Lara de Lemos(entrevista realizada por Serjo Robert -
Nova Friburgo, 18 de agosto de 2003)
“Há os verdadeiros escritores e os agentes da própria glória”
Havíamos marcado a entrevista para domingo. Fazia um dia de sol meio acanhado no centro de Nova Friburgo, de onde partimos, eu e meu amigo João Bosco, amigo de Lara de Lemos de longa data, para Mury – um bairro mais afastado da cidade, conhecido por suas grandes e belas casas, e por seu clima sempre mais frio. Chegamos lá com uma garoa leve, e um frio quase inacreditável se comparado com o do centro da cidade. Uma névoa cobria tudo. O condomínio onde mora Lara fica encarapitado numa pequena colina, com muito espaço entre as casas e muito verde, o que, aliás, é outra característica do bairro.
Ela nos esperava. Eu não a conhecia pessoalmente, só havíamos falado pelo telefone. Lara é uma pessoa extremamente bonita, uma presença rara, com uma voz forte e agradável, olhos brilhantes por trás dos óculos, e muita jovialidade. Se não houvesse nos dito que nascera em 1925, não seria possível advinhar-lhe a idade. Frente a ela, que fala de uma forma fluente e direta, me senti quase um imbecil com minha pauta de entrevista. Resolvi que seguiria de forma flexível a bendita pauta, porque, de imediato, observei que se tratava de uma pessoa a quem não se pode fazer falar sobre o que não interesse, e nem calar sobre o que queira. Expliquei-lhe que ela poderia falar como e o que bem entendesse — e mesmo assim, me senti ainda um imbecil, porque este é um direito do qual Lara há muito tempo já se assenhorara.Lara: Nasci em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 1925. Casei, tive três filhos, posteriormente adotei mais um. Então, na realidade tenho quatro filhos. A família, eu costumo dizer, implodiu. A filha, foi estudar na França, casou lá, não voltou mais, está há 17 anos lá. O filho foi pra Londres, — ele é médico — fazer uma especialidade e se desajustou completamente com o país: passou dez anos fora do Brasil. Eu tenho um terceiro filho, que está em Porto Alegre, e, perto de mim eu só tenho um filho, no Rio, que estudou economia. Então eu tenho um filho economista, um filho médico; uma filha que se dedica ao direito, mas não propriamente ao direito de advocacia, como professora de faculdade; e um filho é engenheiro agrônomo. Todos formados, todos casados, todos com filhos, já grandes, e...
Serjo: Bisnetos?
Lara: Tenho. Tenho um bisneto do mais velho dos netos que é uma gracinha! Agora eu vou dar uma de avó coruja dizendo que é uma gracinha! Mas ele é tão inteligente, que a gente fica abismada de ver. Hoje as crianças são muito inteligentes. Eu não sei se é influência do rádio, da televisão, do que é. Ele tinha dois anos e os pais começaram a discutir na frente dele, então ele botou as mãozinhas na cintura e disse assim: Francamente! Eu acho uma coisa engraçada. Ele é muito engraçado mesmo: muito desenvolvido, fala as coisas muito certo. As crianças de hoje estão muito soltas...Serjo: Talvez um menor grau de repressão na educação.
Lara: Com que eles se desenvolvam mais! É por aí.
O quarto em que somos recebidos, é claro e amplo, e das janelas pode se ver o jardim. Falamos brevemente sobre a paisagem, e concordamos sobre a necessidade de se estar ainda tão próximos de árvores e pássaros.Serjo: Lara, qual é o seu signo?
Lara: O meu signo é câncer.Serjo: Você fez o ascendente alguma vez?
Lara: Olha, uma vez, uma mulher muito importante de Porto Alegre -ela já morreu- fez o meu mapa astral. Agora, eu tenho um signo muito curioso: em todos os jornais e revistas do exterior, está claramente em câncer, porque eu sou do último dia de câncer, dia 22; mas os do Brasil às vezes põem em leão. (*Nota: Acontece muito de o sol não “obedecer”, e entrar antes ou depois da data marcada. No caso da Lara, de quem levantamos o mapa posteriormente à entrevista, é realmente em câncer que se encontra o sol). Porque eu nasci de manhã às sete horas, então no céu, ainda era câncer.Serjo: É, agora, nascendo pela manhã, você provavelmente tem o ascendente em câncer.
Lara: É, ascendente em câncer foi o que ela me deu: câncer com ascendente em câncer. Ah! Eu adoro! Você sabe que eu adoro?! Eu tive um livro maravilhoso, sabe? Ele era da Hemus, e alguém me carregou. Era realmente tão fascinante, porque descrevia as pessoas tal e qual elas eram; tanto assim que meu ex-marido que não acreditava em nada, o dia que leu, disse que era uma revelação (risos), de tão impressionado que ele ficou. E realmente, o que fala de câncer é que é um dos signos mais difíceis, que tem uma tendência tremenda para a depressão, devido aos ciclos da lua. Eu me acho muito câncer. Por exemplo, a minha filha é leão, então ela é assim...Digamos que ela tem uma tendência enorme pra ser líder, pra liderança; o meu signo não tem absolutamente nada disto: eu não quero mandar nem ser mandada, eu quero é ficar quietinha. Não tenho nenhuma vocação pra liderança, então eu acho que sou câncer mesmo. Câncer é aquele bichinho que se esconde debaixo das pedras.Serjo: É como você aqui neste cantinho teu, por sinal bem canceriano.
Lara: É, bem canceriano.
O entorno de Lara é de fato bem lunar bem canceriano: aconchegante mas sem luxos desnecessários, maternal mesmo. No entanto, o brilho que brota dela vai além do ninho em que se esconde um canceriano típico. E também sei que Lara já foi mais cosmopolita. Tento saber mais.Serjo: Deixa eu te perguntar uma coisa: há quanto tempo você está em Friburgo?
Lara: Vinte e seis anos.Serjo: Vinte e seis anos?
Lara: É. Que absurdo! Eu acho um absurdo.Falamos um pouco sobre a fuga do Rio e dos grandes centros, já que todos nós ali vínhamos de centros mais urbanos. No caso de Lara, passa um pouco por todo o período da ditadura militar, da qual tanto ela quanto os filhos foram vítimas.
Pergunto quanto tempo ela teria levado para tirar todo o cenário de prisão e tortura de dentro de si. Ela parece retornar um pouco no tempo, fala da invasão de sua casa, e do aturdimento que tudo isto causa. Me explica então que apenas depois de chegar a Friburgo é que pode realmente rever todo este período, utilizando o lirismo poético em “Iventário do medo”, para superar o horror.Serjo: tem uma questão que particularmente me interessa: sobre as suas aquarelas. Você pinta?
Lara: Ah! Eu realmente, eu me considero, sem nenhuma falsa vaidade, uma artista. Eu tenho muita vocação pra tudo que é arte. Por exemplo, eu fiz escultura. Um dia foi muito engraçado: eu fiz um “Menino Jesus de Praga”, e depois eu levei pro padre benzer, aí ele me disse: você não pode fazer isto e depois adorar, não (risos) Isto é contra a religião, ele disse. E eu disse: mas o que eu vou fazer, se eu não gosto daquelas coisas horríveis que a gente compra? São muito feios, e eu fiz um muito bonitinho! Então, sobre as aquarelas, tem duas aí, e no quarto de lá tem uma parede cheia de aquarelas minhas.Serjo: Estas estão muito bonitas, depois eu vou ao outro quarto dar uma olhada. Aquarela é uma coisa que eu gosto muito.
Lara: Eu também gosto muito.Serjo: Eu notei que são flores estas duas aquarelas.
Lara: Eu tenho muita tendência pra flores e paisagens em aquarelas.Serjo: Também é muito a minha linha: paisagens. Mas uma das coisas que mais me seduz é a luz, a iluminação.
Lara: Eu também, eu acho a luz fascinante.Lara: Você conheceu o Raimundo? Ele é um cara que você vai curtir muito.
Serjo: O nome não me é estranho...Lara: Raimundo Félix.
João Bosco: (entrando no quarto, depois de ir olhar as outras aquarelas) Eu conheço o Raimundo. Quando vi algumas daquelas aquarelas que você tem no outro quarto, eu cheguei a pensar que fossem dele.
Lara: Ele foi meu professor. Eu pintei muito na casa dele. Depois eu pintei sozinha: eu arrancava flores, trazia pra casa e pintava: eu gostava disto.Serjo: Bem, você já esculpiu, você já fez aquarela.
Lara: Esculpir, propriamente, não: eu trabalhei com barro.Serjo: Modelagem.
Lara: Modelagem, isto eu fiz. Fiz desde Porto Alegre. Eu tenho bastante facilidade pra pegar um barro e fazer uma peça. Tinha, porque agora, com a minha idade, fica mais difícil.Serjo: E em qual destas modalidades você se encontra mais?
Lara: Bem, onde me encontro mais, é na poesia mesmo. Desde pequena, foi a constante da minha vida, o resto foi momentos. Eu tive momentos de aquarela, momentos de escultura, mas foram todos momentos.Serjo: Você falou que a poesia te acompanha desde de pequena. Em que momento em que você se descobriu como poetisa?
Lara: Foi muito curioso esta descoberta da poesia pra mim. Porque eu, desde pequena, assim que comecei a aprender a escrever, já gostava. Um dia a vovó ficou comigo, e eu escrevi na parede: nesta barquinha – eu desenhei uma barquinha (e aí já havia o desenho) – nesta barquinha, vozinha querida, vai um pouquinho da minha vida. Eu queria fazer as pazes com ela.Serjo: que idade você tinha?
Lara: Eu tinha uns seis anos. Bom, aí, um dia no colégio uma menina me disse: Lara faz um versinho para o meu cachorro; e eu respondi: faça você, é tão simples! Ela disse assim: Mas eu não sei! Então, quando ela disse “eu não sei”, eu me descobri como uma pessoa errada, era como se eu fosse corcunda, eu pensei que todo mundo soubesse escrever poesia. Então quando eu descobri que nem todo mundo sabia escrever poesia, eu passei a escrever escondida. Eu me escondia pensando: Meu Deus, fazer poesia é uma coisa esquisita. Tanto assim que, a primeira vez que eu escrevi pra uma revista na faculdade, na PUC de Porto Alegre, o meu tio encontrou um professor meu que disse pra ele: meus parabéns; e o meu tio: Parabéns porquê? Pela sua sobrinha que tirou o primeiro lugar de poesia. Aí descobriram, na minha casa, que eu escrevia poesia. Aquilo pra mim foi um choque terrível. Quando me perguntaram sobre o que eu tinha escrito, eu comecei a chorar. Porque eu achava aquilo uma coisa tão íntima, tão pessoal. Como religião, uma coisa íntima que se as pessoas querem mexer com isto, me faz muito mal. Amor, poesia, religião, e escovar os dentes, são coisas muito íntimas.Serjo: Qual foi a reação da sua família quando te descobriu poeta?
Lara: Olha, foi uma coisa engraçada. Eu não sei porquê, mas a minha família tinha umas coisas estranhas: davam um nome de batismo a uma pessoa e chamavam por outro. Então, por exemplo, me deram o nome de Lara; ta lá na certidão; mas me chamavam de Gabi. Gabriela! Muito louco! Mas é que Lara em espanhol é sobrenome, e havia um Goalkeeper(NR: Goleiro) por lá, com este nome. Então meu pai falou: vocês estão loucos, colocar o nome de um goalkeeper, não! Ela vai se chamar Gabi! E até chegar no ginásio, sempre fui chamada de Gabi. Então quando chamavam Gabi na sala de aula, eu olhava pra ver quem era.Serjo: Em compensação não respondia quando chamavam Lara!
Lara: Mas depois eu achei que meu nome era bonito, porque vinha do russo, larir, e tal...e aí eu comecei a gostar do meu nome. Mas eu tinha um primo chamado por Sérgio, e o nome dele era Aníbal.João Bosco: Ai, meu Deus! Era bem complicada a tua família!
Lara: Pois é: bota um nome e chama outro! Esquisito, né?Serjo: Com certeza! Mas e aí, como é que foi a reação da família quando te descobriram poeta?
Lara: Mas aí, eles disseram: A Gabizinha é muito esquisita, mas a gente tem que aceitá-la com ela é. Como se fosse realmente um defeito! Porque, o que esperavam de uma moça, há sessenta anos? Que aprendesse a costurar, que aprendesse a cozinhar, a bordar, e no máximo que estudasse para ser professora. Como eu não fazia nada disso, e queria ser médica, eu era mesmo uma pessoa muito estranha na família.Serjo: Mas você chegou a estudar medicina?
Lara: Não, porque aí minha avó achou que era um absurdo, porque eu iria ver corpos, corpos cortados. Aí, eu fiz prova pra PUC, e fiz cinco faculdades. Eu estudei História, Geografia, Pedagogia, Jornalismo – que naquele tempo era Jornalismo, hoje em dia é Comunicação – e fiz Direito. Fiz cinco Faculdades.Serjo: Engraçado: nada de Letras, ou coisa parecida.
Lara: É, eu adoro psicologia, e não fiz. Quer dizer: eu me contrariei. Fiz porque achei que era aquilo que a família esperava de mim. E lecionei todas.Serjo: Entre elas, tem alguma que você goste mais?
Lara: Eu gosto de todas, sabe? Eu gosto de História, eu gosto de Jornalismo. Eu fui jornalista por muito tempo. Quer dizer: eu acho que a que eu menos gosto é Direito, porque Direito, eu fiz aquele mínimo que a gente faz para se formar.Lara me faz pensar que algumas pessoas nascem prontas, ou quase prontas. Sua história pessoal é a de ser diferente, inovadora, sem mesmo saber como ou porquê: ela apenas é, mas este ser, este modo de ser, incomoda, a despeito de sua intenção.
Serjo: Dentro de todo o processo de formação em escrever, desde menininha, quais foram os autores que mais te influenciaram?
Lara: Eu acho que eu fui muito espontânea, mas eu tive um professor que me disse um dia: Lara, você não deve se influenciar tanto por Cecília Meireles – e me disse um outro autor que agora eu não me lembro. Acontece que, até então, eu nunca tinha lido Cecília Meireles, entende? Aí eu fui ler. Então eu descobri que o verso de sete sílabas, que é muito comum na Cecília, eu usava. Mas acho que fui muito espontânea. E na “Província de São Pedro”, que é como se chamava a revista da Faculdade, eles premiaram oito poemas meus.Serjo: Que idade você tinha?
Lara: Foi logo que eu entrei na Faculdade. Acho que tinha um dezoito. Mas aí, muito tempo depois, quando escrevi meu primeiro livro de poesia, chamado “O poço das águas vivas”, é que eu recebi realmente meu primeiro prêmio: aquilo sim é que foi prêmio. Eu tirei o prêmio “Jorge de Lima”, “Menotti Del Pichia”, o prêmio “Sagol”, vários prêmios em vários lugares do Brasil. Eu digo brincando, que eu sou das mais premiadas e menos lidas.Serjo: Seu primeiro livro saiu em que ano?
Lara: Mil novecentos e cinqüenta e sete.Serjo: E além de poesia, você já excursionou por outras áreas da literatura?
Lara: Contos. Eu tenho um livro de contos publicado. Que eu acho que ninguém sabe, porque, em alguns lugares, como Minas, eles se protegem, se divulgam...Agora, no sul, não. Sinceramente, eu considero meu livro de prosa muito bom, mas ele nunca foi reeditado.Serjo: Em que ano ele foi publicado?
Lara: Eu acho que em cinqüenta e cinco, cinqüenta e sete, mas ele nunca foi reeditado.Serjo: Valeria a pena dar uma caçada por aí, pra ver se encontra um exemplar...
Lara: Agora eu acho que depois de morta, eles publicam: eu serei póstuma (risos).Discorremos então sobre o ser póstumo. Quero saber como é que ela vê o depois da morte. Seus olhos brilham a princípio, depois parecem se perder em algum lugar, e então, voltando-se pra nós, me diz que talvez vá me decepcionar. “Acho que depois não há nada.” Tudo nasce e se esgota um dia —árvores, bichos, tudo — tudo volta pra terra”. Depois, retomando a loquacidade e o brilho do olhar, nos fala do acidente que a mantém na cama há seis anos. Não sinto nenhum lamento no que fala: é como se ela falasse de outra pessoa. Ademais, olhando-a, nem ao menos vemos uma pessoa que possa trazer alguma dor. Ela no entanto confessa que tem muitas dores, e depois diz, sem que se possa notar em seu rosto o menor queixume : “Olha, espero que vocês entendam o que vou dizer da maneira certa. Não há nada de lamentação nem dramaticidade no que vou dizer : eu rezo muito para morrer logo.” Não, não vejo nenhuma dramaticidade em seu rosto. Entendo perfeitamente o que ela diz.
Serjo: Quantos livros ao todo você já publicou?
Lara: Quatorze. Com esta Antologia, quatorze.Serjo: Algum traduzido?
Lara: Olha: eu tive traduzido pro espanhol – na Espanha, em Barcelona – fizeram uma antologia. E ela é bilíngüe.Serjo: Português e espanhol?
Lara: Português e espanhol.Também fui publicada em Portugal.Serjo: Olha, eu encontrei referências sobre você na Internet, na página da PUC, e , se não me engano, na Federal de Minas Gerais. Eu achei a referência da Federal de Minas muito mais ampla; a da PUC, parece ater-se apenas à tua obra, enquanto a da Federal de Minas passeia pela tua vida. Todas elas ficam dentro de um contexto do tipo “a mulher na literatura”. De maneira que, apesar de você se dizer pouco conhecida, ou pouco lida, você já é dada como referência...
(No momento em que transcrevo a entrevista, acionando o Cadê –o site de buscas – encontro cerca de quarenta menções a Lara de Lemos. Lara é realmente uma referência literária do nosso tempo, mas não uma referência popular de poesia, como Drumond ou Bandeira. Penso se isto se deve, com ela explica antes, à pouca união entre autores sulistas, ou se à pouca importância que ela visivelmente dá à fama.)
Lara: Eu não tenho nenhuma veleidade, eu acho que sou muito pouco lida. Mas eu acho que é porque aconteceram muitas coisas na minha vida, inclusive este acidente, que faz seis anos que, praticamente não saio da cama.
Serjo: Deixa eu te perguntar uma coisa. Como foi este processo de publicar livros: te ofereceram, você correu atrás?
Lara: O primeiro livro que eu publiquei em Porto Alegre, “O poço das águas vivas”, eu concorri junto com Walmir Ayala, e outros poetas muito bons, e, misteriosamente, eu tirei o primeiro lugar, e o prêmio era publicar o livro. Quase sempre, nos concursos em que eu entrava, o prêmio era a publicação do livro, inclusive no prêmio de Brasília, o “Jorge de Lima”.Serjo: Mas isto aconteceu com todos os quatorze?
Lara: Não, não aconteceu. Até aqui em Friburgo, eu fiz um livro de Hai kais –quando eu conheci Bashô, e fiquei muito apaixonada – e escrevi um livro que foi ilustrado por um rapaz daqui, que agora eu até esqueci o nome dele...João Bosco: Mário Wagner.
Lara: É, Mário Wagner.Serjo: E este você publicou por conta própria?
Lara: Por conta própria.Serjo: E teve algum caso de um editor te procurar?
Lara: Sim, um que morreu –coitado- não estou lembrando o nome dele. Teve dois editores que me procuraram: um japonês de São Paulo...Serjo: Massao Ohno?
Lara: Sim, Massao Ohno. E o outro foi o da Civilização Brasileira, o Ênio Silveira.Serjo: Massao Ohno chegou a publicar então?
Lara: Sim, publicou dois livros.Serjo: Tua preocupação com a poesia é mais com a estética, ou mais com a forma?
Lara: Ah! Não: é mais estética, mais emocional. Eu acho que o formal a gente aprende, é uma coisa de tarimba. É como o sapateiro –você pode dizer: eu não gosto do sapato, mas está bem feito. (risos) Então a tarimba pra fazer coisas, você vai tarimbando com tempo que você faz. Agora o espontâneo, o que sai de você por causa de alguma coisa, sei lá...Serjo: Quer dizer que pra você o formal é meio automático, adquirido pela prática?
Lara: Isto mesmo!(Não existe nela, como ela mesmo afirma várias vezes, não só veleidade, mas também quaisquer outros tipos de sentimentos de competição ou despeito em relação à literatura brasileira contemporânea e seus autores. Quando fala sobre isto, é apenas sua cristalinidade, sua franqueza e sua força natural que dão as cartas. Desta forma, ela não se furta a opinar, mesmo considerando as reações que possa provocar.)
Serjo: A poesia discursiva, mais apegada à idéia, perdeu um pouco da sonoridade natural da poesia?
Lara: Ao meu ver, sim. Eu não gosto muito da poesia verborrágica, discursiva, realmente eu não gosto. Eu gosto de sentir sinceridade, de sentir verdade no poeta. Tanto num quadro, quanto numa poesia, eu gosto quando você sente que há uma verdade ali. Nós temos o Ismael Néri, você sente verdade nele, então eu gosto. (obs: o Ismael pintou uma aquarela onde, brincando, desenhou a data da morte dele. E foi justamente nesse dia, em que ele morreu.)Serjo: Você gosta de Drummond?
Lara: Eu gosto. Apesar de Drummond ser bastante formal.Serjo: Que outro autor brasileiro você gosta, ou te influenciou?
Lara: Olha, eu sou apaixonada pelo Jorge de Lima. Eu o acho um louco. Aquele livro dele, “A invenção de Orfeu”, aquilo é uma loucura. Ele fala de um cavalo, que lê o livro com ele, que lambe as páginas que está lendo, é uma coisa tão doida! O livro dele está sempre perto de mim, de vez em quando eu pego e leio, ele tem coisas extraordinárias. Tem um poema em que ele diz: Te queres ilha, despe-te das coisas; tira os botões, os sapatos, a gravata, tudo o que te prende, tudo, tudo, que nada te abandona, tudo te agarra. Este poema...Ler, eu gosto muito do Jorge Lima, pra mim ele seria o melhor; depois eu gosto da Cecília: ela é muito doce; eu gosto do Drumond; eu gosto do Bandeira –aquele livro dele de Passárgada, eu gosto muito. E...Realmente não gosto de muita gente que todo mundo gosta.Serjo: Por exemplo?
Lara: Por exemplo, Adélia Prado. Eu a acho muito...Como é que eu vou te dizer? Eu acho ela muito provinciana, muito de dentro de casa...Negócio de peixe...Eu não gosto deste tipo de coisa: limpa o peixe pro marido. Acho uma coisa muito provinciana: eu não gosto deste tipo de coisa. Todo mundo adora. Isto tudo é uma questão de mídia: depois que a Fernanda Montenegro recitou um texto dela, pronto, acabou, ficou famosa. Agora, se tu pegares bem o jeitinho, as coisas dela são chatas.
Bom, eu tenho meu próprio gosto. Eu gosto muito de alguns poetas estrangeiros.Serjo: Por exemplo?
Lara: Tem um espanhol que eu gosto muito...Garcia Lorca.Serjo: E os clássicos?
Lara: Olha, dos clássicos, eu te confesso que conheço muitos, mas nunca me apaixonei. Por exemplo: Camões. Eu adoro os sonetos, já o ”Os Lusíadas”, eu não gosto.Serjo: Você gosta de poesia concreta?
Lara: Olha, depende do poeta. Alguns poetas concretos eu gosto Aquele que é muito doido, que tem cara de índio, eu gosto muito dele.Serjo: Você acha que a poesia concreta perde em universalidade por criar problemas com a tradução?
Lara: Ah! Isto eu não sei te dizer. Sinceramente, eu não sei. Eu até fiz poesia concreta, mas tudo o que eu li foi em português e não conheço poesia concreta estrangeira.Serjo: A literatura se divide em “turmas” ainda, como no tempo de Mozart? Ainda há os Salieris e os bons escritores?
Lara: Eu sempre digo que há os verdadeiros escritores, e os agentes da própria glória. Olha, eu vou te dar um exemplo: o Carlos Nejar, quando era garoto, ele era maluco; se ele fosse na tua casa, e visse um livro que ele gostasse e não pudesse levar, arrancava a página botava no bolso; e ele escrevia poesias com muita força; à medida em que foi se tornando um poeta conhecido, ele foi se tornando muito convencido. Então eu detesto a poesia dele hoje, ele faz uma prosa muito ruim, mas ele é um agenciador da própria glória: ele está na academia, ele é muito importante, ele é o centro. Dizer que eu gosto do Paulo Coelho, eu não gosto, porque, em primeiro lugar, ele é um plagiador: ele pega os antigos, traduz, bota o nomezinho dele –lindo, mas não é dele. Olha, eu vou te dizer, tem tanta coisa dele que não é dele. Porque ele sabe que depois de cinqüenta anos é público. Tem uma historinha chinesa que eu acho uma gracinha, que ele assina, e que não é dele.Serjo: Fora da poesia, o que, quem mais você gosta de ler?
Lara: Eu gosto muito de ler biografias bem escritas. Por exemplo, eu li a biografia de uma atriz, a Ingrid Bergman, que é comovente. Eu gosto muito também da Isabel Allende: aquela mulher é maravilhosa. Ela escreveu um livro, que eu chorei: é tão real, é tão...Não sei! Ela me toca muito! Eu reli também a biografia da Dina Sfat, que gostei muito. Também a biografia daquela mulher maravilhosa que escreveu Orlando, como é o nome dela?Serjo: Virginia Woolf.
Lara: É, Virginia Woolf. É extraordinária. Eu li o livro da vida dela, ela se suicida, coloca pedras nos bolsos, e se joga no rio, e se suicida. Tem coisa muito interessante em prosa, mas eu sempre sou tentada a saber com é a cabeça das pessoas, como elas pensam...Eu devia ter estudado psicologia: é o que eu mais gosto.Pergunto sobre o erotismo em sua poesia .Seus olhos se perdem nova mente no tempo. Fala do amor de maneira clara e leve. Nunca teve a intenção de ser explicitamente erótica, e quando isto se dava, era no bojo da totalidade da poesia.
Confessa que burila suas poesias, procurando, após o esboço inicial, a palavra mais exata, – quem sabe, penso, a Palavravara, título de um de seus livros? - e, ao mesmo tempo, tenta não gastar palavras –tudo da maneira mais limpa e simples. Sim, ela aprecia o amor ainda, como quer que seja, mas pra ela – diz meio em tom de brincadeira – isto já é coisa do passado. Pensa que a poesia se situa mais próxima da música do que da filosofia, mas esta última – filosofa – também está na música.
Conversamos ainda um tempo: coisas à toa, brincadeiras –ela ri com facilidade – e devaneios. Fala de amigos que conhecemos – uma amiga que liga sempre para reclamar da vida, e que, em sua solidão, esquece que a própria Lara, há seis anos está presa à cama – e ri disto tudo.
Lara assina um dos poucos exemplares da Antologia Poética, publicada em 2002 pela coleção Autor, da Secretaria de Estado da Cultura dói Rio Grande do Sul. (ela mesma tem poucos exemplares de seus livros) e me estende. Sinto-me humildemente envaidecido com a grandeza do presente.
A tarde já está avançada quando nos despedimos. O mesmo frio nebuloso lá fora. Mas minha impressão é a de que, durante todo tempo da entrevista, brilhava o sol...Mas era Lara quem brilhava.