São Paulo, 1 de julho de 2007

Dois Textos de Márcia Denser

 


foto: Ricardo Issa

 

As ladeiras da Aclimação

( Quelquepart Island )

Novamente me fisgo pensando na Aclimação, esse bairro tão próximo e ao mesmo tempo distante de tudo: Quelquepart Island, ilha fora do tempo em meio a ladeiras intransponíveis. Na Aclimação ou no que restou dela para além dos conjuntos habitacionais revestidos de pastilhas azuis, lembrando monstruosos banheiros virados do avesso onde as pessoas não habitam, se debatem. Surdamente.

Para além da Japantown com suas lanternas e cortiços, a viscosa feira vermelha, sua promiscuidade por detrás de cortinas de bambu, tanto saquê e sorrisos untuosos e pequenos assassinatos, sua máfia de olhos de arroz. Para além da poluição que na verdade eu nunca soube especificamente a que atribuir, se aos automóveis, à proliferação de tinturarias, às frituras dos restaurantes ou aos coreanos clandestinos desembarcados em Santos, para além de quinze, vinte anos atrás quando a Aclimação era absurdamente (no sentido borgiano, se é que me entendem) uma ilha inviolada no interior da cidade.

Penso nas mansões decadentes cobertas de hera seguindo por ruas chamadas Esmeralda ou Safira ou Topázio ou Turmalina desembocando inesperadamente em secretas pracinhas improváveis (Brás Cubas? Polidoro?) com seu tanque de pedra, seu jovem semideus adormecido coberto de limo emergindo por entre gerações de folhas mortas esmagadas por bicicletas fantasmagóricas jamais vistas mas intuídas em seu sinuoso serpentear através de alamedas sombreadas por velhas árvores silenciosas e sempre às cinco da tarde ou da manhã porque o lusco-fusco é a atmosfera permanente desse bairro labiríntico fora do tempo, parecendo se recolher mais e mais para dentro do Parque providencialmente gradeado pela municipalidade para consternação dos traficantes e respectivos clientes e gáudio de tantas babás e bebês e hordas de histéricos executivos fazendo jogging já a partir das seis da manhã.

Mas isso talvez fosse literatura.

Porque se minha juventude existiu nalgum momento entre quinze e vinte anos, foi lá, só pode ter ocorrido lá e digo pode porque não sei, daí procuro no Aurélio aclimação: adaptação, ajustamento, aclimatação. Estranho nome para um bairro (ou esse estado de espírito que chamo juventude, essa passagem) que foi se isolando mais e mais da Cidade. Tanto quanto sei, persistem apenas duas linhas de ônibus e com destino ao centro velho, de modo que se alguém precisar ir à Paulista a priori terá que vencer a inexpugnável ladeira Paraíso para atingir o patamar intermediário da Vergueiro e só aí então algum ônibus, o metrô, possivelmente um taxi, porque até os taxis não gorjeiam por lá. Era (é) um percurso curto mas praticamente intransponível, salvo se eu fosse campeã dos cinco mil metros com obstáculos. Mas nunca fui do tipo esportivo, confesso, e não se pode dizer que dançar seja exatamente um esporte, especialmente se praticado de madrugada em recintos fechados.

Mas naquela época eu me obstinava, QUERIA as minhas ladeiras, o antigo sobrado em cujo terraço traseiro tomava-se sol o ano inteiro, os quartos da frente que se abriam para a extensa varanda gradeada onde me debruçava a ouvir o seco crepitar das copas das árvores, um automóvel a cada dez minutos, o mundo turbulando nalguma parte mas bem longe, Debussy vazando o Aprés midi d’un faune pela sacada aberta para o silêncio perfeito das eternas cinco horas do entardecer ou amanhecer da Aclimação, onde o semideus crepuscular cuja face de Janus/Mercúrio simultaneamente espreita passado e futuro desse entrelugar Trimegisto chamado juventude que é só desejo que é só promessa perpetuamente a ocultar o instante que passa pisoteando gerações de folhas mortas naquelas ruas, naquelas alamedas estáticas sob um meio-dia de dezembro ou janeiro a menos que alguma bicicleta, um rolar de patins, uma buzina ao longe, seja a nota falsa raspando o perfeito azul, a derradeira atmosfera, a falsa paz.

Mas não será preciso fazer literatura.

Se minha juventude existiu deve ter ocorrido em algum momento na Aclimação. Há um vácuo de dez anos imprecisos de dor que obstinadamente tento esquecer ou não dar importância ou querendo dizer: se a juventude foi só isso então não valeu a pena, mas algo ainda enrijece na treva e obstinadamente ( sim, obstinadamente) se recusa a dizer que sim, que talvez fosse possível, que todos aqueles anos que vivi, que vivemos, porque então era o plural, que nós quatro, com aquilo que podíamos chamar família, claro que podíamos, porque foi lá que isto começou a se esmigalhar, miudamente, inevitavelmente carunchado por dentro o edifício do tempo começou a ruir, os pilares do altar onde eles juraram atar sagrados laços eternos que se afrouxaram naquele sobrado da Aclimação, assombrado já por outras vozes, outros pavimentos (may I, Truman Capote?),na mão que já não se completa em carícia, no abraço que se esquece pendente do corpo, no passo que se afasta e se aproxima, que se afasta e se reaproxima, que se afasta e desce as escadas e sai batendo a porta; no soluço enrodilhado no patamar, no tango em diagonal, em Aníbal Troillo amordaçado na vitrola, no verde que te quis Corrientes, num gato que porcelana, e no telefone tocando ainda e inutilmente num sobrado da Aclimação. Como se todos estivessem mortos.

(publicado no Toda Prosa II – Obra Escolhida, Record, 2007)


Lendo o Chico
(uma crônica perversinha)

 

Outro dia sem querer acabei lendo o Chico Buarque, até porque sou meio que uma leitora compulsiva, sobretudo de ressaca num sábado de manhã quando topei com Budapeste intacto numa estante, então entendi porque nunca me interessei em ler os romances do Chico (um pouco porque também sou bestíssima, daquelas que não lêem gente que não pertence à série literária, para falar como Affonso Romano de Sant’Anna) não sei, ele escreve assim como um cara aposentado que de repente descobre um hobby interessante para fazer, ocupar o tempo morto lúdico da aposentadoria, até porque ele se dá conta que sabe escrever legal, uma vez que é e foi um músico e poeta genial (que só está escrevendo esses romances no lucro duma obra musical já concluída no passado, e esta sim imortal, assim como Garcia Marques e Vargas Llosa, e estes sim da série rigorosamente literária [escritores da mesma envergadura que o Chico compositor musical], razão pela qual agora só fazem se repetir e repetir, mordendo o rabo, é tedioso explicar isso, mas sempre tem gente que não sabe, de forma que não custa explicar esses detalhes do gênio que se esgota e prossegue girando em falso, o que não é exatamente o caso do Chico, que para não se repetir então escreve, etc.), que como músico e poeta sabe como ninguém lidar com as palavras o cotidiano o coloquial da língua que ele domina facilmente (embora o problema de muitos escritores seja esse: escrever bem demais ) aí vai contando histórias que não vive que inventa, comendo mulheres que não come que não ama que inventa agora que a vida começa a escapar-lhe das mãos do tempo do tesão que também diminui muito aos 63 anos, então posso entender o Chico que deve ganhar uma grana para escrever esses romances para se ler e esquecer imediatamente (o mercado tá cheio disso e de celebridades escrevendo isso), muito festejados pelos intelectuais todos de plantão, tipo Roberto Schwarz, mas acontece que o Roberto é desses críticos aguçadíssimos que desfiam verdadeiros tratados transatlânticos para boi dormir em cima de qualquer coisa impressa resultando assim que as críticas dele sim é que são geniais boas de ler e reler, podem apostar, o Roberto é simplesmente um gênio da crítica e do ensaio meio que um Borges em bom português com estilo, rigor e seriedade acadêmica com todos os seus protocolos de praxe, porque ele vai e descobre conexões sutilíssimas em cima de qualquer Mané; sem contar mil outros que tecem loas ao Chico, feito Caetano (aí meio que não vale, os músicos são corporativos, assim como os cineastas e os caras do clube de xadrez), feito o Luís Fernando Veríssimo, outro escritor copiosíssimo construtor tijolinho por tijolinho de catedrais de NADA, um compulsivo que, a julgar pela produção de texto em quantidades industriais, realmente não deve ter tempo nenhum de viver, apenas escrever e escrever (sobre o quê, Meu Deus, sobre o quê?), e olha aí, até José Saramago na orelha do Budapeste, nosso Nobel castiço de plantão, tem cara mais chato do que esse? Não, não tem. Só que ninguém diz isso, nenhum coleguinha que se preze tem a coragem suicida e maluca de dizer com todas as letras que o português é um pé no saco – e olhem que eu atravesso qualquer coisa, Joyce, Proust, tudo – Saramago é o Nobel do tédio pedante e castiço, um escritor sem sangue, milhões de vezes mais chato que o Chico, que é só moderadamente chato, inclusive porque se dá ao desfrute de curtir um hobby legal na terceira idade, então fui lendo Budapeste com todas aqueles macetes e trutagens de livro bem bolado e arquitetado, um redesign fudido ( pra quem gosta de redesigns) desses livros com ISO 90.000 de Esquecibilidade, porque não tem tesão, não tem paixão, apenas entretenimento, entretenimento sobretudo do gênio poético-musical aposentado (desculpe, Chico, acho você um cara legal, mas é isso que eu penso do Chico romancista). Arrematando a orelha de Budapeste, Nelson Archer, um rapaz seríssimo, nos dá o derradeiro álibi para ler esse Chico por que ele tem uma história para contar, nesses tempos de rebuscamentos literários, vazios de fabulação, algo assim. Pois é. Agora é fashion, viramos contadores de histórias, que merda, é o mote fajuto de todas as flipes sejam em Parati ou Pago-Pago. Desde quando? Se todas as histórias já foram contadas, e quem diz isso é William Faulkner, um escritor realmente de primeira, o importante não é o que se escreve, mas como se escreve, e isso também é tedioso ficar explicando, tanto que é melhor sai da literatura e ir para o cinema para talvez explicar melhor o que se entende por carne, sangue e ossos velozmente adorados.

Ressocado numa sessão da madrugada passa um filme do Louis Malle de 90, “Perdas e Danos”, com Jeremy Irons e Juliette Binoche (também sou cinéfila compulsiva, tipo dois a três filmes por dia) e pimba. Pela história até podia passar por um dramalhão banal, tipo Jeremy, ministro inglês de 50 anos, e sua futura nora, Juliette, se apaixonam furiosamente, com um feroz desejo físico que ninguém segura, até que são flagrados pelo filho que, fora de si, cai de costas no fosso das escadas e morre instantaneamente, desencadeando a destruição irrevogável das vidas e ligações familiares de todos os personagens envolvidos – mulher, filhos, irmãos – provavelmente pelas gerações futuras e subseqüentes. Jeremy se manda, sei lá, para o Tibete (ingleses têm esses lugares chiques para curtir suas destruições), e um belo dia, muito tempo depois, ele olha a foto dela ampliada na parede (imensa como um pesadelo, diria Yourcenar) e então se dá conta que “ela era apenas uma mulher comum”.

Claro. Incomum, extraordinária é a paixão. Uma paixão impessoal, sem escolha, divina, inumana, que se abate como uma catástrofe, um tsunami que só precisa de três minutos para te varrer do mapa, da história, da geografia e por várias gerações, sem razão, sem motivo, sem mais aquela. Depois tudo volta ao normal, e um belo dia o sujeito percebe: porra, o que é que eu vi nela? Como uma estranha.

Então arte é isso, o tsunami, a paixão. Toca, cala fundo na alma, marca indelevelmente como ferro em brasa¹ e quando nos devolve à realidade, já somos outros.

1.A música "À flor da pele", aliás obra-prima do Chico, trata exatamente disso, lembram?


( publicado originalmente no site Congresso em Foco)