São Paulo, 1 de agosto de 2007
Sílvio Fiorani
Estigma
(conto)
A velha casa de meu pai. Tudo ali parecia então ter sido feito para ser eterno; a infância mesmo assemelhava-se (enquanto a vivíamos, claro) à eternidade, um mundo com suas próprias leis, protegido por um muro alto, indevassável. Havia o terraço lateral e comprido, posto de observação da rua Engenheiro Lundstrom, a rua principal, de onde, apoiado no parapeito, eu via muito caminhão de mudança passar. Era a crise, eu ouvia dizer; a crise, para mim então uma espécie de estigma. A mesma coisa estava acontecendo nas cidades ao redor. Muitas famílias de nossas relações estavam indo embora, e Ouriçanga tornava-se pouco a pouco um lugar solitário e amplo. Mas havia os que se dispunham a resistir, apesar das vicissitudes; talvez por terem mais apego a esse ato de entrega ou transmissão que é a tradição das famílias; e por terem também mais esperanças, talvez; e podiam resistir porque as outras famílias criavam coragem e partiam, restando assim um mínimo que fosse para ser compartilhado; se o que digo não é uma impropriedade.
Na casa de esquina, o meu pai resistiu. Ele e minha mãe ocupavam o quarto maior. Andando pelo corredor, havia mais dois quartos amplos. O primeiro foi inicialmente ocupado pelas minhas duas irmãs, mas quando elas se casaram o cômodo ficou reservado aos hóspedes, que se resumiram quase sempre numa só pessoa, o tio Afonso, e isto depois de ele aposentar-se e dissipar inteiramente o produto da venda do quinto de terras que lhe coubera na divisão do espólio de meu avô. Ele passava cerca de três meses todo ano em nossa casa. Três meses de conspiração, eu ouvia meu pai dizer com outras palavras, meio brincando, meio a sério, mas sem mostrar-se contrafeito. Gostava ele também de meu tio.
Minha mãe e tio Afonso continuavam muito ligados, conversavam muito; não raro, através de uma linguagem apenas insinuada que eu pouco entendia, mesmo prestando uma atenção enorme. Acho que ela havia desenvolvido um certo sentimento maternal com relação a ele, por ser o irmão mais novo e continuar solteiro. Dava-lhe conselhos e desenvolvia uma campanha permanente para que viesse morar definitivamente em Ouriçanga. Não podia compreender por que insistia em continuar em São Paulo, enfrentando as adversidades naturais de uma cidade tão grande, tão cara, tão cheia de riscos, segundo ela.
O último quarto, que, com os casamentos de Benito, Daniel e Agostinho, eu passei a dividir apenas com Fabrício, foi o primeiro espaço que eu tentei ordenar por conta própria, e talvez por isso é que, nos primeiros tempos, o meu relacionamento com meu irmão esteve sempre longe de ser pacífico. Disputávamos todo espaço disponível nos móveis para armazenar as bugigangas que conseguíamos juntar com prodigalidade, para desespero de minha mãe, sempre atenta à disciplina e à ordem de tudo; e eram gibis, álbuns de figurinhas, os seixos catados no leito dos córregos, estilingues e uma infinidade coisas de menor valor ainda, mas que eram o nosso tesouro, expressões materializadas de nossos sonhos, de nossas paixões e fantasias, primeiro acervo verdadeiramente de nossa propriedade. Anos depois, quando Fabrício saiu de casa para estudar, pude dispor do quarto todo, mas isso, naturalmente, já não importava tanto. Durante as férias, nós o dividíamos com camaradagem. Quando saí também, para estudar no Colégio Agostiniano, o meu primeiro e mais cruel exílio, aquele território de disputas ficou a maior parte do tempo inabitado. No entanto, minha mãe continuou fazendo limpezas, trocando periodicamente a roupa de cama, chegando a mudar a disposição dos móveis. Tudo como se ainda estivéssemos em casa. Era certamente a melhor maneira que havia encontrado para a abrandar a nossa ausência. Luísa Rovelli desfrutava de um tipo muito peculiar de fantasia. Filho criado, trabalho dobrado. Eu a ouvi repetir muitas vezes esse lugar-comum, mas nunca o tomei em seu verdadeiro significado. Era uma funda solidão o que ela naturalmente sentia, e é claro que, em seu íntimo, desejou que permanecêssemos todos eternamente lá, que a casa continuasse sempre cheia de gente, que se repetisse o que ocorrera na casa de meu avô na geração precedente. Mas os acontecimentos tomariam os inevitáveis rumos. Ela ressentia-se disso, principalmente com relação a Fabrício, talvez pelo quanto havia sido débil a sua saúde na primeira infância. Ele havia tido pneumonia duas vezes, vivia com as amídalas inflamadas, sempre com um lenço embebido em álcool à volta do pescoço, e um certo ar de desamparo. Mas, desmentindo o que aquele estado de coisas havia feito supor, a sua saúde melhorou muito a partir da adolescência, e acho que por uma reação natural do organismo, já que os remédios prescritos pelo doutor Nepomuceno jamais haviam surtido o esperado efeito. Lá pelos catorze anos Fabrício já estava tomado por um raro vigor. E não foi só quanto à parte física. Estudou muito, tomou-se excelente aluno ?imbatível em matemática?, decidiu que faria geologia, e traçou planos de formar-se com boas notas, conseguir um bom trabalho e correr o País, acabando por cumprir tudo quanto havia proposto a si mesmo, favorecido pela especialidade que escolhera, a prospecção petrolífera, que o levou aos quatro cantos do Brasil.
Tive comigo, durante muito tempo, que Luísa Rovelli preocupara-se muito mais com Fabrício do que comigo, mesmo depois da recuperação física dele. Cheguei, há alguns anos, num exercício em que misturava realidade e fantasia, a registrar em meu diário o fato de que ela o havia sempre preferido, tendo a virtude admirável de não ficar escondendo essa verdade, o que era comum que pessoas como ela fizessem; e naquele exercício eu ainda dizia que por isso ela merecera todo o meu respeito; além do que, aquilo não me incomodava e me permitia, de certa forma, ser um pouco mais livre que meu irmão. Na realidade, eu estava, possivelmente, idealizando, uma situação em que pudesse desfrutar dessa liberdade, para, com efeito, poder dizer o que aquele meu antigo personagem dizia, com outras palavras: Se querem saber, não fui o mais amado, mas fui o mais livre. No entanto, é difícil saber a quem ela verdadeiramente preferiu, se é que tenha preferido alguém. O mais certo é que nos amou de maneiras diferentes. O desvelo às vezes exacerbado que dedicou a Fabrício teve a ver, inicialmente, com a sua saúde, e, depois, com o fato de ter deixado a casa para estabelecer-se sempre em lugares distantes, numa profissão que minha mãe julgava perigosa. Chamou-o em todo o tempo de Fabrizio, usando a forma italiana, à semelhança de minha avó Elisa, ainda que ele tivesse sido registrado com a grafia portuguesa desse nome; e a forma original tinha uma sonoridade que a outra não tinha, se pronunciada com propriedade: Fabritzio, com a necessária inflexão requerida pela letra “z”, que, para ser dita da forma correta, devia ser precedida de uma mínima, de uma quase imperceptível pausa, quase um nada; e era isto que na outra língua fazia o nome soar com uma certa doçura, o que, segundo os meus mecanismos interiores mais suscetíveis, parecia uma deferência, algo que o identificava a elas mais do que eu. Claro que eu não tinha plena consciência desse processo, mas o resultado dele eu conhecia muito bem, pois sempre que testemunhava aquele tratamento, aquilo que eu via como uma deferência, abatia-se sobre mim um pequenino, sim, pequenino (pois, de resto, sabia que me amavam muito), mas incômodo sentimento de rejeição, como se assim, por não ter um nome pronunciável com tal artifício, eu ficasse numa posição ligeiramente secundária, algo assim. Mas eu guardei o tempo todo, durante a infância, essa pequenina frustração somente para mim. Apenas uma vez, pelo que me lembro, cheguei a falar a Luísa Rovelli de um certo sentimento que eu tinha a respeito de meu nome: não que não me agradasse, mas que talvez tivesse preferido outro que talvez me tivesse sido mais próprio. Minha mãe lembrou-me então mais uma vez da razão da escolha, da devoção que tinha por Francisco de Assis, tão pequeno e tão grande ao mesmo tempo, segundo ela, o mais cristão talvez entre todos os cristãos, e dissertou também novamente sobre fatos da vida dele, a inevitável mescla de história e de lenda que o envolvera; e ainda assim, ou talvez até mesmo por isso, achei mais uma vez não merecer tal nome.
Enquanto essas coisas aconteciam, meu pai, enfiado no pequeno escritório do fim do corredor ?se é que aquele cubículo podia ser chamado de escritório?, acalentava sonhos de ampliar o patrimônio familiar. Ao contrário de seguir para a frente, na direção da Alta Araraquarense, como a grande maioria das pessoas estava fazendo, ele pensou o tempo todo em mudar-se para São Paulo ?se conseguisse o dinheiro necessário? e estabelecer-se no comércio: uma mercearia bem montada, num bairro de classe média, para começar. Mas o dinheiro jamais apareceria, não tinha de onde aparecer, e meu pai jamais sairia de Ouriçanga, sentindo-se também ele, talvez, condenado eternamente à vida do campo. Era do quinto de terras que minha mãe havia recebido por herança que continuava a sair nosso sustento e o desfrute de uma vida sem grandes luxos, mas ainda farta, da qual não podíamos nos queixar diante da grave situação existente, assim como mamãe nos fazia lembrar a cada dia, instando-nos a que agradecêssemos a Deus por termos relativamente tanto. E, mesmo que meu pai tivesse tido o dinheiro necessário àquilo que Luísa Rovelli classificava de aventura, não acredito que tivesse deixado Ouriçanga. Ele queria apenas pensar num horizonte a mais, só pensar; acalentar um sonho com tranqüilidade; sem sustos, por saber que jamais se realizaria.