São Paulo, 1 de agosto de 2007





Sílvio Fiorani

 

A flor e a erva

(abertura)

 

(.....)

Tarde vos amei.

Talvez não haja em toda a literatura exaltação mais bela que a de Santo Agostinho relativamente à constatação da imanência de Deus no homem.

Habitáveis dentro de mim, e eu lá fora a procurar-vos.

Tão tardio talvez quanto esse encontro espiritual de Agostinho com Deus, foi o meu encontro com Agostinho, que poderia ter acontecido já no início de minha adolescência, aos 12 anos, quando meus pais me colocaram como interno do Colégio Agostiniano de Engenheiro Schmidt, no interior de São Paulo.

Lembro-me de um sentimento então constante: uma certa inconformidade com o tempo que ia passando, tendo já uma possível consciência de que não vivíamos, na verdade, senão que a vida se exauria continuamente; e a memória que guardei de quando pensei as primeiras vezes mais detidamente na morte é a de que a tinha para mim como uma passagem para o nada! Eras pó, e ao pó tornarás, assim como se es-crevia no alto dos portões de entrada de certos cemitérios do interior. E esse nada en-cerrava a angústia da perda daquele que era o único mundo então possível, com suas desventuras mas com seu lado bom também, com a casa paterna e o universo de pos-sibilidades e de liberdade que uma pequena cidade do interior poderia proporcionar a uma criança. No entanto, apesar de eu ter visto, naquele período, a morte como o fim de tudo, pairava acima de todas as coisas, a idéia da presença de Deus. Mas tratava-se, ainda daquele deus implacável do Antigo Testamento, punidor, destruidor de cidades, discricionário, que a Boa Nova do “Pai” anunciada por Jesus não havia conseguido ainda suplantar. E de se compreender que aquele deus antigo, de feições humanas que as gravuras religiosas traziam, servisse melhor como instrumento de dominação. Não se manuseavam nem o Antigo nem o Novo Testamento, mas a imagem de Deus que prevalecia (e prevalece majoritariamente até hoje) era a do guerreiro de Israel, que velava pelo seu povo, do qual cobrava fidelidade, pois o havia eleito entre os demais, mas presenteava com grandes benesses. Há de se convir que episódios como o Dilúvio, a destruição de Sodoma e Gomorra, a queda das muralhas de Jericó, as pragas lança-das sobre o Egito, entre outros cataclismos, nos assolavam poderosamente, em vez das poéticas parábolas de Jesus e de seu exemplo. Transmitida sem a propriedade e a verdade necessárias, a idéia do Pai expressa por Jesus, hoje penso, sucumbia diante daquele antigo deus tão poderoso, que nos valeria como um pai autoritário mas eficiente diante das ameaças que pudessem pairar sobre nós.

O fato é que a Igreja que então conheci pairava entre essas duas concepções de Deus. E como nos faltasse o conhecimento íntimo do Pai, acabávamos nos entregando de forma primitiva à crença naquela entidade que nos parecia mais poderosa.

Nos foi vedado então o conhecimento de que Deus estava, estaria sempre, sempre havia estado, segundo os evangelhos, dentro de nós, dentro de cada homem, indistintamente, judeus ou gregos, escravos ou libertos, como anos depois eu ficaria sabendo para meu alívio.

Lembro-me que, uma vez, no confessionário, enchi-me de coragem e de-clarei que não amava Deus, mas que o temia, e que temia também que esse temor pudesse ser um enorme pecado, falta que o confessor prontamente relevou, grantindo-me que aquela era uma da muitas maneiras de se crer na existência de nosso criador.

E, sendo assim, talvez possa dizer que a minha história, dali em diante, foi a história de alguém procurando constantemente uma saída para este enorme impasse.

Era de se imaginar que estando em um colégio religioso eu estivesse dentro da Igreja, vivendo a realidade de suas instituições; a Igreja de Cristo, pois. Mas is-so de nada me valeu, ao contrário do que se deve esperar de instâncias verdadeiramente cristãs. Se fui infeliz naquele ano, se me senti desvalido ali naquele território pretensamente religioso, sem ninguém que me amparasse diante dos terríveis dilemas da adolescência, tive pelo menos uma visão antecipada de que a Igreja e todo o seu aparato, as ordens religiosas incluídas, quase nada tinha a ver com a verdade evangélica: o amor e a autoridade moral de Jesus, e a sua radical proposta de vida. Em todo aquele ano não vi um exemplar da Bíblia sequer, não ouvi nem uma citação do Novo Testamento, nem mesmo nas aulas de religião. O mesmo vale para Santo Agostinho e sua obra. Os agostinianos de Engenheiro Schmidt viviam, e “educavam” os internos do colégio como se o patrono da ordem jamais tivesse existido.

Assim, segui aquele ano assolado de temor que tinha de Deus (uma forma abstrusa de crença) e a angústia diante do fenômeno da morte. Apesar de toda a truculência com que era comum tratar-se os internos menos dóceis, a título de fortalecer neles “os valores básicos do cristianismo”, consegui sair (talvez porque fosse apenas aparentemente flexível) com minha fé juvenil intacta, uma esperança ainda sem limites no meu destino e no destino daqueles que me cercavam, essa fé cega, sem frontei-ras que costuma ser a virtude mais evidente das chamadas grandes almas, mas que, frente à realidade dos fatos, acabamos, em nossa esmagadora maioria, por perder, porque a consideramos, um dia, inútil, um nada junto à ordem prática das coisas.

Penso que saí com minha fé intacta apenas porque havia dito e repetido tantas vezes quantas haviam sido necessárias que Deus existia e que, se existia, todo homem estava obrigado a prestar-lhe culto e veneração conveniente; estava obrigado, equivalia dizer, a praticar a religião; porque havia repetido, também incansavelmente, que só a Igreja Católica era a verdadeira Igreja de Cristo, porque era, entre outras coisas, santa, posto que tinha por fim santificar os homens, conduzindo-os à vida eterna; assim, exatamente, como proclamava o padre Jesus Bujanda, em seu manual a respeito das verdades que nos falavam de Deus e de suas obras, de sua essência, de seus atributos, e sobre o fato tremendo de que tudo sabia, absolutamente, até mesmo a respeito de quaisquer de meus atos secretos e solitários, a minha busca irrefreável de prazer, a chamada “concupiscência da carne”, o nome dado a sentimentos circunstancialmente belos que, no entanto, nos impediam de obter a graça da eternidade. Creio, creio, creio, eu teria repetido mil vezes se fosse preciso, temeroso, apenas para que não suspeitassem de um sentimento que eu possuía, e que hoje poderia continuar a ser chamando de fé, e que lá não se reconhecia como tal, e que impediu que eu me corrompesse tão cedo. Confuso, deixei depois de um ano aquele lugar, sem ter a noção exata da natureza do vínculo que poderia haver (mas crendo intimamente que devia haver algum vínculo) entre as verdades pretensamente divinas do manual de Bujanda e os métodos, não prescritos no manual, para transmiti-las.

Não guardo desse período uma bela lembrança sequer, um único momento em que tivesse podido dizer: sou amado. Antes, posso enumerar interminavelmente as vezes em que me senti imerso na solidão de quem se encontra em uma terra estranha e hostil, sem poder ser compreendido, sem merecer um gesto de misericórdia, como se tivesse cometido um delito grave, sem ter tido consciência dele, com aquela mesma sensação de desamparo que imaginaria em Judas no momento em que, movidos pela dureza de seus corações, os sacerdotes do templo lhe disseram: Isso é contigo; ou como aquela sensação que deve ter experimentado um garoto de minha idade, que se chamava Bosco, e que ousou uma vez esquivar-se à missa diária a que éramos obrigados a assistir, e cuja ausência foi notada, para sua desgraça; esse mesmo Bosco de cujo sobrenome não me lembro (por onde andará?, como terá se arranjado posteriormente com sua fé?), mas cuja imagem ficou particularmente gravada em minha memória: mais que em qualquer outra ocasião, no momento em que padre Feliciano o impelia, em meio à missa, espancando-o, desde a entrada da capela até o altar, diante do qual obrigou-o a prostrar-se; ali, exatamente, onde o celebrante continuava, imperturbável, o Santo Sacrifício, e onde, pouco antes, ao iniciá-lo, dissera: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, subirei ao altar de Deus; ao que havíamos respondido: ao Deus que alegra a nossa juventude.
(...)