
São Paulo, 25 de setembro de 2002
Entrevista:
Márcia

"Meu nome é Márcia e eu só canto o que gosto"
Márcia é uma intérprete. Uma das melhores que o Brasil possui. Reparem que ela canta com todos os esses e erres no lugar. Isso é coisa de quem tem amor pelo canto e pela palavra. Paulistana, nascida em 25 de novembro de 1943, casada há 33 com Sílvio Luiz, sagitariana, tem dois filhos e uma filha, cinco cachorros, mora no Alto de Pinheiros. Tem 15 discos gravados. Quando começou a cantar profissionalmente, na noite, um produtor procurou-a, e fez um convite para que ela gravasse um disco, sugerindo que seu nome fosse mudado e que ela cantasse coisas mais alegres. Resposta: “Meu nome é Márcia e eu canto o que eu gosto”. Dona de uma das mais belas vozes da música brasileira, nunca fez nenhuma concessão à indústria fonográfica, nem aos programas de rádio e televisão. Sempre teve um repertório seleto e sempre cantou com os melhores músicos do país. Seu último CD se chama Cartola 90 anos, e é um show gravado ao vivo, no Sesc, São Paulo, em que ela canta com Elton Medeiros, arranjos e regência do maestro Theo de Barros. Um raro momento de Theo que, por timidez, não gosta de reger em público.
Jornaleco: Quando você descobriu a música?
Márcia: Uma vez eu ouvi a introdução do Stardust, com o Frank Sinatra, aí eu fiquei louca. Foi isso que me acordou para música, eu tinha uns sete, oito anos de idade.Jornaleco: Márcia, como você começou a cantar?
Márcia: Eu tinha 12 anos, estudava violão, harmonia, e comecei a cantar porque eu queria ser compositora. Eu conheci a Lídia Costa, mulher do Turíbio, ela fazia umas poesias muito bonitas e eu comecei a musicar. Eu morava na Alfonso Bovero, aonde era a TV Tupi, hoje SBT. Então, depois de fazer umas 3 músicas com a Lídia, fui mostrar para o Geraldo Cunha, que fazia muito sucesso com aquela música, Menino desce o morro. Como eu morava ali do lado, passava em frente à Tupi diariamente, o porteiro já me conhecia, e acabou me deixando entrar. Eu e o violão embaixo do braço. Entrei, e de cara vi o Geraldo no corredor e chamei ele, expliquei que eu queria ser compositora, e pedi a ele que escutasse uma música minha e me dissesse se eu tinha talento, se era o caso de continuar estudando. Aí ele falou: “tá bom, vai, toca aí”. Comecei a tocar no corredor mesmo, e de repente alguém abriu uma porta daquelas grandes, e reclamou do barulho. O Geraldo então me chamou pra dentro de um estúdio, e falou: “olha, vamos ficar aqui”. Comecei a tocar de novo, e de dentro do estúdio, veio uma voz forte: “quem é que está cantando aí?” Era o maestro Erlon Chaves que estava ouvindo, fechado na técnica. Levei o maior susto. O Erlon perguntou de quem era aquela música e eu respondi: “é minha”. Ele disse: “que porcaria, que coisa mais horrível. Agora, a sua voz é linda. Você vai cantar no meu programa”. Eu, que era tímida, fiquei toda gaguejando, sem entender nada, ele nem se incomodou e continuou: “vem cá, vamos tirar o tom”. Bom, tiramos. A música se chamava Noite Chuvosa. O Erlon sentou e fez um arranjo lindo, ele escrevia muito bem, pra metais principalmente. Aí eu comecei a participar de todos os programas musicais do Erlon, e virei cantora por causa dele. Todo final de noite na Tupi, tinha um programa musical que se chamava Um Piano e Quatro Motivos. O Piano era o Erlon, ele ia de fraque, era lindo o programa. E os quatro motivos eram os cantores, que sempre cantavam uma música referente à música anterior, cuja letra combinasse com a que tinha acabado de ser cantada. Depois tinha o Um violão, Duas vozes, Você, e a Noite. O Violão era o Geraldo Cunha, ele sempre levava um convidado.Jornaleco: E os estudos?
Márcia: Continuei estudando, mas ia mal, muito mal. Meu negócio era música mesmo. E à respeito de música, naquela época só existia Conservatório Musical, música clássica. Jamais admitiam dentro de um desses conservatórios, que você pudesse tocar música popular. E aos 14 anos, eu comecei a trabalhar à noite, em boate. O Erlon Chaves montou uma orquestra de bailes, e eu era crooner da orquestra deles, e cantava em boate.Jornaleco: E você sendo menor de idade, não tinha problema cantar em boate?
Márcia: Tinha sim, mas a minha mãe ia junto. Era a minha autorização.
Jornaleco: Seus pais aceitaram que você cantasse à noite?
Márcia: Meu pai chegou e me disse assim: “você quer ser cantora né? então eu vou te levar e mostrar a vida lá fora como é que é”. Eu não tinha noção de nada, coisa nenhuma, eu era filha única. Então ele me levou a todas as boates chiques, aos inferninhos, às boates de vagabundas mesmo, a tudo que foi lugar, e falou assim: “olha, isso que você viu, é a vida noturna, se você entrar nela, você corre o risco de tropeçar numa dessas encruzilhadas”. Eu sempre fui muito orientada sobre coisas muito afoitas, muito rápidas e muito fáceis.
Jornaleco: O primeiro disco veio quando?
Márcia: Onze anos depois. Eu participei de um Festival da Record, em 1968, e defendi a música Eu e a Brisa, do Jonnhy Alf. O Jonnhy Alf tocava numa boate da Augusta, chamada Lancaster, e eu ia lá e cantava com ele ao piano. Eu sabia o repertório dele inteirinho, eu adorava. Foi aí que eu defendi a música, ela estourou, eu gravei, primeiro no LP dos Festivais, e fiquei conhecida.Jornaleco: Você participou daquelas reuniões de bossa-nova, comandadas pelo Theo, pela Alaíde?
Márcia: Participei, participei de tudo, sim. Dos shows do colégio Rio Branco, do Fino da Bossa. Naquela época a coisa era assim: eu cantava em uma boate e quando acabava o meu show, ia correndo pra boate aonde a Ana Lúcia cantava pra ver o show dela, a gente fazia isso sempre: um saindo de um lugar, e indo ver o show do outro. Era uma coisa de família mesmo. A Maysa também era cantora e ia todo mundo correndo ver a Maysa cantar. Não existia aquela coisa da rivalidade doentia. Existia isso de disputar com outra pessoa, mas numa boa, sem um ter que matar o outro pra poder subir.Jornaleco: E o segundo disco?
Márcia: O segundo eu gravei no selo Elenco, que pertencia à gravadora Phillips, mas era uma coisa mais elitizada. O Aloísio de Oliveira me chamou pra gravar esse segundo disco, aonde eu fiz homenagem ao Jonnhy Alf, gravei cinco músicas dele, ou mais. Eu não gravei todo ano, essa coisa de ter a obrigação de gravar todo ano para cumprir o esquema da gravadora não era comigo er continua não sendo.Jornaleco: O que você ouvia quando começou a cantar?
Márcia: Maysa, Silvinha Telles, a Silvinha era minha paixão, inclusive eu a imitava quando comecei cantar, porque eu era criança e minha voz era bem mais aguda do que hoje. Eu tenho tudo dela, tudo que ela gravou fora do Brasil. Doris Monteiro, Ângela Maria, e claro, Frank Sinatra, minha grande paixão.Jornaleco: Naquela época em que você estourou, 1968, você tinha alguma ideologia política?
Márcia: Não, meu negócio era música mesmo. Eu gostava muito de algumas músicas de protesto, como Menino das Laranjas, do Theo, mas pela beleza da letra, da música. No mais, eu sempre fui apolítica.Jornaleco: E como foi o show com o Baden?
Márcia: Um dia eu cheguei em casa e havia um recado pra mim, da minha vizinha, embaixo da porta: o Baden Powell quer falar com você, ligou duas vezes. Eu não tinha telefone. Levei um susto, até pensei que fosse brincadeira, mas não era. Daí a pouco minha vizinha tocou de novo a campainha e disse que o Baden estava no telefone. Fui atender e ele disse: “Márcia, pega um avião e vem já pro Rio, você vai se apresentar comigo aqui no Teatro Opinião. Hoje”. Levei outro susto e falei assim: “Tá bom, eu vou”. Voltei pra casa, fiz a mala e fui embora pro Rio. Cheguei meia hora antes de começar o show. O Baden tirou o tom, eu entrei e cantei. Eu sabia tudo do Baden. O show se chamava O Mundo Musical de Baden Powell. Eu estava no auge da felicidade, porque cantar com o Baden era tudo que eu queria. Depois nós viajamos pelo Brasil inteiro, pro exterior, pra Portugal, pra França. E eu continuei trabalhando com o Baden por mais dez anos.Jornaleco: Como foi seu encontro com o Gudin e com o Paulo César Pinheiro que resultou naqueles dois discos maravilhosos na década de 70 e agora um terceiro?
Márcia: Foi assim, um dia eu cheguei em casa, de manhã, às 7 horas. E tinha um menino loirinho, com um violãozinho, me esperando. Dezessete anos. Me esperando pra mostrar o samba que ele havia feito. Eram sete horas da manhã. Eu disse assim pra ele: “olha, eu não tenho condições de ouvir nada agora, eu preciso dormir, eu cantei a noite inteira. Vamos fazer uma coisa? Você vem depois do almoço”. Ele olhou e respondeu: “Eu posso te esperar aqui mesmo?” Eu disse que sim e fui deitar. Mas não consegui dormir porque sabia que tinha uma pessoa me esperando. Então eu dei uma descansada e voltei pra sala e ouvi o garoto tocar. Ouvi e falei: “eu acho que você tem condições sim, mas por enquanto ainda está muito básico, muito quatro, cinco acordes”. Mas ele tocava muito bem. Aí ele grudou. Eu fazia o show com o Baden, no TBC, que naquela época era lindo, e ele ia toda noite comigo. Então eu peguei todos os discos do Baden e emprestei pra ele, dizendo assim: “Não é pra copiar, pra tocar igual, é só pra ver como é que toca”. Ele foi estudando, se aprimorando, um dia fez uma melodia linda, um samba muito bonito e perguntou: “quem podia por letra?” eu respondi: “O Paulo César Pinheiro”. Aí levei a fita pro Paulinho Pinheiro, no Rio. Eu fazia muito mais sucesso no Rio do quem em São Paulo. Aí o Paulinho fez a letra. Depois de um tempo que eles se tornaram parceiros, eles inventaram um show chamado O importante é que a nossa emoção sobreviva. Aí me convidaram e lá fui eu. E agora, 25 anos depois, nós refizemos o show, e gravamos um novo CD, que se chama Tudo que mais nos uniu, que é a primeira frase da música Mordaça.Jornaleco: E você foi também uma grande amiga da Elis?
Márcia: Fui sim. Eu conheci a Elis, em Porto Alegre. Morei lá de 1960 a 1962, com meus pais. Apesar da opinião geral de que ela tinha um gênio maldito, etc., comigo ela sempre foi uma pessoa excepcional, carinhosa, super fiel, super amiga. Uma vez ela me chamou pra passar uma semana com ela no Rio, na casa da av. Niemeyer, e foi muito bom, jogamos buraco, conversamos muito, nadamos. E conheci a maioria do pessoal que fazia música no Rio. Elis fez questão de me apresentar todo mundo. Eu gostava muito dela.Jornaleco: No final da década de 70, depois do seu show com o Gudin e com o Paulinho Pinheiro, a música brasileira de qualidade desandou?
Márcia: É. De repente, a música começou a tomar outro rumos. Quando eu comecei a parar, o jabá já estava no auge. Houve uma inversão de valores muito séria e deprimente. Hoje os profissionais envolvidos na produção de um programa de tevê, cabeleireiro, maquiador, são péssimos profissionais. Antes nós tínhamos profissionais de gabarito. Uma vez me chamaram pra gravar o Fantástico e queriam saber qual era a minha gravadora, pra mandar a conta. Então eu não fui. Eu não queria ir só pra dizer que eu gravei um disco. Eu? Pagar pra aparecer? De jeito nenhum. Fora isso, outros programas me chamaram, no mesmo esquema. Eu fico pasma de ver uma coisa: não sei como os patrocinadores conseguem investir em tanta porcaria, juntar o nome do produto deles na porcaria que a teve exibe hoje. A televisão hoje só desestrutura, emburrece as pessoas. Os caras que têm dinheiro em vez de dizerem: eu quero um programa assim, assim, pra juntar o nome do meu produto a ele. Não. O nome do produto do cara está perto do forró não sei do quê, dos peitos da Fulana, e por aí vai. E as pessoas que lidam com a arte, não sabem onde têm o nariz, não entendem coisa nenhuma de arte. Então fica muito difícil um diretor de gravadora, por exemplo, fazer um disco de gabarito. Ele nem conhece. E só está interessado em ganhar dinheiro. Veja: meu primeiro sucesso foi Eu e a Brisa, que é uma música que o pessoal conhece, lembra, sabe, mas hoje, você sabe me dizer qual foi o grande sucesso do mês passado aqui no Brasil? Pois é, ninguém sabe.
Jornaleco: a Catherine Deneuve disse isso recentemente numa entrevista. Ela disse que se fosse americana, não teria aonde trabalhar na idade dela. Porque os USA têm a obsessão da eterna juventude. Isso se aplica aqui também?
Márcia: O Brasil é um país preconceituoso, porque aqui a arte fica velha, cai de moda, e querem nos fazer crer que a arte é uma coisa ligada à beleza e à juventude. Também é exigência das emissoras de tevê que se tenha pouca idade, rosto e corpo bonitos. Em Paris, eu assisti um show do Maurice Chevalier, já bem velhinho, sendo ovacionado por uma platéia de jovens, eu fiquei emocionada de ver isso.

Jornaleco: Aí você deu uma parada?
Márcia: É, dei uma parada, abri um espaço esotérico, eu sempre fui esotérica, sempre estudei muito isso, sempre estudei astrologia, então fui cuidar desse lado meu, que também é muito importante. Até que recebi um convite do Vítor Martins, parceiro do Ivan Lins, da gravadora Velas, para desenvolver um projeto que chamava Pra machucar seu coração. Aí eu gravei dois cds, na Velas. Era pra ser seis cds, mas acabou ficando dois. Que dentro do contexto do projeto até que foi bem veiculado.E no começo do ano eu participei de um disco sobre a obra do Paulo Vanzolini, aonde eu gravei várias coisas deles. Até então eu só havia gravado Ronda.Jornaleco: O que aconteceu com esses profissionais: sonoplasta, diretor de estúdio?
Márcia: Quando eu gravava, gravava-se a música diretamente. Hoje você pode gravar palavra por palavra, dá pra colocar um ésse numa palavra, cortar uma sílaba. Quando a tecnologia era menor, exigia-se mais talento. O técnico de som tinha de ter mais talento, e suprir a falta de tecnologia com a sensibilidade. Hoje, o cara erra , tem o vídeotape. Ele vai gravar até dar certo. Ele não precisa de talento, precisa de saco pra gravar duas mil vezes a mesma coisa. Hoje, o técnico não precisa ter a menor sensibilidade. Não existe mais talento, existe a tecnologia. E a tecnologia próxima da perfeição, virou isso aí que é hoje. Show ao vivo não existe mais. É tudo dublado. Alguém cantando à capela, nem pensar. O que existe é a xerox da tecnologia. Antigamente você é quem controlava o microfone, segurando perto da boca ou afastando, quando soltava mais a voz. Hoje, a tecnologia faz tudo isso. Claro que existe uma perda nisso: o lado impessoal dos shows e gravações.Jornaleco: Quem canta bem hoje?
Márcia: Quem tem um material vocal bonito e que se trabalhar bem em cima dele e do repertório pode vir a ser uma cantora de qualidade, é a Ivete Sangalo.
Jornaleco: Seu último cd é o Cartola 90 anos?
Márcia: É. Foi gravado, ao vivo, ao vivo mesmo, no Sesc São Paulo, com o Elton Medeiros, arranjos e regência do Theo. O Theo tocando é que nem o Baden, é uma sinfônica acompanhando com um instrumento só. Você se sente super segura. Acompanhar é uma arte, é um arte fantástica.