São Paulo, 1 de julho de 2007

Entrevista

Márcia Denser

— Fotos de Ricardo Issa —

 

 

Márcia Denser mora no bairro da Aclimação, em São Paulo. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. É solteira, loira, bonita, inteligente, absolutamente simpática, geminiana, rebelde e escreve muito bem. Tão bem que Paulo Francis dizia que era a única escritora brasileira que sabia escrever. Estourou em 1976 quando saiu publicado seu primeiro livro, Tango Fantasma. De lá para cá, publicou 8 livros solo e dezenas de antologias. Em 2006 saiu o romance Caim e no segundo semestre deste ano, 2007, ela lança Toda Prosa II - Obra Escolhida, todos pela Record. O Denser do seu nome pronuncia-se com o S brando — Denzer — como na palavra casa. Herança do seu bisavô alemão.

 

Jornaleco: Márcia, você é paulistana?
Márcia Denser: Sou, sim. A minha família está no Brasil há cerca de 150 anos, pois meu bisavô Norbert Denser, — que é o Maximilian do Caim — chegou aqui por volta de 1850. Quem, sem querer, acabou resgatando parte da história dele foi uma amiga que fazia doutorado em Cidadania e que pesquisando nos arquivos do Departamento do Patrimônio Histórico da Prefeitura, encontrou registros em nome de Norbert Denser.

Ele havia assentado uma banca de ferreiro na rua de Santo Amaro, no dia 24 de agosto de 1865 na rua Santo Amaro. Naturalmente ele já devia estar casado com a Ana Borba, uma das descendentes do Borba Gato. Acho que ele chegou aqui na época das guerras franco-prussianas, vindo da Alemanha, e para se estabelecer, casou-se com uma herdeira, imagine que ela herdou terras em Santo Amaro, que ainda nem era um bairro de São Paulo, mas fora do município. O meu bisavô e Ana tiveram vários filhos. Ele morreu cedo. E começaram a se casar entre eles, primos e primas, para preservar as propriedades na família. E já nem havia mais tanto dinheiro assim. Os filhos desses casamentos nasceram com uma degeneração genética, os chamados “olhos de coelho”. Meu avô foi o único que se casou fora da família. O pai da minha avó se chamava João Micelli e, segundo consta, foi proprietário de boa parte das casas situadas na Rua do era dono de toda Ladeira Paraíso, exatamente onde hoje estou me mudando para viver com minha irmã e meu sobrinho.

Jornaleco: Você nasceu aqui na Aclimação?
Márcia Denser: Nasci. Morei sempre aqui com exceção dos doze anos passados na rua Mello Alves, nos Jardins. O “quadrilátero da mentira”. Porque lá tudo é mentira. Eu tenho uma ligação de afeto com a Aclimação, com a Vila Mariana. A família do meu pai morou na rua França Pinto, numa casa imensa, dava até para caçar passarinho no quintal, imagine.

Jornaleco: Seu primeiro colégio foi por aqui?
Márcia Denser: Não. No Pari. Esqueci de dizer que morei lá quando eu era bem pequena, por causa do trabalho do meu pai, que tinha negócios no bairro. Era um colégio de freiras de São Carlos, o Santa Terezinha do Menino Jesus.

Jornaleco: Nessa época você já "rabiscava"?
Márcia Denser: Não ainda. Acho que a coisa começou quando eu tinha nove anos. Aconteceu uma coisa que tem a ver com a minha vida literária. Até então eu era uma menininha comum. Quando eu fiz nove anos, meu pai me deu meus três primeiros livros de Monteiro Lobato: Viagem ao Céu, Reinações de Narizinho e O Saci. No meio da minha festa de nove anos, larguei as crianças e fui para o meu quarto com os livros. Simbolicamente, quando fechei a porta do quarto, esqueci a festa e os brinquedos - deixei um mundo para trás – porque um outro universo se abriu para mim. Foi nesse momento que comecei a me tornar uma escritora. Porque a gente começa sendo leitora.

Jornaleco: A escritora apareceu quando?
Márcia Denser: Aos dez anos de idade, eu escrevi uma novela policial, imagine! Em vez de sair de férias em julho eu disse: “não mãe, eu não vou, eu preciso escrever isso aqui”. Era “Uma morte no cais”. Sei lá, deveria ser influência do Ellery Queen, que eu lia na casa do meu avô que tinha uma biblioteca enorme. Escrevi a mão, num caderninho. Mas foi um episódio. Claro que eu ainda não havia definido que seria escritora. Na minha adolescência a coisa foi se firmando aos poucos, mas apareceu mesmo no meu segundo ano de faculdade, eu devia ter uns vinte anos, e foi pedido um trabalho fotográfico sobre Simbad, o Marinheiro, uma poesia do James Joyce. Então escrevi um texto sobre outro Simbad – a história em forma de poema dum barquinho de papel que navegava no vaso sanitário e afundava – da qual fiz uma seqüência fotográfica legendada em versos. As fotos ficaram meio desfocadas, mas o texto emplacou. Os professores até comentaram meu texto em reunião, etc. E eu, que desde pequena nunca fora muito brilhante na escola, ruim em matemática, ruim numa porção de coisas. Apenas aquela que escrevia boas redações.

Jornaleco: Você cursou qual faculdade?
Márcia Denser: Eu entrei no Mackenzie, no curso de Programação Visual, que pertence à Faculdade de Arquitetura. Eu não queria fazer nada ligado às Letras, porque escrever era o meu royal street flash escondido na manga – meu talento (e minha arma) secreto.

Jornaleco: Você pensava em trabalhar com programação visual?
Márcia Denser: Mais ou menos. Porque sabia não dava para sobreviver apenas escrevendo. Tornar-se escritora implica numa construção de carreira independente, para além do dinheiro. E, olha que engraçado, hoje eu não consigo ganhar dinheiro fora disso. Fiz pós-graduação na PUC de Literatura e Semiótica, mas não me convidam para dar aula, por exemplo. Só para escrever. Daí eu terminei a faculdade e teve uma fase de transição. Então comecei a mandar alguns trabalhos para o Suplemento Literário da Tribuna da Imprensa, no Rio. Isso foi em 1974 — mesmo ano do lançamento da Revista Escrita aqui em São Paulo. O pessoal da Tribuna da Imprensa recusou meus contos, mas a Escrita aceitou e publicou Tango Fantasma, mais título do meu primeiro livro.


foto: Mécia Rodrigues

Jornaleco: Você teve algum tipo de insegurança em algum momento?
Márcia Denser: Zero de Insegurança zero: isso é fundamental. Acreditar em si mesmo, ainda que o mundo inteiro diga ao contrário.

Jornaleco: A Escrita aceitou o Tango Fantasma...
Márcia Denser: A Escrita foi um marco na década de 70 porque ela lançou e divulgou muitos escritores, como Nélida Piñon, Samuel Rawett, Roberto Drummond, Caio Fernando Abreu, Ivan Ângelo, João Antônio, Loyola, Antonio Torres, etc. Havia uma efervescência muito grande, algo que aglutinava corações e mentes. A imprensa ainda não era orientada só para o lucro, como hoje. Hoje censura é infinitamente maior do que a existente na ditadura, porque é econômica.

Jornaleco: Depois do Tango Fantasma?
Márcia Denser: Depois veio O animal dos motéis, em 1981. Saiu pela Civilização Brasileira, e eu tive o privilégio de ter o Ênio Silveira, editor da Civilização, fazendo a orelha do livro, e também a revisão. O projeto gráfico foi do Massao Ono.. E como o Animal dos Motéis teve uma repercussão muito grande, as coisas começaram a acontecer mais depressa. Depois organizei duas antologias de contos eróticos: Muito Prazer e O Prazer é Todo Meu em 1982 e 1984 respectivamente, e ainda em 1984 saiu Exercícios para o Pecado, também pela Civilização Brasileira. E, em 1986 saiu Diana Caçadora pela Global. Diana fez sucesso, vendeu a primeira edição inteira em vinte dias. Ao mesmo tempo, eu escrevia para a Folha como colaboradora, colaborei de 1985 a 1988. Fazia a crônica da página três na Folha da Tarde, e também tinha uma coluna chamada Coração de Plantão, tipo Miss Corações Solitários do Nathanael West. E além disso eu ainda fazia reportagens especiais, perfis humanos, para todas as editorias.

Jornaleco: A personagem de Diana Caçadora, Diana Marini, tem as iniciais do seu nome, mas invertidas. Foi proposital?
Márcia Denser: Não, não foi. Só depois eu me dei conta disso. E no Toda Prosa II há mais uma coincidência: dois trabalhos que têm o mesmo final: um é o conto Horizonte, que finaliza a primeira parte do livro, e o outro é a novela Todos Os Amores, último texto do livro.

Jornaleco: Você viveu todas as fases de São Paulo na sua plenitude? As grandes mudanças arquitetônicas, a geração hippie da década de 70?
Márcia Denser: Vivi no sentido de ver a cidade se transformar, claro, mas tinha uma visão muito crítica em relação aos movimentos que ocorriam, tinha os pés na realidade, nas coisas objetivas que você tem de fazer para sobreviver. E isso de enfrentar as duras realidades da vida faz parte do amadurecimento do escritor.

Jornaleco: Voltando à década de 80, tem aquela história do Paulo Francis...
Márcia Denser: Em 1983, Ênio Silveira mandou para o Paulo Francis meu livro Animal dos Motéis, ele leu e escreveu na Folha que “no Brasil tinha só uma escritora que sabia escrever, que era eu”. Isso deu o que falar, você não imagina quanto e como!

Jornaleco: Mais ou menos nessa época você namorou o Lobo Antunes?
Márcia Denser: Nos conhecemos quando alguns escritores portugueses nos visitaram em 1982. Nos apaixonamos de um modo talvez romântico demais, foi uma relação complicada. Ele queria que eu fosse morar com ele em Lisboa, logo depois descobri que já era casado.

Jornaleco: Você ficou dez anos sem publicar?
Márcia Denser: Não fui só eu. Nos anos 90 a literatura brasileira entrou em recesso, de 1990 a 1999. Foi a década de Paulo Coelho, dos livros de auto-ajuda. Aí em 1999 com a queda nas vendas dos livros de auto-ajuda e a subida nos preços dos títulos estrangeiros, somados à pressão da nova geração emergente de autores brasileiros e ao sucesso editorial das antologias de final de século – Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século XX, organizados por Ítalo Moriconi, ficaram um ano na cabeça da lista dos mais vendidos! – houve toda uma retomada da literatura.

Jornaleco: Você escreveu o prefácio do volume II da obra do Caio Fernando Abreu, O caio em 3D, O Essencial da Década de 80 . Vocês foram muito amigos?
Márcia Denser: Eu conheci o Caio em 1977 quando ele mudou para São Paulo. Houve o lançamento de uma antologia que nós fazíamos parte e eu o conheci. E nós sentimos uma identificação imediata, uma atração muito forte um pelo outro, ele já me conhecia de texto e eu a ele. Éramos culturalmente parecidos: contestadores, oustsiders, tínhamos um trabalho radical. O Caio era um cara que tinha posições políticas e ao mesmo tempo não tinha. Porque ele sempre estava ocupado com o amor do momento, o namorado do momento.

Jornaleco: Márcia, fale um pouco das suas paixões literárias. Quem você lê?
Márcia Denser: Em primeiro lugar William Faulkner. Foi o Hamilton Trevisan que me apresentou a WF, quando estava traduzindo O urso. Quase não haviam traduções de Faulkner por aqui, era preciso ler nas portuguesas. li O som e a fúria numa edição Europa-América. Foi paixão instantânea. Aí comprei toda obra do Faulkner que não paro de reler até hoje.

Jornaleco: Foi também a grande paixão do João Antônio. E quem mais você lê?
Márcia Denser: Cortázar. Rubem Fonseca. Estou falando dos contemporâneos. Pressupõe-se uma leitura anterior de Machado, Mário de Andrade, Oswald. Eu lia muito os cronistas: Drummond, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga. Esses caras fizeram a minha cabeça. Precisa passar por essa leitura, sobretudo para você apreciar devidamente Rubem Fonseca, como ele foi inovador em 1975, não só na temática, como no aspecto formal. Ele despojou a literatura de todas as cacofonias gráficas. Faulkner já fazia isso e a edições portuguesas mostram essa ausência de marcação de texto, de diálogo, de parágrafo.

Jornaleco: Continuando: quem são as suas outras paixões?
Márcia Denser: Vargas Llosa, cuja técnica literária não tem nenhum paralelo na literatura ocidental — que é o corte cinematográfico. Borges é outra paixão. Truman Capote, Sallinger, Thomas Mann, Huxley. Não o Huxley do Admirável Mundo Novo mas do Sem Olhos Em Gaza. Proust. Marguerite Yourcenar. E Malcom Lowry, À sombra do vulcão.

Jornaleco: Você me falou, naquela época, que escrevia em pé. Ainda escreve em pé?
Márcia Denser: Não mais. Eu escrevia em pé devido à obsessão de me manter em forma. Naquela época, eu passava cerca de doze horas na máquina. Então eu empilhava livros em cima da mesa, e punha a máquina em cima dos livros. Hoje não, claro. Escrevo no computador. Inclusive eu tive todo um processo de adaptação ao computador, meio complicado. Ver o texto na tela podendo, de repente, desaparecer, dá um medo danado.

Jornaleco: Musicalmente, com quem a sua literatura dialoga?
Márcia Denser: Keith Jarret. Astor Piazolla. Toda minha literatura é Astor Piazolla. Tom Jobim.

Jornaleco: A Internet hoje acelerou o texto?
Márcia Denser: Pois é, até os anos 80 nós tínhamos um tipo de comunidade literária. Hoje é outro. Hoje nós temos os filhos da TV e da Internet. Hoje a linguagem é muito difundida pela Internet, aliás, tudo é muito difundido pela Internet. Mas a escrita da Internet é uma escrita despoliciada, quem escreve só na Internet não se preocupa com a depuração do texto, nem bem escreve e aquilo já se torna público. É um texto espontâneo porém acrítico, sem qualidade formal, pouco elaborado. Acho que se a questão é fazer literatura, então é outro papo. Sobretudo porque o escritor precisa dizer o indizível.

Jornaleco: E você usa esse processo de depuração do texto?
Márcia Denser: Depois do 40 anos houve um salto qualitativo. Depois que escrevi A ponte das estrelas passei a escrever de primeira. Porque incorporei a técnica à criação. Imagine que em A Ponte das estrelas tem um capítulo, que se chama Pode Me Chamar Pé Negro que reescrevi setenta vezes. Hoje já não reescrevo, apenas faço alguns ajustes. Mas a técnica já está incorporada. E outra: não fico “lambendo a cria”. Quando o texto está pronto, também não releio mais.

Jornaleco: Seu próximo livro?
Márcia Denser: Em outubro sai pela Record Toda Prosa II – Obra Escolhida, quer dizer, escolhida por mim. São textos que escapam à erótica da primeira fase (Diana Caçadora/Tango Fantasma) e ao romance (Caim, A Ponte das Estrelas).

Obras Publicadas

Dois textos de Márcia Denser


e-mail:mdenser@uol.com.br