São Paulo, 1 de agosto de 2007
Sílvio Fiorani
O Evangelho segundo Judas
—trecho—
(pg 49)(...)
Foi a época em que mais uma crise cafeeira abatera-se sobre o lugar, reduzindo o movimento da rua Engenheiro Lundstrom ao mínimo indispensável a que não houvesse a fatal extinção de seu comércio e de tudo o mais, como se os que tinham vindo para ali logo no início tivessem vindo para nada, o que pode ter sido talvez o segredo mais recôndito da resistência sem limites de alguns àquela depressão econômica que passava por ser a mais impiedosa de todos os tempos. E, segundo o que posso lembrar, esse parece ter sido o período do qual as pessoas costumavam guardar, contraditoriamente, as melhores lembranças: um momento em que a cidade se viu com ela mesma e o seu próprio destino em perigo, necessitando por isso, é possível, exaltar o restante de suas fibras, aquela parte final de antigos sonhos pessoais que corriam o risco afinal de jamais serem realizados. Havendo-se consigo mesma, como se estivesse em seus últimos dias, sem estar a reboque de nada, a cidade se ateve, acho que seria justo dizer, aos seus fundamentos emocionais, alguma coisa assim, agravando-os, elevando-os ao paroxismo, elevando ao paroxismo também a sua ligação nostálgica com um passado de projetos e aspirações. No entanto, ainda que na iminência de um desastre que acabou por não se verificar (houve em seguida o necessário renascimento), a vida então possível foi marcada pelo encanto das exacerbações: por amores trágicos, por relações familiares particularmente tempestuosas, pelas comoções que as eventuais mortes causavam, pelo júbilo dos nascimentos (a vida continuava o seu curso, afinal), pela renovada fé a marcar os atos religiosos, pela intensa comoção que a série de filmes estrelada por Yvonne Sanson e Amedeo Nazzari causou, pela fidelidade irrestrita que se devotou ao pranteado e aparentemente interminável drama radiofônico de O Direito de Nascer, um original de Félix Caignet, pelo arrebatamento poético que acometia os cidadãos no momento (uma da tarde, a hora mais escaldante e desoladora) em que era levada ao ar a Crônica da Cidade. Foi, em todos os sentidos, um tempo pleno de paixões.(...)