundes Varela, Vicente de Carvalho.

Jornaleco: E sem ser poesia, você já escrevia outros textos?
Sílvio: Meu pai tinha um armazém de secos e molhados, e no escritório desse armazém tinha uma maquina de escrever e eu aprendi a datilografar nela. Me esforcei por aprender a datilografar animado pelo exemplo de dois de meus irmãos, que escreviam a uma velocidade espantosa e sem olhar para o teclado. Uma vez, meu pai me chamou a atenção para aquele prodígio. Não tanto pela velocidade deles, mas pelo fato prodigioso de não olharem para o teclado. Me senti golpeado em meus brios, e decidi que já era hora de me enveredar por aquela ciência. Com o tempo, consegui, através do velho Méthodo de Dactilographya — pois era mesmo muito antigo — que havia no armazém, a escrever sem olhar para o teclado, mas jamais chegaria à velocidade de meus irmãos, que faziam daquela máquina uma espécie de metralhadora de palavras. Na partilha dos pertences de meu pai, aquela “arma” acabou ficando comigo, e ainda funciona perfeitamente. Naquele mesmo escritório, talvez ainda como exercício de datilografia, acho que eu tinha uns doze anos, peguei um de meus gibis e comecei a passar à máquina uma de suas histórias. Havia sempre o diálogo e a “caixinha” na parte superior dos quadros onde vinha a parte narrativa propriamente dita. Resolvi transformar aquilo já pensando então em me sobressair junto aos meus amigos; mais que todos, o que morava na casa em frente, e que era muito criativo, cheio de idéias mirabolantes sobre como iria no futuro vencer na vida. Os outros meninos concordavam comigo quanto ao fato de que ele tinha “mania de grandeza”. Ao tentar recontar a história do gibi, fui naturalmente alterando a escala dos acontecimentos e mudando para terceira pessoa o que era primeira e vice-versa, embora eu não tivesse aprendido nada sobre discurso direto e indireto; não tinha noção do que fosse. Não me lembro mais da historinha, mas me lembro bem do estupor que aquela minha obra causou em meu vizinho: “Você jura que foi você mesmo quem fez isso?” A incredulidade dele soou como um elogio, mas assim mesmo, anos depois, a forma que escolhi inicialmente para me expressar foi a poesia, e os resultados foram sempre desastrosos. Quando cheguei a São Paulo, depois de me formar como químico, já sabia que aquela não era mesmo a minha praia. Fiz as últimas tentativas, e abandonei de vez essa idéia.

Jornaleco: Não são coisas muito diferentes química e literatura?
Sílvio: Não totalmente. Eu conseguia ver beleza na química. Saber que, se você juntar hidróxido de sódio com um ácido graxo; isto é, misturar soda com gordura, você obtém um sal (pois é esta a categoria) que é o sabão; entender o mecanismo que faz com isso aconteça tem beleza também. Estudar química me deu uma clareza maior de raciocínio sem que eu perdesse o interesse pelo lado estético das coisas. Quando releio um texto meu e nele vejo que consegui a clareza com que pretendia expor uma situação, sinto que isso vem em parte do meu lado mais cartesiano, mais voltado para as chamadas ciências exatas. O romance no sentido que ele tem de epopéia burguesa, é necessariamente analítico, é feito a partir de experimentos e processos estéticos. Talvez por isso eu tenha gostado, naquele tempo, de química analítica. Logo no primeiro dia de aula o professor nos trouxe uma caixa com terra e disse: “Vamos ver o que tem aí”. Durante dois semestres decodificamos, através da química analítica, aquela massa informe; ficamos sabendo sobre todos os elementos químicos de que ela se compunha. No semestre seguinte pesquisamos, pela química quantitativa, quanto de cada um desses elementos havia naquela amostra. Há muita beleza nisso. Com os romances verdadeiros, o romance total, como o chama Ernesto Sábato, acontece algo semelhante.

Jornaleco: Chegando a São Paulo você foi estudar jornalismo?
Sílvio: Fui. Antes eu arrumei um emprego como químico. Mas estudar jornalismo ocupava muito tempo. Então eu larguei o emprego de químico. Mas logo no primeiro ano de jornalismo eu comecei a trabalhar na Gazeta — eu estudava na Cásper Líbero, que era a única faculdade de jornalismo de São Paulo na época. No segundo ano de faculdade, além da Gazeta, eu comecei a trabalhar também no Correio da Manhã. Na sucursal de São Paulo. Isso foi no início de 1968. Nessa época, eu li Brecht de cabo a rabo, e achei que poderia escrever peças de teatro. Tentei e também não consegui escrever um texto que me entusiasmasse. E naquela época, cobrindo o movimento estudantil, eu fui detido três vezes. Detido apenas, não preso. Uma dessas vezes foi na rua Maria Antônia, na célebre ocupação da Maria Antônia pelos alunos da USP. E aí o meu chefe me chamou e me recomendou que tomasse cuidado, essas coisas. De fato, a situação poderia mesmo ficar perigosa, uma vez que eu misturava as minhas atividades. Ao mesmo tempo em que fazia cobertura, eu também participava do movimento estudantil. Por essa época fiz parte do TUCA, o célebre Teatro da Universidade Católica. A faculdade era mantida pela Fundação Cásper Líbero, mas pertencia à PUC. No jornal, eu fui então deslocado para o que se chamava “editoria de variedades”; arte e espetáculos, enfim. Quando veio o AI-5, a situação agravou-se de vez, iniciou-se o período mais negro da Ditadura. E eu achei que estava na hora de dar um tempo. Comecei a juntar um dinheirinho. Pouco mais de um ano depois, fui embora para a Europa. Fui de navio, um velho navio argentino. A passagem era a mais barata que eu havia encontrado. Fiquei, primeiro em Londres, em 1970. Lavei pratos e trabalhei também como garçom em um restaurante. Em seguida, comecei a dar aulas de português para um oficial inglês que viria ser adido militar na embaixada britânica do Brasil. Então, uma amiga minha, que morava lá também, me recomendou à BBC e eu fiz um primeiro artigo, e o editor, que era o Oriel do Vale, gostou e eu passei a escrever regularmente para a rádio sobre assuntos da área de arte e literatura. Até que fui chamado para fazer um teste de locução. Bem entendido, tratava-se da seção brasileira da rádio. Fui bem no teste, e fiquei aguardando que me chamassem. Mas era dezembro já, e eu estava há meses sem ver o sol. Estava deprimido com aquilo. Então fui para Israel trabalhar num kibutz, numa cidade chamada Bet Shan, perto do mar da Galiléia. Lá, lavei pratos de novo, trabalhei em plantações de tâmara e de grapefruit, ajudei a encaixotar perus vivos. Às vezes o trabalho era muito árduo, mas como éramos o que eu poderia chamar de de colonos visitantes, tínhamos a regalia de poder deixar o trabalho ainda no meio da tarde. Falo no plural porque, havia ali, na mesma situação, americanos, ingleses e canadenses na mesma situação. Me lembro que íamos a pé a Bet Shan para certas compras ou tomar sorvete. Às vezes passávamos a tarde ali mesmo. Havia um gramado voltado para o vale de Jeezrael, de onde víamos o Rio Jordão e, para além do rio, as montanhas da Jordânia, onde havia, eventualmente, combates entre o exército do rei Houssein e guerrilheiros palestinos. Houssein havia traído a causa palestina e assinado um acordo com Israel que provocara aquele conflito de que fomos testemunhas. Essa minha ida a Israel teve a ver também com a curiosidade de saber a situação dos palestinos no país. Sou, desde os tempos de estudante, simpatizante da causa palestina. Pude ver, então, de perto a dura situação deles, ainda que eu soubesse de antemão o que iria encontrar lá. Em seguida, fui para a Itália. De lá, viajei de carona até Paris, passando pela Suíça e Alemanha. No final do inverno, voltei a Londres. Já não tinha então disposição para voltar a trabalhar ali, e o ócio acabou por favorecer a imaginação. Me ocorreram então as primeiras idéias sobre ficção. Quando comecei a tentar os primeiros esboços, achei que já estava na hora de voltar pra casa. Eu havia saído do Brasil sob o impacto do chamado “realismo mágico”, pelos textos de Borges, Cortázar, Alejo Carpentier, García Márquez. Eles me libertaram do realismo clássico, que eu havia julgado equivocadamente que haveria de ser a minha forma de expressão literária, a única possibilidade que eu tinha pela frente para poder contar histórias.

Jornaleco: Começaram então os contos?
Sílvio: As tentativas. Eu ainda não sabia precisamente como tratar a matéria de ficção, o processo que faz com que a história mais absurda possa parecer lógica ao leitor. A questão é conseguir expressar a verdade intrínseca da história que se quer contar. Se você isola certos trechos de “Cem Anos de Solidão”, o que se passa ali em termos ficcionais pode não fazer sentido, mas, dentro do universo que García Márquez criou para nele situar o romance, há uma realidade peculiar em que o que é narrado faz sentido, é verossímil, apesar de suas escalas não terem nada a ver com o mundo real, a vida verdadeiramente vivida. Quando eu ainda estava no navio, indo para Londres, eu tinha ouvido uma história de amor contada por uma Argentina que estava a caminho de Vigo, na Espanha. Ela havia-se apaixonado por um rapaz, estava para ficar noiva dele, quando descobriu que a sua identidade era falsa, sua profissão não era a que ele havia declarado, e por aí afora. O rapaz havia feito o diabo com a história de sua vida para conquistar a moça. Ela rompeu com ele, apesar de amá-lo muito, e embora ele lhe tivesse suplicado que não rompesse com ele. Quando voltei de Londres, esse foi o tema da primeira história que eu escrevi. Os outros esboços eu havia jogado fora. O que mais me motivou foi o fato de a heroína ter-se apaixonado por um personagem e não pelo rapaz real que, no último encontro entre os dois, jurou que a amava muito, no que ela acreditou. O comum é apaixonarmos pelo outro por inteiro, corpo e espírito, e daí pode advir o perdão. Ela, no entanto, rompeu essa suposta lógica.


Cásper Líbero, 1968

Jornaleco: E de volta a São Paulo, você recomeçou a trabalhar como jornalista?
Sílvio: Isso. Ao mesmo tempo em que procurava dar uma forma literária àquela história ouvida no navio. E comecei também a escrever meu primeiro romance, “O sonho de Dom Porfírio”. Recebi por ele menção honrosa do Prêmio Governador do Estado para textos inéditos. Depois disso, reescrevi texto muitas vezes, e ele acabou sendo publicado em 1978. Um pouco antes eu já tinha começado a publicar histórias curtas no Movimento, na Ficção, na Escrita, enfim, nas publicações da década de 70. Depois saiu o meu primeiro livro de contos: “Os estandartes de Átila”, que já estava publicado quase inteiro em jornais, revistas, suplementos literários.

Jornaleco: Do primeiro para o segundo livro, o que mudou?
Sílvio: Acho que não mudou muita coisa não. A virada foi em “A herança de Lundstrom”, que é o primeiro da trilogia que continua em “O evangelho segundo Judas” e termina com “Investigação sobre Ariel”. Em “Os Estandartes de Átila”, já havia um conto em que pela primeira vez aparecia o personagem em primeira pessoa que serie mais tarde o meu narrador principal, meu alter ego. Nesse conto, “Ponto Difícil, Malha Intrincada”, já aparecem indícios dos conflitos que mais tarde eu desenvolveria no “Lundstrom” e no “Evangelho segundo Judas”. Esse personagem narrador tinha, já no início, uma voz convincente, consistente, uma maneira analítica de narrar que me agradava. Parecia falar como que por si mesmo, e pertencia a uma família de produtores de café que havia passado pelas crises cíclicas da agricultura, à semelhança de minha família materna. E aquilo para mim foi fatal. Quando eu comecei a escrever “A Herança de Lundstrom”, eu já estava meio que sob o “comando” dessa voz interior, desse personagem a que dei, intempestivamente, o nome de Francisco Rovelli, criador e criatura ao mesmo tempo, esse tipo de jogo que me agrada muito e que produz o conflito que dá origem e sustentação ao romance. Francisco escreve, na verdade, os livros que eu gostaria de ler. Ele facilita minha interlocução com o leitor. Não é o meu ego, mas alguém que habita o meu Eu, algo que tenho a pretensão de que tangencie o Eu profundo, aquilo que Jung chama de Self, e que o Apóstolo Paulo chamou de Espírito, com letra maiúscula. Estamos então falando de algo que se cria em um estado de meditação. Concentrar-se para escrever algo estético, e que tem a ver mais com a alma que com os cinco sentidos, é um estado que se assemelha ao da meditação. Tenho uma tendência a ver a arte de um ponto de vista religioso. Diria até que a literatura para mim é uma espécie de apostolado.

Jornaleco: Entre seu livro atual, Investigação sobre Ariel, e os anteriores, mudou alguma coisa?
Sílvio: Mais reflexão e menos análise. Não que o “Ariel” não contenha análises, porque quase todo romance é analítico. Mas foi um processo pelo qual eu tive que passar, senão não escreveria os períodos longos que vieram. Porque quando você faz uma reflexão, você dá mais voz à sua interioridade e, na verdade, ela vem em forma de pensamento. E o pensamento não vem assim, picadinho. Existe sempre na narrativa, como no pensamento, uma relação de causalidade. Você vai escrevendo e percebendo que um determinado fato dá origem a uma reflexão que remete a outros fatos, e assim os períodos e a reflexão tendem a se estender, o período não pode mais ser pequeno, o parágrafo cresce. Então essa foi a diferença entre um livro e outro. Mas não se trata da reflexão feita só de idéias, mas a reflexão feita a partir da história que o escritor está contando. Não sei se me explico bem, não se trata de tese, mas de verdades que se revelam a partir dos fatos narrados. Se um leitor pensa que dentro do romance não existem senão teses, ele nem vai pegar o livro. O que ele tem que saber é que há ali histórias. As teses ou análises virão sem que o leitor se dê conta. Há sempre a busca de uma verdade e essa verdade não é passada ao leitor por um meio lógico, mas por impregnação. Quando li “Crime e Castigo”, eu me perguntei: como pude ter ignorado por tanto tempo esse romance? Antes de ler o romance eu era espiritualmente mais pobre. “Crime e Castigo” me fez um pessoa diferente, mas eu não sei racionalmente porque isso aconteceu. No Ariel há uma reflexão sobre o papel da literatura: o que é o romance? Para quem o escritor escreve? Por que escreve?

Jornaleco: Qual foi a repercussão do Osman Lins, do romance Avalovara, na sua obra?
Sílvio: De uma certa maneira, “Avalovara”, do Osman Lins, me tirou o medo de me aventurar para além da narrativa linear. Há ali a demonstração de que é possível criar uma estrutura rigorosa sem perder o sentido estético da obra. A limpeza da linguagem, a exatidão vernacular joga certo com a linguagem poética. “Avalovara” contribuiu para que eu começasse a perceber um lado meu que eu não conhecia: o de escrever com consciência; ser artista na hora de escrever, mas domar essa fera que é a arte, para evitar as rebarbas, a terminologia inútil. Ainda que subjetivamente, não racionalmente, do ponto vista da arte quero dizer, tudo tem que ter um sentido. A concentração, já de início, a busca da linguagem estética, já impede que o escritor entre no campo das gratuidades. Osman foi importante nesse sentido. O parentesco que temos é esse. Me considero mais barroco, mais proustiano.

Jornaleco: E Proust, o que representa pra você?
Sílvio: Tive uma leitura inicial de Proust, mas eu não estava então totalmente preparado para absorvê-lo como o absorveria muitos anos depois. Relendo Proust, a partir do início dos anos 80, eu comecei a passar por uma revolução interior. Com ele eu compreendi a verdadeira extensão do romance não apenas como arte, mas como introspecção. O que me entusiasma e encanta em Proust é a sua capacidade de dissecar e dar nome aos sentimentos. Mas, mais que isso, o uso da memória para a recuperação do significado mais íntimo dos fatos vividos, para a re-elaboração do tempo passado e seu uso na compreensão daquilo que o tempo presente impede que seja compreendido. O presente é o tempo em que vivemos. Estamos dentro dele assolados pela nossa consciência. Só na recuperação do tempo pela memória é que podemos ver por inteiro aquilo que já vivemos. Para isso não há melhor instrumento que o romance. Proust fez isso com genialidade.

Jornaleco: Você acha que essa influência aparece em seus livros?
Sílvio: Eu acho que sim. Mas não penso, claro, em Proust quando escrevo, isso seria um absurdo. E também nunca pensei: puxa, vou escrever assim. O que quero deixar bem claro é que Proust me sensibilizou a ponto de eu descobrir em mim algo tão característico meu quanto minhas impressões digitais: o meu discurso literário mais interior, a minha linguagem mais íntima. Isso me ficou mais claro a partir de “O Evangelho segundo Judas” e se acentuou no “Ariel”. E, surpreendentemente, não obstante sua complexidade, Investigação sobre Ariel foi o meu livro que provocou reações as mais calorosas de leitores e da crítica. Wilson Martins, que acompanha meu trabalho desde o início da trilogia, e é um crítico agudo e sensível, o mais importante que temos, mencionou as reverberações proustianas presentes no que escrevo, salientando que não se trata de imitação ou repetição, mas de impregnação, de consangüinidade intelectual. É isso o que melhor define a minha relação com Proust. Assino embaixo. E sobre a complexidade do livro, isso pode deixar transparecer que ele seja difícil, mas complexidade não é sinônimo de dificuldade. A estrutura complexa do “Ariel” destina-se a dar uma estrutura clara ao livro e facilitar sua compreensão. Lutei, desde o início, para que tudo ali ficasse claro, as idéias, os conflitos, tudo.

Jornaleco: E sobre a forte presença de Lawrence Durrell, o que você tem a dizer?
Sílvio: Primeiro, Durrell sempre reconheceu a influência de Proust em sua obra, essa espécie de paternidade. Temos, pois, esse parentesco literário. Como em Proust, há em Durrell o mesmo extremo comprometimento entre a vida de escritor e a obra, a mesma entrega, que em Proust chega a ser trágica, e isso sempre me encantou muito. Lendo Durrell, eu passei não a querer escrever como ele, mas a querer ser um escritor como ele, vitimado, como ele sempre foi, pelos próprios personagens. Em suas histórias, Durrell se recria como escritor para poder criar seus personagens. Acho que essa é uma suas maiores qualidades. Ele, em suas entrevistas, não conseguia falar de si como pessoa, mas quase somente como escritor, parecendo sempre um dos personagens de seus livros. Isso me comoveu muito. E a empatia que tenho com ele talvez me tenha feito vê-lo mais como um personagem do que como escritor. Durante o período em que escrevi o “Ariel”, fui impactado pela leitura do “Quinteto de Avignon”, sua obra final, sobretudo pelo volume inicial, “O Príncipe das Trevas”, em que ele cria personagens que criam outros personagens que, por sua vez, escrevem sobre seus criadores. Trata-se, o conjunto desses livros, de um monumento de criatividade, pleno de achados literários.

Jornaleco: quanto tempo você demorou para escrever Investigação sobre Ariel?
Sílvio: Sete anos. Se eu somar os vários períodos em que trabalhei nele.

Jornaleco: Fale um pouco sobre o livro.
Sílvio: Investigação sobre Ariel tem um fato que para mim é uma constante: o mistério dos suicidas. O suicídio. No “Lundstrom”, há o suicídio do tio de Francisco Rovelli. No “Evangelho segundo Judas”, há o suicídio do personagem Raul Kreisker, sem falar no suposto suicídio do apóstolo Judas. No “Ariel”, fala-se no suicídio de Raul Pompéia e a repetição do ato pelo personagem Ariel Alvarenga. A minha literatura, desde o “Lundstrom”, está permeada pelas questões existenciais. Não me animo a escrever a não ser a partir dessa perspectiva. Quando li pela primeira vez “O Ateneu” e soube da história do Raul Pompéia, me senti golpeado pelas condições em que se deu a sua morte. O termo “investigação”, do título do romance, tem a ver com a procura das razões existenciais que poderiam ter levado Ariel a matar-se, ainda que esse suicídio seja questionado pelo narrador principal, uma vez que ele trabalha também com a possibilidade de que tenha ocorrido na verdade um crime passional. A idéia de situar a morte de Ariel no mesmo dia da morte de Pompéia, ocorrida um ano antes, me ocorreu a partir do que se passou com Horácio Quiroga, com relação ao poeta Leopoldo Lugones, que suicidara-se em 1936. No velório de Lugones, Quiroga confessa a um amigo que estava chocado não só pela morte em si de Lugones, mas também pela maneira escolhida para suicidar-se, que era, segundo ele, como costumavam suicidar-se as empregadas domésticas, ingerindo cianureto. Um ano depois, no mesmo dia, Quiroga suicidou-se de maneira idêntica.

Jornaleco: Você pesquisou muito sobre Raul Pompéia. Você acredita que ele tenha se matado por quê?
Sílvio: Acredito que tenha sido por causa de sua fragilidade emocional. Ele havia feito sucesso com “O Ateneu”, que foi publicado, inicialmente, como folhetim, na Gazeta de Notícias, o jornal mais importante do Rio na época. Era culto, jornalista conceituadíssimo, tinha notoriedade política e social. Tinha aparentemente tudo o que um jovem poderia desejar para sentir-se invejado. Mas era muito fechado em si mesmo, como se estivesse, segundo o testemunho de contemporâneos, ruminando alguma profunda infelicidade. Pouco antes de sua morte foi alvo, através da imprensa, de ataques de Olavo Bilac, que discordava dele politicamente, e de Luís Murat, que o atacou moralmente, ferindo-o em sua masculinidade. Mas esses conflitos podem ter favorecido mas não determinado o seu suicídio.

Jornaleco: Voltando a Investigação sobre Ariel, há nele três triângulos amorosos, e parece que parte do Evangelho segundo Judas foi deslocada para o novo livro.
Sílvio: Eu precisei recompor o triângulo amoroso do “Judas” para que o novo romance pudesse ser mais compreensível, para que ele pudesse ser autônomo e não dependente da leitura do Judas para ser entendido.

Jornaleco: A estrutura definitiva de Investigação sobre Ariel apareceu quando?
Sílvio: Havia inicialmente apenas a idéia de um suicida que imita o gesto de Raul Pompéia, um ano depois, no mesmo dia. Mas esse fato, distante no tempo e na geografia, eu já tinha noção, não moveria a minha história por si mesmo. Me considero um escritor, já devo ter dito, existencialista, e preciso que o tema esteja introjetado em mim, que pareça uma infelicidade minha, isto é uma infelicidade de meu alter ego, uma infelicidade minha por tabela. Assim, a história de Ariel acabou ancorada na vida de Francisco Rovelli, o meu personagem em primeira pessoa. Aí tudo começou a fazer sentido para mim, o porquê da questão do suicídio, a razão dos dilemas existenciais de Ariel etc, etc, etc. E também a vida de Francisco tinha antecedentes que explicavam o seu interesse pelo drama de Ariel, e esses antecedentes estavam no “Judas”. Tive então que resgatar certos incidentes do livro anterior, para que os conflitos do novo romance ficassem mais claros. Continuava assim a superposição dos triângulos amorosos. Havia o triângulo Francisco/Adriana/Raul, que é resgatado no “Ariel”, e há os triângulos em abismo do novo romance, com Ariel/Beatriz/Trajano e Luís Garcia/Camila/Agostinho, do romance que Ariel estava escrevendo ao morrer, sem falar na trinca de narradores: Francisco/Castor/Dédalo, ou até mesmo Francisco/Júlia/Dédalo. Essas superposições triangulares foram espontâneas desde o início, ainda no “Judas”. Lá havia a relação de amizade entre Francisco, Adriana, sua prima, e Raul Kreisker, que já havia se suicidado quando o livro começa, e que se torna personagem a partir das lembranças de Francisco e Adriana. Essa relação acaba por ser passional no fim de tudo, e a inconformação diante da morte de Raul, leva Francisco e Adriana a um vidente ao qual eu dei o nome de Piero Carlisi, nome que logo me pareceu incompleto, e isso era pura intuição. A idéia que me veio então foi a de folhear ao acaso um livro de Buzzatti que eu havia lido recentemente, e numa página qualquer achei o personagem Endríade. Piero Endríade Carlisi acabou sendo o nome completo do tal vidente. Não demorou e eu percebi que dentro do nome Endríade havia as mesmas letras de Ariadne, tratava-se de um anagrama, e esse anagrama, por sua vez, era quase um anagrama perfeito para Adriana. Nada acontece por acaso segundo Jung. Por essa via, descobri que eu havia caminhado sobre os arquétipos do labirinto, com o acréscimo da quarta figura, Dédalo, construtor do cárcere habitado pelo Minotauro. Pude então estabelecer a relação Teseu/Francisco, Adriana/Ariadne, Raul/Minotauro, com Dédalo pairando como o criador da trama toda, o labirinto da memória e da criação romanesca. Daí os novelos que se desenrolam nos planos narrativos de Anotações de Dédalo e O Fio de Ariadne, nas historias que compõem o “Ariel”. Depois de dar base a Raul Kreisker já no “Judas”, o Minotauro renasce em Ariel e em Agostinho.


Moranga, maçã e tigela
guache, 1978

Jornaleco: Aquele quadro ali, naquela parede, tem a sua assinatura. Você pinta também?
Sílvio: Não. Acontece que eu vivi, quando morava no Sumaré, em uma casa contígua à da Yolanda Mohalyi, possivelmente a maior pintora abstrata que o Brasil já teve. Não fiquei imune à sua presença em minha vida. Uma vez ela me disse, respondendo à uma pergunta minha, que a abstração era a realização, ou a fixação numa tela, de uma idéia anterior, preconcebida. No seu caso, pintar era reproduzir a atmosfera previamente imaginada. Esse entendimento da pintura me surpreendeu a ponto de eu imaginar que, se fosse pintor, faria as coisas do mesmo jeito. Através de Yolanda eu passei a entender, acompanhando-a em seu trabalho, como se passava o processo de criação do artista plástico. Com isso eu me apaixonei também por artes plásticas, o que me levou ao diletantismo de, eventualmente, pintar alguma coisa. Mas, repito, é puramente diletantismo. Que faço de uma maneira bem esporádica, sem nenhuma pretensão.

Jornaleco: Me diz quais são as maiores obras da literatura brasileira?
Sílvio: “O Ateneu”, “Triste fim de Policarpo Quaresma”, “Fronteira”, de Cornélio Pena, “Angústia”, de Graciliano, “Memórias de um Sargento de Milícias”, “Grande Sertão-Veredas”, “Crônica do Valente Parintins”, de Ewelson Soares Pinto, publicado em 1976. Não são necessariamente os que eu mais gosto. Não se trata de gosto pessoal, mas da importância de cada um desses romances. Gosto muito também dos contos de João Alphonsus, injustamente esquecido. Se tivesse que responder à surrada pergunta sobre qual deles eu levaria para uma ilha deserta eu escolheria o livro do Ewelson, que morreu há uns dez anos e de quem fui amigo. O “Parintins” é seguramente o mais grave caso entre as obras desconhecidas da literatura brasileira. É um catatau de 800 páginas em que se relata, brilhantemente, a história de um pretenso jogador de futebol. Os poucos exemplares que encontrei em sebos eu comprei para presentear amigos.

Jornaleco: Há algum livro que tenha impressionado você recentemente?
Sílvio: Ficção eu tenho lido muito pouco porque estou mergulhado, pela primeira vez, num projeto de livro não ficcional, embora esteja sendo escrito como texto literário. Por isso tenho lido quase somente teologia e filosofia. Entre as exceções está o livro de Humberto Mariotti publicado recentemente. Chama-se “Antigamente era janeiro”. É um romance que tem estilo, e é admiravelmente bem realizado.

Jornaleco: O que você está escrevendo agora?
Sílvio: O título é “A Flor e a Erva”, e vem de uma frase da Epístola de Tiago. Trata-se de um produto tardio de minha reconversão ao cristianismo, que aconteceu durante uma crise existencial, quando eu estava em Iowa, em 1985, participando de um programa de convívio com escritores. Entre eles estava Orhan Pamuk, prêmio nobel de 2006.


Sílvio Fiorani e Orhan Pamuk, em Iowa, 1985.

Jornaleco: Quais os antecedentes dessa sua reconversão?
Sílvio: Antes disso eu havia feito planos de um dia ir para a Índia porque, desde os anos 70, estava achando que a única religião que haveria de me preencher espiritualmente seria o hinduísmo. As concepções de Braman e Atman, de Deus e da imanência de Deus no homem, foram as primeiras que me pareceram assimiláveis. Isso para ser bem simples. O fato é que eu vinha de uma sucessão de leituras que me haviam iluminado, incluindo Rajneesh, Krishnamurti e outros. Mas a Índia é muito vasta e variada, o hinduísmo havia trilhado vários caminhos, e eu fiquei meio perdido; até que em 1989, de novo em Londres, tomei conhecimento da obra do padre Bede Griffiths, monge beneditino, fundador de um ashram cristão perto de Madras, e que me revelou a identidade entre cristianismo e hinduísmo, fundamentalmente a partir da concepção de Deus como o Pai revelado por Jesus, Braman se você preferir, e a concepção de Espírito, esmiuçada pelo apóstolo Paulo, para mim a mesma concepção de Atman como imanência do divino no homem. Expresso aqui essa questão com um inevitável reducionismo. A questão é mais complexa. O fato é que, apesar dos textos de Paulo e de João, a consciência dos que se autodenominam cristãos continua contaminada pela figura de Javé, um deus punitivo, discricionário, severo, exterior à existência do homem e que elege um povo em detrimento dos demais. O Pai comporta uma concepção libertária no sentido em que confere ao homem verdadeiramente o livre arbítrio e o primado da consciência. A seqüência delito, arrependimento, pedão e redenção é o fundamento do cristianismo, trata-se um proposta revolucionária. A idéia do Pai não penetrou a consciência das pessoas, pois elas continuam a mentalizar a figura de Deus como aquele homem maduro e musculoso da Capela Sixtina. Esta é uma das questões básicas para mim, mas o cristianismo comporta outras discussões sobre dogmas, política, doutrina social. É também sobre isso que quero escrever, estou já escrevendo, uma tarefa que não sei se verdadeiramente conseguirei levar a termo.

Jornaleco: Como foi a sua convivência com outros escritores, ao longo da sua trajetória na literatura? Havia ciumeiras, competição?
Sílvio: Desde o começo sempre foram as melhores possíveis. Nada de perfeição, claro, mas sem grandes tumultos. Sempre fui muito amigo do Roniwalter Jatobá, que é meu compadre, da Márcia Denser, do Caio Fernando Abreu, Júlio César Monteiro Martins, Humberto Mariotti. Eles, como eu, fizeram parte da geração; melhor, fazem parte, da geração que surgiu no final dos anos 70. Foram as primeiras amizades que fiz no meio literário. Depois participei de outros grupos mais diversificados, em que havia escritores, artistas plásticos, jornalistas. Havia destemperos, lógico. E também não éramos humildes. Quem não quer brilhar num momento como esse. Agora, de brigas ou ciumeiras literárias eu jamais participei. Havia discussões sobre a maneira como cada um achava que fosse a função da literatura, essas coisas. Ao calor do vinho e do uísque, o que era apenas questão de estilo virava motivo para bate-boca, mas não havia nada pessoal. Sempre tive em mente que cada pessoa escreve para um tipo de público, não existe ninguém melhor do que ninguém, não pode haver competição entre coisas tão diferentes entre si como os estilos literários. E eu sempre quis que os meus contemporâneos, aqueles com os quais eu comecei, com quem convivi, fizessem muito sucesso, para eu poder dizer em casa: “olha, aquele cara ali é meu amigo”. Quando estava escrevendo “O Evangelho segundo Judas”, eu ainda morava no Sumaré, na chamada “encosta do canal quatro”, na rua Juazeiro, uma rua linda, e a casa tinha um estar enorme. Houve muita festa ali, do tipo portas abertas, muita música, bebidas que as pessoas traziam debaixo do braço, comidinhas variadas que também traziam; enfim, uma informalidade e uma misturada que hoje eu não encararia certamente. Nem é possível, hoje, essa política social, entre aspas, de portas abertas. Nesse período, escrevi, entre outros livros, “O Evangelho segundo Judas”, ao mesmo tempo em que Márcia Denser já estava escrevendo o romance “Caim”. Tivemos, então, uma troca intensa de experiências, leituras mútuas que se estendiam madrugadas afora, o que fez com que certos personagens acabassem apeando de um texto pra embarcar no outro. A presença do Mariotti em minha casa também foi importante. Ele me trazia contribuições para o que eu estava escrevendo. Me trazia livros que eu não teria lido se não fosse pela contribuição dele. O existencialismo foi um tema constante de nossas conversas. Havia, nessas conversações intermináveis, a presença também constante de duas pessoas que não eram da área de literatura, mas estavam abertas àquele fenômeno, e eram grandes leitores. Era o arquiteto e artista plástico Fábio Hanna, com quem eu dividia a casa, e Dulce dos Santos, estudiosa de filosofia, pertencente ao “núcleo duro” da Rua Juazeiro, e que chegou a morar também na casa por algum tempo. Um dia o Mariotti me trouxe “A Semente de Mostarda”, do Rajneesh, que trouxe a primeira idéia aceitável de Deus, provocando-me um revolução interior cuja conseqüência seria o que agora chamo de minha “reconversão” ao cristianismo. Concomitantemente, as festas também se sucediam, não só na Juazeiro mas em casas de amigos também. Aconteceu, então, que os anos se passaram e aquele clima festivo foi serenando e os jantares, as reuniões mais restritas, substituíram aquela agitação toda. Nos anos 80, mais ou menos nos meados, é que surgiu um grupo definitivo, e que resiste até hoje. Havia o Ricardo Ramos e a Julieta de Godoy Ladeira, ambos já falecidos. Dele fazem parte, hoje, Roni Jatobá, Ruth Rocha, Lygia Fagundes Telles, Anna Flora, Anna Maria Martins, Sérgio Telles, Mirna Pinsky, Zé Rodrix, Fábio Lucas, e as pessoas que se juntaram a nós por afinidades familiares ou de amizade.

Jornaleco: Quantas horas por dia você trabalha?
Sílvio: Eu chego a trabalhar 10 horas por dia quando estou finalizando um livro. Das 8.30h ao meio-dia, depois do almoço dou uma descansada, volto e vou até o anoitecer.

A escrita de Sílvio Fiorani:

A flor e a erva (abertura - livro que está sendo escrito)
Estigma (conto)
Investigação sobre Ariel (trecho)
O evangelho segundo Judas (trecho)

 

e-mail: sfiorani@uol.com.br