São Paulo, 04 de junho de 2004
Flávio Junqueira(entrevista)
Flávio Emílio Nogueira Junqueira tem 50 anos. Nasceu em Resende, estado do Rio de Janeiro, onde morou até os 18 anos. Fez medicina veterinária. Treze anos depois formou-se em Programação Neurolingüística, e posteriormente, de 1997 a 2000, foi para Holanda estudar o método Feldenkrais, pouco conhecido no Brasil, que deve contar com uns cinco profissionais na área. Flávio atualmente mora e trabalha em São Paulo, onde fundou a PrintAction. Tem 3 filhos: Milla, Matheus e Daniel. Também tem os olhos grandes e azuis. Os mais bonitos que eu já vi.
Jornaleco: Flávio, como foi a sua infância e porque você resolveu fazer medicina veterinária?
Flávio: Eu fui criado na Academia Militar de Agulhas Negras. Eu sou filho de militar. Eu praticava vários esportes, nadava, andava a cavalo, jogava basquete, corria, andava de bicicleta, acompanhava os maratonistas. Então eu tinha muita atividade. Isso me deu uma percepção de um mundo muito legal. E nessa fase de equitação eu comecei a aprofundar a relação que eu tinha com os cavalos, que já era uma relação grande, intensa. Eu tinha um vizinho que era médico veterinário, Cel. Dr. Fernandes, e certa vez, acompanhando o tratamento de um cavalo, chamado Bandoleiro, ouvi dele: “Olha aí, Flávio, você é interessado, parece que já conhece as coisas”. Aí eu percebi que a medicina veterinária fazia parte de mim. Com 18 anos, eu fui pro Rio com a clareza e convicção de que queria fazer medicina veterinária. Sou médico veterinário, só não exerço a profissão hoje. Não larguei a veterinária, mas com tudo que estudei apenas agrupei mais informações sobre a Natureza e o Homem faz parte dela. Então, com 18 anos, fui pro Rio fazer cursinho pré-vestibular, entrei na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, e na época do curso morava na própria universidade, porque ela dista 70 km do centro da cidade do Rio de Janeiro. Se você pegar a antiga estrada Rio-São Paulo,saindo da Dutra, vindo de São Paulo e descendo em direção ao Rio de Janeiro, via Campo Grande, na Serra das Araras, tem uma planície fantástica. E é lá a universidade. Majestosa. Os departamentos de química, física, biologia e outros, são muito bonitos. É uma área enorme, se não me engano são mais de 2.500 alqueires de terra, tem o instituto de pesquisa do Embrapa. Importantes pesquisadores vivem lá. Aí eu me formei e vim trabalhar em São Paulo, no Jockey Clube. Porque eu estava com o foco muito dirigido aos cavalos e o único lugar no Brasil que dava residência era o Jockey Clube.Jornaleco: E continuou no Jockey?
Flávio: Não. Eu fiquei dois meses estagiando e daí fui trabalhar em Orlândia, numa cooperativa. Nessa cooperativa, boa parte das pessoas jogava pólo e criava cavalo. E nesse local eu pude ter uma visão bem maior do que era o Brasil, do que era a agropecuária. Pra se ter uma idéia, essa cooperativa vendia mais adubo do que o estado do Paraná inteiro. Aquilo era chamado de Califórnia brasileira: bois, cavalos, laranja, soja e cana. Depois eu fui para o sul de Minas, São Gonçalo do Sapucaí, trabalhei quatro anos numa outra cooperativa e depois montei a Vet Country, prestação de serviços veterinários, laboratórios de anemia infecciosa eqüina e de outras patologias, além de internação de animais de grande porte. Junto com a atividade de veterinário eu ia promovendo eventos de equitação para a sociedade, como feiras agropecuárias, exposições, e concursos hípicos de cross-country. De lá eu fui para Campinas, próximo a Jaguariúna, onde ficavam os haras do Jockey de São Paulo. De Campinas eu fui pro Paraná, para Paranavaí, em outro haras, depois eu voltei pro Rio, eu trabalhei mais um ano em um haras no estado de São Paulo, que foi quando eu dei um basta.Jornaleco: Foi aí que aconteceu a sua mudança da veterinária pra Neurolingüística?
Flávio: Quando eu estava em Paranavaí, é que começou a mudança. Até então eu era muito voltado para a medicina, os livros, os novos procedimentos. Pouco antes de chegar ao Paraná, eu estava aqui em São Paulo, em um congresso, e nesse congresso começou uma polêmica: se valeria a pena fazer transferência de embrião em eqüinos. E aí eu comecei a pensar de uma outra forma sobre isso. Pensei no Planeta, na medicina, pensei para que serviria isso, se teria função gastar tanto dinheiro pra fazer a transferência de embrião de um determinado animal e que função teria isso pro mundo, pra terra. Aí eu comecei a pensar diferente. Porque no Paraná eu estava afastado 700 km da minha família, morava no haras, junto com os animais e comecei a criar em mim um movimento de introspecção e como, desde pequeno, eu tenho um afeto pela vida em geral: vida de planta, de bicho, de rios, e lá eu voltei a esse convívio, bem mais próximo de todas as formas de vida. Isso foi em 1989. E o haras era assim: os funcionários e os proprietários dos cavalos iam embora e ficávamos eu, Flávio, os cavalos e a natureza. Ali eu comecei a escrever alguns apontamentos, que chamei de Movimento Vida. O que significa isso? que eu acredito que qualquer tipo de expressão de vida tem de ter movimento. Mesmo que seja apenas o movimento de “pensar”. E eu coloquei Vida, não pela palavra em si, mas pegando as iniciais das palavras da seqüência: Ver, Identificar, Definir e Agir. A partir disso eu comecei a desenvolver mais o que acontecia no ato de “ver”, que hoje se reporta à uma atitude mais completa: ver, ouvir e sentir, ou seja, perceber. Um dia, trabalhando com 400 éguas, no haras, com a finalidade de reprodução, eu me fiz a seguinte pergunta: para que o planeta precisa de tanto cavalo assim? e eu me vi como uma parte do setor de produção de uma fábrica. Sabe, o operário que fica lá batendo chapinha? foi isso. Então percebi que estava aberto à novas idéias, a aquilo que eu poderia fazer de diferente. E então pensei que quanto mais nós mimetizássemos, imitássemos o comportamento dos animais em liberdade, na natureza, como numa manada, ficaria mais fácil administrar esses animais, Então dividi o haras em áreas em que os grupos interagiam entre si, e ficou muito interessante, prático e funcional. Eu cheguei a fazer um tipo de lugar onde as éguas iriam parir e nós não iríamos interferir, apenas supervisionar para dar suporte e aprender. E nesse dia, parece que um cavalo falou comigo, lógico que não falou, mas eu fiquei com aquela intuição dele ter dito assim: “bom, agora que você entendeu que a gente não precisa mais de você, quem sabe você vai estudar um pouco mais da sua espécie, para que eles causem menos danos na gente e no próprio planeta”. Aí eu tive a grande sacada de perceber que estudar a natureza humana, não só a do ser humano no que se refere ao físico, mas também a energia do pensamento, me daria possibilidades de uma atuação bem maior do que a área da medicina veterinária. Comecei por diversificar a minha leitura, comecei a ler filosofia, coisas que expandiam a minha mente, como o Tao, comecei a perceber que as pessoas que se dedicavam a isso, a se aprofundar na natureza humana, de qualquer forma, tinham um pensamento semelhante ao meu. Aí um amigo me disse: Flávio, vai estudar Neurolingüística, que isso que você projetou no Movimento Vida é pura neurolingüística. Aí o meu trabalho como médico veterinário perdeu um pouco o propósito e quando a gente faz uma coisa sem propósito, ou saímos por vontade própria ou a natureza acaba nos pondo para fora dela.
Jornaleco: E você sempre gostou mais de cavalos do que de outros bichos?
Flávio: Eu sempre tive uma coisa que me identifica mais com os cavalos, muito mais do que com cães e gatos. E veja bem: eles, os cães e os gatos, são capazes de sobreviver e manter os seus instintos, mesmo próximos do homem. Porque se há um vírus que deteriora qualquer característica do estado de ser do animal é o homem. Os cavalos do Jockey Clube, em sua maioria, para mim, são centauros. Você interage com um cavalo e vê que ele assimilou muito os comportamentos humanos, independentes de ser positivos e negativos. Do tratador, do treinador, etc. Eles são metade homem e metade cavalo. E isso também me deixava muito mal: eu olhava aquilo e pensava: eu não nasci pra lidar com isso. Eu não vou agüentar ficar vendo essa artificialidade toda em nome do dinheiro. E quando eu fui fazer um curso no Cenargen, em Brasília, eu me falei: não. As pessoas estão indo para um rumo que não me interessa...Jornaleco: Qual rumo era esse?
Flávio: A clonagem. Então eu lembrei do cavalo lá em Paranavaí já havia me dito: saí disso. Para tomar a decisão de largar a veterinária eu fiquei no Rio uns oito meses, e foi nesses oito meses que eu entendi que precisava estudar PNL.Jornaleco: O que é a programação neurolingüística, a PNL?
Flávio: É a nomenclatura que dois pesquisadores, que estavam fazendo um trabalho na Universidade de Santa Cruz, da Califórnia, deram para a atividade interna da experiência humana e suas expressões. O que é atividade interna? É tudo que não conseguimos ver, você não consegue entrar na cabeça das pessoas e acompanhar o que acontece lá dentro. Isto é atividade interna, o que a gente chama de capacidade, e que é a receita do bolo, o que a pessoa faz na sua mente que gera o modo como ela se comporta em seus ambientes de convívio. Isto faz parte da PNL. Então, eles, Grinder e Bandler, ficaram observando pessoas bem–sucedidas, profissionais da universidade da época,e perceberam que, independente da técnica de cada um, existiam padrões de expressão que tinham semelhança no movimento ocular, nos gestos, no timbre de voz, e aí criaram uma nomenclatura para denominar o estudo dessas atividades descobertas por eles. Por exemplo, o movimento ocular: quando você está conversando com alguém e fala alguma coisa da sua camiseta, o foco vai do olho para o objeto, mas, se por outro lado você me pergunta: Flávio, você se lembra da cor da camiseta que eu estava vestindo ontem? Para que eu possa lhe responder, de alguma forma, eu preciso acessar nos meus arquivos internos esse momento de ontem. Se eu for entrar no meu arquivo via som, o meu olho vai para o lado esquerdo (para as pessoas destras, em sua maioria), na direção do meu ouvido. Porquê? o olho vai ver algum som? Não. É porque o olho está ligado na neurologia à uma parte do cérebro. E essa parte estimula o globo ocular todo a se movimentar pra lá. Não é que se o olho não se movimentar, você não vai se lembrar. Não é isso. É que o movimento do olho faz parte de um sistema neurológico integrado. Esse “acesso” pode ser através de qualquer canal: som, audição, etc. Nós temos canais sensoriais: o visual capta a imagem, o auditivo o som, e o cenestésico capta três ou mais coisas que são: tato, gosto, cheiro, a sensação de estar na terra, de estar em pé, equilibrado. Se eu tirar a gravidade, você flutua. Cada pessoa, dependendo daquilo que lhe é prioridade, desenvolve este ou aquele canal. Voltando ao exemplo: se eu for acessar uma imagem criada, os meus olhos sobem além da linha do horizonte e vão para a direita porque foi criada. Para a esquerda se refere à memórias de imagens, lembrando sempre que isto não é regra. Isto faz parte da neurologia humana. E se, por acaso, eu acessar uma imagem que, associada a ela, aconteceu também uma emoção, imediatamente o meu olho se movimenta em direção ao lado direito, embaixo, e eu fico experimentando as sensações que aquela imagem me causa. Isso são os canais sensoriais. Então se você me perguntar o que a PNL faz, a resposta é: nada. Ela só te aproxima da sua natureza e da natureza do seu semelhante, gerando consciência das suas funções.Jornaleco: Dizem os críticos da PNL que ela seria hoje o que foi o pensamento positivo da década de 40 nos Estados Unidos, só que mais aperfeiçoado.
Flávio: Esse comentário corresponde a 1% da realidade. O pensamento positivo nada mais é do que um pequeno segmento da experiência humana. Se eu foco a minha atenção naquilo que eu quero, facilmente eu ficarei atraído. A palavra positivo não tem o significado de bom. O pensamento positivo assemelha-se a uma radiografia, que tem imagens positivas e negativas. O que é o positivo na radiografia? São as partes ósseas. O que o raio-x não ultrapassa. Então fica branco. O negativo são as imagens pretas porque o raio-x penetra e queima o filme do outro lado. A massa muscular é mole e permite a passagem do raio. O pensamento positivo então, para mim, é um segmento da experiência humana onde o foco de atenção está na direção daquilo que se quer, independente da sua qualificação, e a PNL aprofundou muito mais que isso, acompanhou a atitude humana desde a construção do pensamento até às suas expressões mais profundas, entendendo os tempos verbais, os seus efeitos, valorizou não só o conteúdo das palavras mas as estruturas de montagem de como construímos uma frase, modelos de linguagem, metamodelos de linguagem, desenvolveu exercícios que puderam colocar o ser humano na experiência e acompanhou os efeitos fisiológicos e corporais que se consegue perceber no momento de uma experiência. Como esse próprio movimento ocular, a expressão da respiração, os gestos verbais e não-verbais, padrões de submodalidades de pensamento.Jornaleco: O que são submodalidades e padrões de pensamento?
Flávio: Se eu sou uma pessoa mais ligada à minha visão, a minha modalidade de pensamento é visual. Quando eu estou falando de padrões de submodalidade, considerando-se que eu opero bem mais através do visual, as palavras que eu uso para expressar esse visual, seriam brilho, luminosidade e semelhantes. Então: brilho, luminosidade, são sub-modalidades da modalidade visual. A sub-modalidade é o adjetivo que se refere à modalidade.
Jornaleco: Você trabalha, não só com programação neurolingüística, mas também com o Método Feldenkrais, que é quase desconhecido aqui no Brasil. Como começou isso? Fale um pouco sobre esse método também.
Flávio: Eu estava em Penedo, fazendo um trabalho com o Tod Epstein, e conversando com ele, descobri que uma das pessoas modeladas na PNL foi o Dr. Moshe Feldenkrais. Ele tinha um grupo de estudos na Universidade de Santa Cruz, na Califórnia, e nessa universidade, dois estudiosos, John Grinder e Richard Bandler estavam desenvolvendo um trabalho sobre lingüística, então aproveitaram a presença de vários terapeutas que estavam por lá e passaram a filmar, a observar, a acompanhar certos tratamentos, e o do Dr. Moshe Feldendkrais foi um deles. E quando eu estava em Penedo, pensei assim: “poxa, está faltando alguma coisa a mais pra mim... alguma coisa que não fique só na estrutura do pensamento e as organizações lógicas. Preciso de alguma coisa mais corporal...” E alguém comentou comigo: eu acho que se você conhecesse o método Feldenkrais você encontraria o que você vem buscando. Isso foi em 1996. Meses depois, Sabine, que tinha feito PNL e Feldenkrais veio ao Brasil dar um workshop, de mais ou menos uns dois, três dias. Eu fiz, achei interessante, peguei o endereço do Instituto na Europa, na Holanda, que é dirigido pela Mia Segal. primeira assistente do Dr. Moshe, e mandei uma carta, dizendo que eu era médico veterinário, que tinha feito todos os cursos de PNL e que estava muito voltado pra esse lado da saúde, e tinha interesse em fazer o curso do método Feldenkrais. Depois de dois anos, eles me responderam dizendo que tinha vaga, e eu fui pra Holanda. Durante 3 anos, fiquei indo e vindo da Holanda. Imagine o seguinte: ir e vir três vezes ao ano. Faça as contas: passagem, estadia, curso, o tempo que eu deixei de ganhar trabalhando aqui, e não perdi nenhum cliente. Isso significa que o meu trabalho, o meu caminho estava certo na época.Jornaleco: Você estudou com os discípulos do Dr. Feldenkrais?
Flávio: Sim, com a Mia Segal que foi a primeira e principal colaboradora dele e com o Erhard Klammerth, que estudaram com o Dr. Moshe, e com a Leora Gaster, que viveu sua infância participando desse grupo.Jornaleco: Como o dr. Moshe chegou a esse método?
Flávio: Ele era um físico, que começou a observar a atitude das pessoas em atividades reflexas. Por exemplo, se vem uma mosca pousar no nosso braço, a gente faz um gesto com o braço para espantá-la, etc. Ele passou então a fazer certos desenhos, e viu que existia um padrão reativo de defesa natural. Acabou escrevendo um livro que falava sobre esses movimentos de defesa: como cair no chão, como as pessoas usam o braço, essa coisa toda. A partir daí, ele começou a estudar um pouco de neurologia, de fisiologia, anatomia, mecânica, foi se envolvendo nisso. E o Mestre Kano, um japonês, um dos papas do judô, quando viu esse livro, até achou que ele havia copiado, ou compilado, dados dos fundamentos do judô. Aí ele quis conhecer o Dr. Moshe, e posteriormente, acabou convidando-o para ir ao Japão. Ele foi e a Mia Segal também. Lá eles estudaram a dança tradicional japonesa, porque ele queria entender o processo do movimento. Aprendeu judô, se tornou faixa preta, foi o primeiro europeu a receber a faixa preta. Em 1942, na Europa, ele escorregou em um bloco de gelo e bateu com o joelho no chão. O diagnóstico médico, foi o mais sombrio possível, dizendo que ele corria o risco de ficar paraplégico. Ele achou um absurdo, falou que o conhecimento das pessoas era limitado, que havia algo mais a ser conhecido, e começou a fazer um estudo de si próprio, das suas estruturas de movimento, e aí descobriu que era possível mudar os circuitos neurológicos que possibilitam o movimento. Mesmo com um traumatismo no osso, ele poderia recuperar a maioria dos movimentos que não estavam diretamente ligados ao trauma. E se recuperou. Aí ele viu que criou um método. Difundindo esse método entre amigos, acabou sendo convidado para ver certos casos de difícil solução, por fratura , por lesão, por derrame, etc, e respondeu que não era médico, mas começou a tratar desses casos . Há até um livro: O Caso Nora, que fala sobre isso E aí acabou surgindo o método Feldenkrais. Ele tem uma história comprida, passou por Israel onde tratou do primeiro-ministro, e também do primeiro-ministro do Japão. Aí ele foi para os Estados Unidos e lá ficou até morrer, em 1984, aos 80 anos.Jornaleco: E como funciona esse método?
Flávio: O método Feldenkrais oferece duas propostas: 1. que ele chama de consciência pelo movimento e 2. integração funcional, onde, através de movimentos, utilizando-se as mãos, a pessoa possa entender linguagens sensoriais, como peso, tamanho, lateralidade, distância, seqüência de movimentos, etc. A pessoa diz assim: eu tive um traumatismo no ombro, não consigo mexer o ombro. O ombro está interligado a antebraço, braço, cotovelo, mão, à todas as falanges, além do pescoço, cabeça, coluna e o resto. E todas essas estruturas são interligadas por tendões, músculos, ligamentos e isso tudo está interligado à circuitos neurológicos. Então, quando a gente tem um trauma existe um bloqueio na memória. Se eu propuser à uma pessoa que movimente o dedo polegar direito e se ela estiver com um trauma no ombro, esse dedo tem um movimento X. Então se ela mover o polegar do braço esquerdo, por solicitação minha, existe um outro tipo de resposta, diferente do movimento X. Eu vou então ver quem começa o movimento: a ponta da minha falange?, quem segue o movimento, por onde ele passa, até chegar no ponto final. O que limita o final do movimento, que respiração é utilizada. Eu estou desfragmentando a molécula do pensamento. E com um movimento acabo criando um novo trajeto sem aquele limite do trauma.Jornaleco: Isso quer dizer que em um trauma físico, eu posso ter um trauma neurológico também?
Flávio: Claro, porque o cérebro é físico. Continuando, na história do dedo, eu tenho de pedir à pessoa para que ela entenda como ela processa o movimento do polegar do braço esquerdo e entender o circuito e criar um circuito diferente, criar uma seqüência nova. E quando eu peço que ela compare os dois, o antigo e o novo circuitos, ela percebe ter criado um novo. Então o dedo se mexe de um modo diferente mas o movimento é o mesmo (o modo é aqui dentro da minha cabeça, do lado de fora ele mexe quase igual), e o raciocínio é assim: se o dedo se mexe diferente, aquilo que faz parte do mesmo circuito, às vezes ganha mais um pouco de movimento, e com isso vai se libertando circuitos em bloco e deixando só a lesão pela lesão. Aquilo que estava totalmente bloqueado, gera movimento ficando somente o limite do trauma físico.
Jornaleco: Você criou um método e fundou a PrintAction. Como começou isso?
Flávio: PrintAction quer dizer: P: desenvolvimento da percepção, R: reconhecimento da percepção int: que é a integração, o movimento, ação, em tempo real. Isso gera consciência, crescimento e aprendizado. Na minha cabeça, a PrintAction começou em 92. E ficou meio adormecida, até que no penúltimo ano de estudo do Feldenkrais, acompanhando meu filho no ciclismo, quando ele começou a fazer mountain bike, eu vi que ele não conseguia terminar a corrida e quando conseguia ficava mais transparente que uma louça, tossindo, cansado, etc. Então eu disse a ele: eu vou acompanhar três corridas suas e daí vou te mostrar o que você vem fazendo pra conseguir esse resultado negativo. Acompanhei, anotei e reprogramei as atividades do Daniel. Depois disso ele passou a ser pódio o ano inteiro. Com isso os amigos dele me procuraram, me pediram pra treiná-los. Eu dizia a eles: me descreva o seu corpo. E eles respondiam: cabeça, tronco e membros. Aí eu pedia: me descreva sua bike. E lá vinha uma detalhada descrição. Eu vi então que o atleta tem uma noção muito clara da bike, mas não do seu corpo, que ele nem sabia descrever, (nem sabe ainda hoje) que tem músculos, massa corporal, etc. E se lhes fossem despertada essa consciência, seguramente o resultado seria outro. Daí surgiu a PrintAction, e eu comecei a fazer palestras de orientação, eram palestras gratuitas, pra turma que ia disputar o campeonato mineiro, chamado de Ametur. E daí surgiu o encontro com o professor Carlos Fonseca, que estava fazendo um trabalho de pós-graduação na USP, no Laboratório de Fisiologia do Exercício, e começamos a trocar mais informações. E resolvemos acompanhar atletas de mountain bike, com a finalidade de levá-los a realizar seus objetivos, e de prepará-los para competições nacionais e internacionais que pudessem destacá-los e levá-los aos campeonatos mundiais e as olimpíadas.Jornaleco: Você teve algum caso difícil?
Flávio: Muitos. Mas o respeito à natureza humana tem de ser maior que a ética e a vaidade.Jornaleco: Flávio, você também escreveu um livro?
Flávio: Escrevi. Chama-se Aprendiz de Ser Humano. Saiu em dezembro de 2002, pela editora Abrather.HomePage: PrintAction
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